Tomás Pinto


 

Tomás Pinto Brandão 

Função Real na Sagração do Templo de Mafra

Silva

 

 

Antes que se me escape da memória,

meus devotos ouvintes, vá de história;

não tem mais mal, que ser por mim contada

que assim é uma matéria mui sagrada;

porém, também tem nisso alguma dita,

por ser mui verdadeira a minha escrita;

eu não assisti nela;

mas tenho um verdadeiro informe dela;

e ainda que de ouvida,

é duvidosa a história, ou menos crida;

também se eu lá me achasse ,

pode ser que das luzes me cegasse;

e se tudo não visse,

é força, se o calasse, que o sentisse;

com que para inteirar-me mais agora,

quis ouvir, e julgar melhor de fora:

porém sempre cantando ao aprazível,

que ser nisso mudável, é impossível;

e até aos inimigos,

que calo, de respeito a meus perigos,

a vénia tomo, e a reverência;

se não gostarem tenham paciência.

 

Testemunha 1

        As testemunhas vêm; vamos a isto:

foi a primeira um homem pouco visto;

e eu em termos me paz de ir escrevendo;

mas ele, em termos me atalhou, dizendo:

Senhor meu, se você pasmos escreve,

pois quem a Mafra foi só pasmar deve,

eu, todo o meu dizer, em pasmo o fundo;

ponha aí, o maior que, houve no Mundo!

Também eu, lhe disse eu, estou pasmado

do seu dizer; e estou no mesmo estado!

fale vossa mercê com mais clareza:

pois, amigo, disse ele, tal grandeza

nem a diria bem, quem mais a visse,

quanto mais quem é cego; e al não disse:

com que, sem dizer nada o meu amigo,

se foi pasmado, e assinou comigo;

porém outro virá, talvez mais mudo,

que tudo diga, sem que conte tudo.

 

Testemunha 2

     Outro entrou, fraca roupa, e de baeta,

que tudo são insígnias do Poeta;

eu, porque o vi tremendo, juraria

que jurar falso o pobre quereria;

por isso o juramento lhe dei logo;

mas disse, que poria a mão no fogo;

e perguntado pelo conteúdo,

as sobrancelhas me arqueava a tudo;

sacou do bolso, e deu-ma por escrito;

em cuidando que o homem me encovava,

abri logo o papel, que isto encerrava:

(são só duas Quintilhas

que uma se funda em duas maravilhas)

 

     No mês em que anos fazia

Monarca Lusitano

é que Mafra mais luzia;

vinte e dois (formoso dia!)

quarenta e um (Real ano!).

     O que eu neste dia vi

não cabe em dito comum;

e se houver Poeta algum

que o queira meter em si,

é mais louco que nenhum.

 

Foi-se, sem mais dizer, que não foi pouco;

e quando nada, me chamou mais louco.

Mais pudera dizer do ano, e dia;

mas coitado, talvez não saberia.

 

Testemunha 3

     Seguia-se o terceiro,

que dos costumes, disse, ser Pedreiro;

e perguntado pela pedraria?

respondeu, que a compasso, Cantaria;

assim o fez; que esteve na Pedreira,

e das Torres falou nesta maneira:

Torres novas não há, nem Torres velhas,

que com as que lá estão; façam parelhas:

ninguém  na da Trindade mais me fale,

porque qualquer das duas, por três vale:

e se à do Carmo a do Loreto agregam,

uma posta sobre outra, não lhe chegam.

a de Moncorvo é forte desvario

a de Belém, da Barra, e do Bugio,

todas se põem por terra à vista delas,

que as pedras se levantam contra aquelas:

todas prostram (não cuide que lhe zombo)

todas tombam que são Torres do Tombo

mas teve o Mestre um grande companheiro,

que muito ajudou, Pedro Pinheiro!

Pois da função, disse eu, não me diz nada?

não, senhor, me disse ele; e só a entrada

vi; mas foi porque dei à Torre um salto,

que só podia ver-se de tão alto:

pois desça para baixo; e vá-se embora,

que temos de fazer: quem está aí fora?

 

Testemunha 4

     Nisto entrou um Sineiro,

e creio que também  Relojoeiro;

pois logo sem demoras

me disse, que em dois modos vinha a horas,

de jurar, e tocar, o que soubesse:

e eu disse, que jurasse, e que tangesse;

disse pois, que era pobre por estrela,

e que por sino se vingava dela.

isso, amigo, disse eu, é escusado;

fale nos sinos cá, deixe o estrelado:

pois creia-me, disse ele, que só estes

podiam competir com os celestes;

porque o metal da voz é tão subido,

que até dos Astros pode ser ouvido:

mas voltando aos da terra, sem remoque,

já nos do Céu não falo, nem por toque,

que assim devo fazê-lo;

porém para melhor poder dizê-lo,

permita, que em metáforas me esgote;

e pois vi aos primeiros de capote,

que aos centos os contaram;

tafuis de fundição; que os baralharam;

porque em jogo dobrados os explique,

de mão será preciso que os repique:

o grande entrou rodando em jogo franco,

e o jogo ia perdendo de barranco;

mas uma Real carra, que lá teve,

tal forma lhe deu, em tempo breve,

que o jogo voltou logo,

por lhe acudir de paus um forte jogo;

com que ali restaurou todo o perdido,

e depois de abalado, foi tangido;

que vieram, aos centos,

homens de Mafra, tantos como tentos,

a levar todo o bolo, (e com bom gosto,)

que na mesa de campo foi reposto:

eu, tendo a paciência já cansada

de ouvir ao homem tanta badalada,

lhe disse: essa metáfora está boa;

mas no que toca a sinos, não me soa;

pois tudo o que declara,

lá no sino concorda; mas não ata:

levantou-se sentido,

e foi-se mais que os sinos, bem corrido;

ou iria de jogo a outra casa,

vendo, que nesta minha não fez vasa.

 

Testemunha 5

     Entrou cantando um moço,

que eu conhecia, músico do troço;

por sinal, que fazia

com ar de minuete a cortesia;

perguntei-lhe, se fora convidado?

disse que não, que esteve molestado;

e que uma voz divina, que ao Céu toca,

não cabia no Céu da sua boca;

mas na música entrando, com decoro,

disse, que um órgão vira em cada Coro;

e com o mesmo espanto

contou, que um Coro ouvira a cada canto;

e que era de seis órgãos a harmonia;

as vozes, veja agora o que seria?

