Ucharias reais


 

As despesas exorbitantes das ucharias reais diversas vezes foram denunciadas a D. João VI. Nos anos de 1804 a 1806, os gastos de boca, orçados em 1276 milhões de réis, representaram mais de um quarto das despesas totais da Casa Real, correspondendo a uma média anual de 322 733 333 réis. Num dos seus Memoriais, escreve João Bernardo da Rocha Loureiro: "Temos em nosso poder as contas por alguns meses das despesas da cozinha e ucharias reais, quando a família real se achava em Mafra, e podemos dizer que a sua monta faz estremecer as mãos rotas da mesma prodigalidade. Era impossível que os povos dentro das cinco léguas em circunferência de Mafra pudessem comer os víveres que nos mapas se dão por consumidos em cada dia nas ditas ucharias. Por certo que nessa repartição havia mais ladrões a roubar do que dentes e queixos a mastigar". O visado neste comentário era o Intendente Geral e Comprador nas ucharias, o 13º Conde de Redondo, D. Tomé José Xavier de Sousa Coutinho Castelo Branco e Meneses, o qual "dava em despesa diária para a Casa Real em Mafra sete porcos e seis arrobas de vaca".

 

 

Cozinha dos Assados

 

Dependência áulica cedida, em 1904, pela Administração da Casa Real à Escola Prática de Infantaria para nela se preparar o rancho-geral.

 

 

Beresford

 

Participou com o general Wellesley e o Marquês de La Romana num banquete, realizado no Palácio de Mafra, na tarde do dia 7 de Novembro de 1810, o qual foi seguido de muitas luminárias. A Sala da Benção foi para o efeito sumptuosamente engalanada. Eusébio Gomes afirma que o ágape se destinou a celebrar a tomada "aos Franceses [d]as Ilhas Maurícias e muito cabedal".

 

 

Dom João VI

 

Diz a tradição que D. João VI era um bom gastrónomo, tanto que se conta que, numa das suas viagens de Mafra para as Caldas da Rainha, à sua passagem no Livramento, veio o Prior da freguesia com o pálio, para o caso de Sua Alteza querer entrar na Igreja. O monarca estava comendo uma perna de frango e declinou o convite. Num jantar oferecido pelos franciscanos ao soberano, em 28 Fevereiro de 1793, foram servidos: 87 pescadas, 52 pargos, 132 gorazes, 200 pescadinhas, 2 chernes, 18 linguados, 2 sáveis (com o peso total de 1024 arráteis, 18 arráteis de uvas, 1 caixa de passas moscatel, 16 arráteis de biscoitos, 1 queijo inglês de 10 arráteis, 8 arráteis de café, 1 arrátel e meio de chá Pérola (O Concelho de Mafra, 18/4/1936 e 17/6/1945).

 

 

D. Miguel

 

Este Príncipe passou algum tempo da sua mocidade no Palácio de Mafra. Os seus aposentos situavam-se no segundo andar da fachada Norte, nas salas contíguas ao torreão. Possuía um temperamento brincalhão, sendo frequentemente encontrado na cozinha a preparar guizados e a saborear os petiscos que ele próprio confeccionava. Tomás de Mello Breyner sublinha que "D. Miguel tratava todos os criados muito bem, lembrando-se dos nomes deles, dos filhos deles e até dos cães. Era muito dado. Entrava por casa dos rústicos e saboreava-lhes o pão de milho e a água pé, conversando com eles".