Músico que adoece

em tal função, disse eu, fraco parece;

e assim veja o que jura, com efeito,

quando não, hei-de dá-lo por suspeito:

pois, disse ele, bem pode chamar outro,

que eu mais não canto; ainda que vá a um Potro:

foi-se; e o pouco que disse não me espanta;

que aquilo não lhe passa da garganta.

 

Testemunha 6

     Chegou outro enfronhado em fidalguia,

que informar-me de Mafra bem queria;

e sem eu lho oferecer, tomou assento;

mas dei-lhe de fidalgo o juramento

com bastante trabalho,

porque lhe inquiri logo do agasalho?

eu, disse ele, não sou cá dos melhores,

mas tive lá lugar; não dos piores:

porém na minha quinta retirado,

em três anos estou desempenhado.

Pois vossa Senhoria,

lhe disse eu, não achou lá companhia?

Sim achei, me disse ele, a dos Soldados,

mas foi força ficar na dos quebrados;

o que vi da função, não sei dizê-lo,

podendo, mais que alguns, ouvi-lo, e vê-lo:

e aqui para entre nós (que aqui só fica)

a Obra é pia, santa, nobre e rica;

sem embargo, que tanto tem custado,

porém de El Rei o intento foi sagrado:

que andou bem eficaz no seu empenho,

eu o juro, pelo hábito que tenho:

e juro mais, pelo hábito de Cristo,

que outro Rei tão feliz se não tem visto:

aqui se ergueu; e com desembaraço,

me disse, a Deus, a Deus, que vou ao Paço:

foi-se: mas eu também, indo à janela,

vi, que ia a passo, em mau rocim, e sela;

que seria a razão, ficar quebrada

a sege, e mais a besta, da jornada.

Eu não lhe vi o hábito; mas creio

que o traria metido no seu seio;

e seria Bentinho sem divisa,

que encobria debaixo da camisa;

mas para seu abono,

parou pelo de Cristo, de outro dono;

e será o primeiro

que por hábito jura de Terceiro.

 

Testemunha 7

     Chegou um Frade gordo, e reverendo,

que logo pela porta entrou dizendo,

In verbo sacerdotis jurar posso:

tenha mão, lhe disse eu, ó Padre nosso

vossa Paternidade

bem pode sem jurar dizer verdade:

pois digo-lhe, disse ele, que admirado,

venho de ouvir, e ver tanto sagrado!

afirmo-lhe, por certo,

que entrei no Templo, e vi o Céu aberto;

pois, de cantos celestes,

Divinas cerimónias, Sacros Prestes,

toda foi Sacramento aquela glória,

que entre os Cristãos ficou para memória;

e ficou pelo tanto,

também o nosso Padre, rico Santo;

pois o Rei, com grandeza,

lhe vestiu de fartura a sua pobreza:

quando eu em Mafra vi tanta fartura,

de Caia me lembrou a formosura,

de tanta Majestade,

tanto Título, e tanta Dignidade,

se encheu a Vila, de uma, e outra sorte,

que era Cúria pequena, e grande Corte!

in secula per omnia

no Mundo durará tal cerimónia:

aos latins deitei eu a língua fora,

pois também em latim se foi embora.

 

Testemunha 8

     Seguiu-se um Castelhano, com tal brio,

que logo entrou ralhando, Señor mio,

yo vengo atolondrado,

Jesus, y que Monarca Dios le ha dado!

en la rueda del tiempo prezuroso

no se ha visto año, y dia más hermoso!

Con el dia cumplio su Magestad,

y tambien con el año de su edad;

por mas señas, que llenos de primores

y de affectos, los grandes, y menores,

à qual mas cortezano,

todos le fueram a bejar la mano:

y el Monarca, bañado en alegria,

a todos, con agrados recibia;

por esto, y lo que he visto de otras vezes,

fuerte embidia me dan los Portugueses!

Allá en mi tierra huvieron profecias,

que se haria el tal Templo, nò en sus dias;

manifiestos engaños,

pues en sus dias fué, siendo en sus años:

un proverbio vulgar, dize, que al hecho,

del dicho, quasi siempre vá gran trecho;

pero su Rey lo ha buelto por capricho,

que en el, mucho mas fue, del hecho al dicho;

y yo en el hecho he visto, para exemplo,

màs de lo que me han dicho de su Templo:

que es, de su Rey, lo fuerte, hazer visibles

aquellos que parecen impossibles;

y basta el Cielo, parece

que en detener las lluvias le obedece;

es liberal Monarca, sin segundo,

a quien le viene estrecho todo el Mundo;

y deme usted esse pliego,

porque tengo de embiarlo à Madrid luego:

aguarde usted, señor, que aun es temprano,

lhe gritei eu, também em Castelhano;

e porque a mais amigos corresponda,

será melhor que vá letra redonda:

bien está; me disse ele, e foi-se embora;

pero que bolveria en mejor ora:

e eu gostei do seu dito;

porque combina cá com o meu escrito.

 

 

Testemunha 9

     Entrou outro bizarro, e com bom modo,

todo melífluo, e mesurado todo,

Estrangeiro Católico, e Romano,

que se explicou por este Italiano:

Che poss’ io dir, di sì mirabil Opra,

ch’in rozze lodi, I preggi suoi non copra?

d’um Opra, ch’al gran fatto, hà superate

le maraviglie dell’antica etate?

Più la fama; non voli

di quelle, vaste si, má egreggie mòli

dell’ alto Colisseo, dell’ Escuriale,

es’altra v’è di maggior grido, ò eguale:

Dal sen del bianco marmo rica vati

frutte, e frondi vid’ io, vasi, ed ornati,

che dubbioso restai, se di natura,

ò di destra mortal sosser’ fattura!

Restai dubbioso, se spargesse odore

cosi vero, e vezzoso era ogni fiore:

in somna, é l’alta fabrica, e’l gran Tempio

dell’ humano poter l’ ultimo esempio:

E’ un trionfo del tempo: è dell’ ingegno

il men creduto, èl più felice impegno:

e senza ch’in lodarla più m’ affanni,

è un Opra, degna sol del Gran GIOVANNI.

Eu tudo lhe entendi bizarramente,

e mais não sou na língua mui corrente;

porém, na despedida, ao Dom Francisco,

lá lhe empurrei, rasgado um  Reverisco.

 

Testemunha 10

     Cerrou a inquirição um conserveiro,

que também me cheirou a cozinheiro;

pois em matéria a papa reservada

meteu também a sua colherada;

ao qual eu fiz na mesa um cumprimento,

porque de outra Reais faria assento;

disse  que a Mafra fora, ele, e mais quantos

na Corte havia, e lá se acharam tantos;

que como mestre que era na sua arte;

juraria o que coube à sua parte

e eu, no seu veria

dos mais o juramento qual seria:

e tanto o homem disse em meio quarto,

que uma folha me encheu, e não fui farto;

Contou tanta riqueza, sem jactância,

e tanta dos manjares a abundância,

que o número dos pratos não sabia;

mas que ouvira dizer, que custaria

mais de cem mil cruzados; que isso monta

gasto Real, de boca feita a conta,

que o estado das mesas,

uma fartura fora de grandezas;

com tão Reais bocados,

que as mesas igualavam aos estados.

A dos Frades foi mais que tudo isso,

pois, sobre grande, teve Real serviço;

porque baixou de toda a Majestade

o nosso Rei, à mínima humildade;

mas de Cristo aprendeu esses primores,

de servir os Maiores aos Menores:

nos fragmentos que dela sobejaram;

deu a entender (se acaso se contaram)

que podiam fartar a mil desejos,

falou nas mesas tudo com largueza,

e foi muito o que disse sobre mesa;

eu, vendo informação tão comezinha,

gostei dela, e ainda fome tinha

de ouvir o cozinheiro, ou conserveiro,

que ainda homem não vi mais verdadeiro,

nem que mais bem do dito se saísse;

porque tudo provou, quanto aqui disse.

     O que visto, e o mais que se não olha,

nestas dez testemunhas dobro a folha;

porém eu, sem embargo a tanto dito,

acho que este processo é infinito;

e por dar ao meu feito melhor uso,

a juízo melhor o fiz concluso.

     Lembre-me Deus em bem; eu na jornada

que fiz a Mafra, próxima passada,

a pouco, e muito estudo,

disse que a admiração dizia tudo;

porém também dizia,

que esse tudo, ainda nela não cabia;

dizia mais, e estou disso lembrado,

que o néscio se encobria no calado;

com que, não fora mau, nisto que conto,

fazer de admiração também o ponto:

valha-me Deus, não sei que faça agora

nesta minguada, ou apressada hora?

ora, lá foram grandes, e pequenos

que vêem muito mais que eu, (e alguns vêem menos)

orem todos por mim, pois corro risco;

e ora pro nobis Padre São Francisco;

para que El Rei, a impulsos soberanos,

mais Templos faça, e viva muitos anos.

           

                    VIVA

 

 

Função real na sagração do Templo de Mafra: Sylva, Lisboa Ocidental, Oficina da Música, 1730

 

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Tomás Pinto Brandão

 Descrição de Mafra

Romance

 

 

Quem quiser  da minha Musa

ver o pobre cabedal,

aqui lho descubro, em Coplas,

que acabam todas em Al.

As mais delas vão tecidas

naquele humilde troçal,

que urdi sempre, ao Português;

e só uma ao Juvenal.

Tudo uma pura clareza;

e uma verdade leal;

tudo um conselho maduro,

que parece verdeal.

Trinta anos me degradou

a fome, que é criminal;

e a Mafra também corri

sem sair de Portugal.

A Mafra fui; e o que vi,

só cabia no mental;

porém que lhe hei de fazer?

Vá de pintura verbal.

Ainda não vi semelhante

dilúvio de pedra, e cal,

Babilónia de mais línguas;

Arca de tanto animal!

Certamente afirmar posso,

que de doutrina braçal,

tanto Mestre não topei,

nem vi tanto Oficial!

Uma Babilónia era;

mas não, que era mais formal;

porque ao Céu se dirigia,

e a outra foi infernal.

Não creio que haja no Mundo

Edifício tão cabal;

porque nenhum chega, a este

Português Escorial!

A Batalha, é um deserto;

Alcobaça, um arraial;

uma imperfeição Belém;

e só Mafra é principal.

Foi formada a toda a pressa,

mas tudo a braço Real;

nem se viu ainda à Capucha

estrondo tão liberal!

Bem mostra ser Deus, da Terra,

quem do Caos de um carrascal

criou um formoso Mundo,

a tantos Universal!

Era tudo o que vi junto

um primor artificial;

artificial? Mas disse,

que era tudo natural.

Eu, vendo tantos prodígios,

posto que condicional

meu prognóstico fiz,

que também sou Sarrabal.

E é que há de vir, da Ericeira

direito a Mafra um canal,

por onde os barcos caminhem,

e seja estrada naval.

Item que virá a ser Povo

de um, e de outro Tribunal;

com Justiça, em Crime, e Cível;

com Senado, e Vidigal.

E que, enfim, será, a que era

até agora um areal,

para os Frades um Condado

maior que o do Sabugal.

Onde as almas terão muito

regalo espiritual;

posto, que, no muito vento,

também será temporal.

Isto é (Deus sobre tudo)

que dou neste Edital;

e submetendo-me à Igreja,

entrarei mais ao moral;

Jesus! Que soberba obra

formosa, e substancial!

Na Itália não é possível

que haja pedraria igual!

Tais pedras se têm achado

naquela mina actual,

que só resta descobrir

a Pedra Filosofal!

Eu me vi, e eu me revi

na Igreja, e seu frontal;

um espelho é cada pedra

mais pura do que um cristal!

Seu intróito, cá na minha

também fabrica ideal,

grande Portal o supunha;

mas não tinha por tal!

Das colunas a eminência

é como a de um Cardeal;

São Pedro as não tem maiores

na sua Igreja Papal!

Se o nosso Alcides não fora

sempre a mais, no mineral,

de molde o Non plus, lhes vinha,

e com letra garrafal.

Pintadas por natureza

de excelente visual,

de outras nenhumas são cópia,

são de si original!

O Zimbório é uma ilha

de Madeira, e de Faial;

que um Pico há de ser de Mármore,

em forma piramidal.

São Vicente, atrás lhe fica;

Santa Engrácia, é eternal;

a Graça, lá tem alguma;

porém Mafra tem mais sal

São Nicolau, é sofrível;

Santa Justa, é trivial;

a Sé velha, é uma Sé velha;

O Hospital, um hospital.

A Misericórdia, é rica

para o vivente, e o mortal;

tem bom tecto, totalmente;

mas Mafra é Mente total.

O Alecrim, é uma folhagem;

O Loreto, um pedernal;

São Roque, uma boa Casa;

Santo Antão, um bom Casal.

A Sé nova, é assim, assim;

São Julião, tal, e qual;

São Francisco, uma pobreza;

São Domingos, um terral.

Carmo, caíu agora;

a Trindade, tem pontal;

a do Sacramento, é mesmo,

como aquela do Quental.

São Paulo, tem Boa vista;

e só é no essencial,

uma Coluna da Igreja

ou de Fé, um pedestal.

A dos Paulistas, é mina

de pedra superficial;

e ainda que ouro nos mostre,

não será Mina Geral.

Os Caetanos, ainda bem;

a do Desterro, ainda mal;

a de S. Bento, é Mongice;

a de Jesus, um Cardal.

A Esperança, nem do nome,

para ser maior, se vale:

mas ainda assim, é virtude

justamente Teologal.

Os outros Templos de Freiras

com todo o seu enxoval,

de pedra pedem esmolas

a Mafra, em memorial.

Santo António de Lisboa,

é maior, que o do Tojal;

mas foi um milagre, achar-se

riqueza em pobre Saial.

Nesta que além da Sé fica,

Paróquia individual,

bem cabe São Jorge a pé;

mas a cavalo, bem mal.

São Lourenço, é mui chamado

para o Noto, ou o Austral;

porém a Igreja, é de grelhas,

ou de Gralhas um coval.

São Cristóvão, sim é grande,

e o maior que há no Missal,

mas todo o corpo da Igreja

cobre ele com seu Pinhal.

O Paraíso, só é

(falando do material)

pela humilde arquitectura,

Paraíso terreal.

São Bartolomeu, é Igreja;

porém lá tem um frechal,

que é o Diabo, em que se pega

o fogo de São Marçal.

O Salvador, Madalena,

e a do Monte, doutoral

são como os Mártires, que ainda

moram no Ferregial.

Nas Mercês, também não vejo

que haja alguma especial:

São Martinho, com meia Capa

se cobre, ou meio sendal.

Os Anjos, enquanto aos Anjos,

é coisa celestial;

enquanto, à Igreja, já vimos

alguma mais curial.

No Castelo, a Santa Cruz

é de Igreja um só sinal:

o Socorro, dava ajuda,

a algumas; e hoje é neutral.

São Sebastião, lá fica

afastado do usual;

e ainda que tem Pedreira,

apenas chega a um cunhal.

Santos, é mirrada Igreja

na trindade fraternal;

isto é no vulgar sentir,

que não é no literal.

A Glória pela calçada,

pena me dá corporal:

a Pena, também é pena

ficar lá junto ao Curral.

São Mamede, Santo André,

São Tomé, e a Marinhal,

são quatro, e não fazem uma

em vulto Paroquial,

São Pedro, São João da Praça;

São Miguel, e outra que tal,

são de Alfama; e não são coisa;

sendo coisa Oriental.

São Tiago, é um buraco;

os Loios, é um pombal;

Santa Luzia, um argueiro;

Santa Apolónia, um queixal.

Os Grilos é uma gaiola,

mas de bom canavial,

onde qualquer deles canta

muito melhor que um pardal.

No Rilhafoles me dizem,

que há nova Oração mental;

mas essa não borra o livro,

que é de Oração Manual.

São José me ia esquecendo;

sendo também Patriarcal;

é de pedra uma relíquia,

e de pau um Santoral.

Nesta desfeita de Igrejas,

por minha ordem bocal,

só na Conceição não toco,

que é um Templo Virginal.

Se outra me escapar alguma,

será culpa venial

que a deixe, por escondida,

ou por pobre pastoral.

Finalmente, não há Igreja

como a de Mafra triunfal:

e os Arquitectos das outras

digam se a prova é legal.

Venham com as contraditas;

e haja vista o meu Fiscal,

que bem necessita dela

pelo esquerdo lagrimal.

Venha com seu parto frio,

metendo em roda o panal;

que não será o primeiro

enjeitado Madrigal.

Não posso mais, por agora;

porque a falta de olival

me vai finando a candeia;

nem tenho outro castiçal.

Perdoem-me, se não fui

na relação pontual;

que ainda o serei na Audiência

do grande Pontifical.

E quem deitou nesta obra

a pedra fundamental,

logre eternas estas minas,

e as outras de outro metal.

De umas, rochedo perene,

de outras, Rio manancial,

veja, e viva, até que seja

só do Mundo o Imperial.

Dando ao Militar aumentos

adornos ao Clerical;

ensinos ao Ministral,

e prémios ao Serviçal

Pois com tal receita eu fio,

sendo a todos cordial;

que a Glória alcance, por meio

da Graça medicinal.

Eu o escrevi neste Reino,

com licença Triunviral,

e se imprimi-o na Oficina

da Oliveira Musical.

Louvando a Deus sobre tudo

que este é o ponto final;

e al não disse, Tomás Pinto

em Lisboa Ocidental.

 

Descripção de Mafra por[...]:Romance. [Lisboa Ocidental], [1730]

 

 

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Tomás Pinto Brandão

 Segunda Jornada a Mafra

por outro Caminho e pelo mesmo

Romance em EL

 

 

     Já que os meus pios Leitores

se pagaram do Aranzel,

que todo acabava em AL,

ouçam outro agora, em EL.

Deus, que me livrou de um forte

febricitante escamel,

por meio da caridade

de tanto Cristão fiel,

Permita que eu tire a algum

o chapéu, com mais cairel;

e lhe ofereça de Mafra

este segundo papel.

     Do primeiro, em algum passo,

se me estranhou o tropel

com que corri Sarrabal,

e não andei Samuel.

     Mal haja o Comentador,

mau poeta, e machavel,

que de qualquer ruge ruge

me levanta um cascavel!

     Porém hoje, eu desafio

neste métrico cartel,

de Hipocrene, e do Parnaso

ao Pégaso, e o Azemel.

     E terá tal graça a Musa,

que com seu pobre fardel,

possa ufana, ainda que indigna

chegar a tanto docel.

     Talvez, como é sacrifício,

que ao invejoso cruel

lhe faça cair o queixo,

essa inocência de Abel.

     Digo pois, que enquanto aos Templos,

nem chegam ao Capitel

do nosso Rei Dom João,

os de El Rei Dom Manuel.

     No que toca a alojamentos

daquela praça novel,

a Soldados de Cordão

não se dá melhor quartel.

     A farda tem seus remendos,

permitidos no burel;

porém o soldo é Real,

e o pagador Bacharel.

     O condado que eu lhes dava,

como muda o AL, em EL,

já não será Sabugal;

mas pode ser Mesquitel.

     Da confusão que eu lá vi,

digo, sem dizer Babel,

que mais caras, nem carinhas

há no mundo de Quifel.

     Vi uns, arrasando montes,

pondo tudo a olivel;

outros, erguendo Palácios,

ao machado, e ao cinzel.

     A alguns o muito trabalho

amargava como fel;

mas a muitos, esse mal

lhes sabia a pão e mel.

     Procurador do tal mundo

era um Leandro Gorgel,

que às partes satisfazia

como um Letrado Neutel;

     A sua guarda, ou adjunto

era um Custódio Rangel;

naquilo de aconselhar,

um segundo Aquitofel.

     Destes eram Quadrilheiros

dois, lá de Banabuquel;

um, de homens apontador,

outro de bestas Coidel.

     Pelos ramos se sabia

de Mafra o melhor cancel;

que lá só o Taverneiro

é que levava o laurel.

     Pipas cheias, Malvasias,

de Bastardo, e Moscatel,

das Ilhas, de Barra a Barra,

do Barreiro, e Carcavel.

     O vinho, e pão, se cozia

no humano forno, ou coirel,

onde a Pá andava a rodo,

e onde rodava o pichel.

     Muita canastra de fruta!

De pão muito canistrel!

Tudo vendido sem Taxa,

por falta de Almotacel.

     O pão, era uma cezilia!

A uva um Caramachel!

E isto tudo era a fartar,

sendo o dinheiro a garnel.

     Do Vinho era muita a telha,

de Água também muito o anel,

sem que a fosse adivinhar

O Frade Frei Daniel.

     Todos lá comiam porco,

por haver pouco mantel;

mas neste Malcozinhado

servia o sarapatel.

     Lá vi muita bandeirinha

de Damasco, e borcatel;

postas nas meias calçadas,

sem ser meias de Pinhel.

     Eu hei-de achar assoantes,

mas que vá a Coromandel,

passando a Linha, fiado

na Agulha do Pimentel.

     Lá farei o meu negócio,

a troco de algum tonel,

e depois que abarrotar

de assoantes o batel;

     Virei por aí ventando,

no navio de aluguel,

buscar da Roca o focinho,

ou o rabo de Espichel.

     Aí pode ser que encontre

da Guarda Costa o Baixel,

que me cole pela barra,

defendendo-me de Argel.

     Saltarei de noite em terra,

a buscar um Furriel,

que os desembarque por alto,

sem que o saiba o Coronel;

     Que mos leve para casa

debaixo do sem Xarel,

antes que vá do Tabaco

dar busca Dom Gabriel.

     Mas temo que me malcine

algum tentador Luzbel;

que por falta de cristal,

tem um olho de cristel.

     Ele lá busca respostas,

que lhe sirvam de borquel,

a uma sua (arrelá silva!

ou a um seu) irra vergel!

     Mas teriam seu Presente,

coberto c’ um Alambel;

de alguma formosa Torta,

irmã dele Autor Pastel.

     Não foram mais bem louvados

de Niquea o Floricel,

Dom Quixote de la Mancha,

e o Barão de Turunel.

     Mais amores de Comédia,

não disse à Dama Raquel,

O de Fox, o de Beárne,

e o guapo Carlos de Urgel.

     As respostas são codilhos,

nesse seu jogo infiel;

que iam a dourar-lhe o bolo;

e foi tudo um ouropel.

     Anjo se chama no livro,

mas do pé de São Miguel;

porém não no Dicionário

do Anjo Dom Rafael.

     Concluo, pois, que de Mafra

a Descrição, e o painel,

não cabe em humilde pena;

só toca ao Real pincel.

     Sinto não ter uma pluma,

melhor que as do Curviel,

para escrever com mais ar

nos amantes de Terruel.

     Perdoem-me, que não sou

 mais largo neste parcel;

porque há de haver outro em IL;

e este é o caso, el, por el.

     Louvando sempre  à Senhora

Prima de Santa Isabel;

Virgem, e Mãe, com seu Filho,

Dominus Deus Israel.

 

 

Segunda Jornada a Mafra por outro caminho, e pelo mesmo[...]: Romance em EL. Lisboa Occidental, Oficina da Música, 1730

 

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Tomás Pinto Brandão

 Jornada terceira a Mafra por outros caminhos, e alguns atalhos do mesmo teimoso Tomás Pinto Brandão

Romance

 

 

Acabou-se o AL, e o EL;

escutem-me agora em IL;

porque [a]inda quer mais brincar

a minha Musa pueril.

Como é o assoante estéril,

posso dizer estéril;

e ninguém me há-de negar,

que foi agudo este ardil.

Nada por ora direi

(pois mo manda o Ministril),

nem de torto criminal,

nem de Direito civil.

Já lhe não meterei medo

com meu rebuço ferril,

em forma de farricoco,

vestido de bertangil.

Vá tudo em Paranomias,

por mais grave, e mais subtil;

ainda que aqui tanto val

verso nobre, como vil.

Aqui a lira de Apolo,

e do cego o tamboril,

se avaliam tal por tal,

e iguais sem ler til por til.

 Fui terceira vez a Mafra

no meu humano carril;

que das duas a vi mal.

Eu cuido que não vou bem

por tão delgado perfil;

presumido que sei tal,

sem ter de Musa um ceitil.

Temperemos estas gaitas

de modo, ou grave, ou servil,

que vá uma ao pastoral,

e outra fique ao pastoril.

Mas receio algum estorvo;

porque nunca falta um gil,

que venha do seu coval,

meter-se no meu covil.

E há nesta terra Poeta

de ânimo tão vergantil,

que me volta em Juvenal,

a Musa que é juvenil!

Porém, a poder que eu possa,

Hei-de embotar o manchil,

a qualquer fraco revês,

com atalho varonil.

Bem sei que de mim dirá

alguma Musa mongil,

que sempre o meu pé de verso,

de porco há-de ser pernil.

E que o meu Pégaso é égua,

que nada tem de infantil;

que a sua Hipocrene é égua,

coada por um mandil.

Eu tudo isso, e mais sofro

à tal Musa mulheril;

mas ouçam esta, de espécie

toda de picta viril.

Ouçam-me pois os discretos;

(e até Luiz Cordovil, que é um homem que ouve pouco, mas tem assento, e quadril.)

Eu já nas duas jornadas

avaliei, mercantil,

o Cantil, e o Gravatil.

Resta-me dizer de Mafra,

vendo-a com gala gentil,

se até agora estéril foi,

que é já um fecundo Abril.

Era, como viam todos,

outro segundo Arganil,

outro escalvado Torrão;

e é hoje um verde trovil!

É a terra hoje, por ser

aguada com Real gomil,

um jardim à Portuguesa;

e a Castelhana, um pensil.

Finalmente, joeirando

desta mina o esmeril;

e dando inteiro valor

ao Real, e ao Senhoril.

É pouca a que a verde veste,

e cobre o celeste anil,

para o REI de PORTUGAL,

e o PRÍNCIPE do BRASIL.

Quero atiçar a candeia,

porque não tenho fuzil;

azeite sim; de Cascais

me vem sempre o meu barril.

E dele posso dar luz

a quem só tenha um candil,

ainda que esteja  fechado;

porque se abre ao meu buril.

Eu não cantarei falsete,

nem terei voz feminil;

mas quem me achar sal,

ouça-me por perrexil.

Sou um poeta azeiteiro,

evangelista funil;

zangaralheiro das Musas,

e das graças chambaril.

Me se há animal que me zurre

lá dentro do seu touril;

lá mesmo o há-de ir filar

a minha Musa perril.

 

Outro caminho em OL.

 

Agora, por variar,

mudemos o IL em OL;

e por subir a outra graça,

da qual achei caracol.

Para tudo há-de achar luz

o meu métrico farol;

e só ma pode apagar

um Revedor no crisol.

Aqui, por fruta vulgar,

ha muita inveja Reinol;

de que gostam os Poetas;

excepto algum Espanhol.

Oh quem, para descrever

de Mafra o grande arrebol,

fora uma Águia! Porque um Pinto

não se estende a tanto sol.

Ou ao menos, que tivesse

uma voz de rouxinol;

que era a tempo, e o mais perfeito

de apurar o meu Bemol.

Mas ai, que eu receio à Musa

um olhado, ou um tresfol!

e lá vem o antagonista

direito a mim como anzol.

Eu sou mui pequeno Apolo,

que não tenho girassol;

nem quem me responda a cartas,

que se fecham com ferol.

Fujamos deste lugar,

que é das Musas urinol;

e lenço, onde os assoantes

puxam mais pelo briol.

Eu cá tinha feito deles

na memória um grande rol;

mas voou-me da cabeça,

que é meu humano paiol.

 

Outro caminho em UL.

 

Se eu achara para Mafra

também toantes em UL;

eu teria um mar de sal,

maior do que o mar do sul.

Mas se em tudo faço vasa,

correrei, por bom taful,

todo o naipe das vogais

para a por de ouro, e azul.

Hei-de partir as palavras,

[a]inda que mo estranhe o vul;

porque o vulgo é sempre aqui

quem só os meus versos jul.

Muitos aqui me condenam,

ainda achando-me sem cul;

porém eu também os cosso,

porque lhe acho muita pul.

E ainda que degradado

me mandem para Chaúl;

às pedradas qual David,

hei-de matar um Saúl.

E ei-lo lá se põe à mira;

Quer-me atirar o gazul;

sem ver, que de munição

tenho cheio o meu paul;

Ouçam; que [a]inda a Musa achou

no fundo do seu baul

um soneto de A, B, C,

com seu AL, El, IL, OL, UL.

 

Soneto

 

Por dar um alegrão a Portugal,

toda a Mafra corri neste papel,

que trasladei em verso bem fiel,

fazendo consoante da vogal.

Bem sei que acharão nele pouco sal;

mas não hão de ver nele muito fel;

sei  que é para os amigos pão, e mel;

[a]inda que a algum Poeta saiba mal.

Eu cantei por natura, e por Bemol;

toquei ao pé da letra graças mil;

sem tanger de Belém, por ora, a mul:

Pois leia este meu Ré, Mi, Fá Sol,

sereníssimo o engenho do Brasil,

em mal, em mel, em mil, em mol, e em mul.

 

 

Jornada Terceira a Mafra, por outros caminhos, e alguns atalhos; do mesmo teimoso [...]: Romance. Lisboa Ocidental, Oficina da Música, 1730 [BN: L 1394 A]

 

 

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Tomás Pinto Brandão

Jornada que fez Tomás Pinto, pelo

Rio de Mouro, a Mafra

Romance

 

 

Cansado eu já de ocioso,

que era andar pelo Rossio,

(único divertimento que escapou aos proibidos)

Me expus a fazer viagem,

tendo a escolher dois caminhos;

ou ir-me a Rio de Mouro,

ou botar-me ao mar de Cristo.

No primeiro achei mais conta;

pois já, nos meus exercícios,

sei com quem ao mar me meto,

e com quem me lanço ao Rio.

A Rio de Mouro fomos,

eu, e mais uns tais amigos

como são, António Sanches,

e o meu Padre Frei Francisco.

A mim me coube por forte

ir, de Real tejadilho,

por companheiro de um Frade,

mui direito, e mui bem visto!

Fomos em nobre carruagem,

dando de Palácio indícios;

cortesias recebendo

a um, e a outro postigo.

Todos em nós reparavam!

E de tudo era motivo

trazer o nosso cocheiro

um encarnado vestido.

Eu não sei se me declaro;

mas tenha mão, eu me explico;

levava galões de prata,

e peruca o mais não digo.

Não me lembra, para o caso,

bem o dia, em que saímos;

mas, na bulha dos embarques,

era um dia de Juízo!

O guarda mor, que em viagens

era mais embarcadiço,

não ia em cavalo branco,

mas em murzelo, argelino.

Lá, finalmente, chegamos;

lá fomos bem recebidos;

lá jantamos, como uns leigos?

E como uns Padres, dormimos.

Lá separados ficámos;

mas tão pouco divididos,

que só se via a distância

no que vai da Ponte ao Rio.

E se hei-de dizer verdade,

este tal Rio mourisco

apenas água levava

que deste a um Cristão baptismo!

Quando eu ouvia de tantos

este Rio repetido,

e dito por tantas bocas;

entendia que era um Nilo.

E agora vejo, que e um pobre

um mísero ribeirinho,

para lamas, bem criado;

e para águas, mal nascido.

Com uma chamada ponte,

de crianças passadiço;

de pulga, um pequeno salto!

Fraco voo de um mosquito!

Lá fui hóspede daquele,

de quem sou, por seu capricho,

e serei, por meu regalo,

o que até aqui tenho sido.

A quinta, é das mais formosas,

que a minha boca tem visto,

os meus pés têm resistido,

e os meus olhos tem corrido?

Aquelas pernas celestes

em Capricórnio, e em Virgo:

as belas Coxas de Donas,

os dedos de Dama lindos!

Item nas Donas Gervásias

os refegos mais subidos?

Os Abrunhos de dois donos,

que é o Duque, e o Senhorio!

Uns, cá de Abrantes chamados,

lá eram os escolhidos!

E a outros de melhor pelo

preferiam os Calvinos.

Outras, há de vários donos

pernas, que também distingo,

porque são do Rei, do Conde,

da Marquesa, e até do Bispo!

De uma tal Guimar Esteves,

lá havia um tal pomarito;

a além desta, outras Babosas

tem os seus  pés lá metido.

Não somente de estrangeiros,

Flamengas, e outras, é abrigo;

mas dos naturais, Conforto;

e lambe-lhe os dedos, nisto.

O dono, de Bom Cristão

favorece aos peregrinos;

que eu lá vi pernas de Cristo?

Lá vi outro namorado,

que em verduras foi colhido;

e estando são, como um pero,

de cama está, por mais mimos?

Só de um, que por versado

tem de Camões o apelido,

desejei comer-lhe os Bofes,

a pesar do estalecido:

senhores, até aqui Pernas?

E deixo outros muito ricos;

sobre as quais guerras se movem

que em seu tempo não ha amigos:

Deixo mais os Atalantos,

digo a eles parecidos;

que qualquer é um pomo de ouro!

E em Maio, é ouro mais fino!

Por estes é sempre o Dono

dos ladrões mui perseguido;

e julgue-o um tal Fernando,

que é  nisso o Juiz do ofício!

Há outros nobres, que eu Calo,

(e nisso, mais os público)

que por mais gerarem, foram

capados de pequeninos:

Estes são filhos do sol;

há outros da lua filhos,

para os Médicos regalo!

Flagelo para os meninos!

Não somente para boca

aqui o meu conto aplico;

porque lá tinha regalos

para todos os sentidos.

Ver aquela variedade

(Seja o seu Pintor bendito)

das cores, que em verdes quadros

nos mostra, e nos da benigno!

Pois o ouvir, a cada canto,

as chusmas dos Pintassilgos;

os solos do Rouxinol,

e do Melro os assobios!

O cheirar, depois da Aurora,

em mais natural Rocio,

os cravos, lá sobre o tanque

dobrados, como  Narcisos?

O tomar o pulso a aquelas

que me chamavam a isso;

não por estarem  doentes,

mas sãs, furadas do bicho.

Em um se encerravam todos

os corporais sobreditos;

porque se todos gostavam,

era um gosto todos cinco!

É monte alvão para todos

esta quinta que repito;

pois  não tem  fruta vedada,

sendo a terra um Paraíso!

E com ter tanto de  farto,

nada o Dono tem de rico;

por ser a quinta de todos

os que lá vão dar consigo.

Que coisas dele eu dissera,

se não receara abri-lo!

Porque a prodigalidade,

com sua licença, é vício.

E até no vinte um novo,

ou Três Setes, que eu lhe ensino,

sendo na arte aproveitado,

na natureza é um perdido!

Mas eu só aqui morara,

com ele ao Mundo fugindo;

e também aqui morrera,

que eu não vi melhor jazigo.

Na ponte um doutor achamos

irmão do padre, e ambos filhos

não do tal Rio de Mouro,

mas do Jordão, e outro Rio.

Este tal, tem um candado

na ponte, e com tal Domínio,

que em bons termos, avassala

todos os do seu distrito.

São poucos os passageiros

que ali não achem, propício,

ou comestivo descanso,

ou albergue dormitivo!

Eu não vi casa mais farta,

nem trato, mais comesinho?

rica dos géneros todos,

e o melhor, é o feminino!

Porque deste a produtora

era guapa, a todo o brio!

Era, a todo o primor, franca!

E pronta a todo o capricho!

Cortesã, sem cerimónia;

bizarra, sem artefício;

e o universal agrado

era um natural feitiço!

É mui senhora de engenhos,

no conserva, e no entendido;

porque o doce está, em seu ponto,

e em  seu lugar o juízo.

Ninguém suspeições me ponha;

pois, por minha alma, ainda isto

é, do muito que lhe devo,

um diminuto recibo.

Ele é tão negociante

que até faz ganhos mosfitos

sobre castelos de vento,

que são uns fortes moinhos.

Nisto se avantaja a todos;

porque eu de alguns tenho ouvido

que o vento lhe ajunta a palha;

e a este lhe ajunta o trigo.

Nesta casa, em vários jogos

estivemos divertidos;

e o mais era o quinto em quarto,

que só para mim foi quinto.

Mataram-me, tão de todo,

que já do jogo não vivo;

levando-me de contado

toda a vida de codilho.

Co’a espadilha agachado

me atravessou um maldito;

perdendo ao Basto o respeito,

e cortando ao Rei pedido.

Mais eu, no jogo dos versos,

encartado em meu estilo,

com ele hei de ficar forro;

ainda que sempre cativo.

Assim os dias passados

do tempo que lá assistimos;

ora em folguedos perpétuos,

ora em regalos contínuos.

Andava o Dono da casa

sempre em incessantes giros

dizendo: boca que queres?

Isto: e logo vinha aquilo.

O café, pronto aos almoços;

que sobre Missa bebido

fazia bons cozimentos,

à alma, e corpo precisos.

Ó doce vida do campo,

pasto da alma apetecido!

Me se é apetecido; o corte

a quem não metes fastio!

No que das árvores leio,

em suas folhas escritos,

acho que a vida do campo

se compõe de quatro livros.

Ela é, Cortes na Aldeia

é de Cuidados retiro;

é Desengano do Mundo;

e é um de triste alívio.

Mas a viagem tornando;

o meu principal desígnio,

foi só de ir correr o Mundo

em Mafra: Deus vá comigo.

Senhor Apolo, meu amo,

aqui é que eu necessito

de tudo aquilo que acabe

no seu pórtico auxílio.

Uma procuração sua

me dê, com que a meu arbítrio

fique o usar de poderes

que em verso são concedidos.

Não quero alegar de falso,

como alguns dos seus Ministros,

que entram em Mafra conversos,

e saem de lá precitos.

Eu não sei mudar de génio;

e bem se vê nos meus ditos,

que sempre jocoso canto;

porém nem zombando minto.

E assim peço, senhor mestre,

que saia este romancinho,

já que não de todo sério,

ao menos mais claro, e limpo.

E nisto que pintar quero,

nada espero do feitio;

porém não; eu me retrato,

que no perdão, pago fico.

Partimos os três que fomos,

e outros três mais, que adquirimos,

de caminho, bem montados!

E de alforge, bem providos!

A légua e meia, alcançamos,

por pedreiras, ver aquilo,

onde era Pedro Pinheiro

mais que Brás Carvalho, rijo?

Oh homem, ditoso Pedro?

(lhe dizia eu cá comigo)

pois que sobre a tua pedra

um Templo a Deus se há erigido.

Não durmas Pedro em tal obra;

acompanha ao Mestre disso?

Que [a]inda que Pinto te canto,

não te quero arrependido.

Por este dedo, julgamos

ser o corpo desmedido

do Gigante; cuja testa

de três léguas descobrimos.

Ao Mundo novo chegamos,

e logo em estrondos vimos,

que o Mundo ali se acabava,

sendo deste ainda o principio!

Eu não sabia por donde,

entrasse em tal labirinto,

mas ainda que fiquei tolo,

não me dei por entendido:

na Babilónia das pedras,

sim me achava confundido,

vendo homens de mil lugares,

serem só do Lavradio!

Rompemos a ganhar centro,

por um exército misto

de Oficiais, e Soldados,

todos com Reais Serviços!

De Ponte Lima, logo

quartel nos deram, e abrigos;

de Marialva, socorros;

e de Unhão, fartos auxílios!

Vimos, em bom regimento,

da parte dos Algarvios

uma guerra, a ferro, e fogo,

em cortes, furos, e tiros!

Tendo nesta tal campanha,

para livrar dos perigos,

os Mineiros um Custódio!

E os Soldados, um Anjinho!

Lá vi alguns de bom talho!

Outros de tirano fio!

Daqueles, era um açougue,

e destes, um barbeirismo!

Constava esta grande Praça

de quarenta mil vizinhos;

que com Real Providência

eram todos socorridos!

Mas quando voltamos caras

da Igreja ao Frontispício;

alli, o intenti quae ora pro nobis, disse Virgílio.

Levantamos os mais os olhos;

fazendo tão alto o tiro,

que era o seu ponto às estrelas,

e lá ia dar em Sinos.

Chamem com mais propriedade

Torres Novas, a este sítio;

que as tem nas faces da Igreja,

de pedras, de novos brincos!

Dei nos sinos de futuro;

porque alguns que tinham vindo,

como estavam rebuçados,

não eram meus conhecidos.

Por grande, estava coberto

um, que o Título é bem lido;

e que a ninguém se dobrava,

pelo soberbo, inferimos.

Isto é o que toca a estes;

que em chegando o nunca visto,

será a maior badalada

que em verso se tenha ouvido!

Este Sino, sete estrelo,

com outros sete mesinhos,

virá posto em via láctea,

pelas Boeiras tangido.

Entraram com a boca aberta

no Templo, os meus cinco amigos;

mas eu  que a levei fechada,

fiquei com o queixo caído.

Os agudos epítetos

que eu nas vogais tinha escrito,

à vista de tais escolas,

foi matéria de meninos.

E ainda o que eu vou dizendo,

à sua vista , é um cominho;

que talvez, na boca de outro

pudera ser grão de milho.

Todo o homem que aqui chega,

se o Mundo não tem corrido,

nesta maravilha Oitava,

mais do que as que tem visto!

Tudo na Igreja corremos;

e de prodígio, em prodígio

cada instante tropeçando,

só na admiração caímos.

A admiração, neste  ponto

é o mais discreto aforismo!

Nem o discursivo presta

onde falta o compreensivo.

De mais disto, hoje o silêncio

anda entre os néscios valido;

y aun no cabe lo que ignoro

en todo lo que no digo.

Se os Escoriais, Versalhes,

e outro pela fama erguidos

Edifícios são de Reis;

este é Rei dos Edifícios!

Mas que há-de ser, sendo um Templo

Real, por tantos princípios,

por tantos meios, precioso,

e por tontos fins, Divino?

Faça, pois, tudo o que pode;

que é mais Senhor, e é mais rico,

um Rei, que a sua  moeda

todo o Mundo tem corrido.

E quando isto a inveja o cale.

Digam-no as bocas dos Rios

de metal, que a Inglaterra

por tantos canos tem ido!

Digam-no aqueles trezentos

e cinquenta e seis polidos

quilates, que a Holanda foram,

no gigante cristalino.

E diga-o o nosso Planeta,

por quem a jogar me inclino;

que se eu perco  ao quinto em quarto,

ele ganha ao Quarto, em Quinto!

Com isto, não sou mais largo;

que em assunto tão altivo,

não escrevo como quero,

porém como posso, PINTO.

 

  

Jornada que fez Thomas Pinto pelo Rio de Mouro, a Mafra: Romance. Lisboa Ocidental, Oficina da Música, 1730 [BN: L 1394 A]