Sistema médico galeno-químico do Morbo Hungárico


 

          Sistema Medico, galeno - químico do Morbo Hungárico, ou do Sumo grau das Febres agudas, coléricas, ardentes, atrabiliárias, intermitentes, perniciosas, contínuas, malignas, e pestilentas, complicadas com todos os sintomas funestos, e mortais, especialmente com vómitos negros, e dejecções atrabiliárias, como foram as que na quadra do Outono do ano de 1723 infestaram esta Corte de Lisboa Oriental, e Ocidental, chamadas vulgarmente: Vómitos Pretos. Segunda Parte. Consagrada, ao Misterioso, e Real numero quinário. Do Augusto, Potentíssimo, e Invictíssimo Senhor Dom João V. Rei de Portugal. [BN: cod. 10553]

 

          Dedicatória

          Senhor,

          Nunca esteve mais florense no orbe literário, a República das Letras, do que no tempo, em que Vossa Majestade dominando o Mundo político se fez nele tão respeitado pelas ciências, como obedecido pelas armas. Neste venturoso século admirou o Mundo racional em Vossa Majestade a sabedoria de Mercúrio, junta com o valor de Marte; como nos tempos passados viu no Império de Octávio e de Tito, a ciência unida com o valor e o ceptro na mão da pena; porque ambos estes grandes heróis foram valorosíssimos Césares, e doutíssimos Imperadores Romanos, muito honradores das ciências, e magníficos remuneradores dos varões sábios. Com estas duas excelências e prerrogativas, fingiu a supersticiosa gentilidade a Júpiter com a mão direita armada de raios, e com a cabeça tão sabia, e fecundamente entendida, que dela nascera Minerva, Deusa das Ciências. Mas a sabedoria, e valor, que em Júpiter é fábula com encarecimento, em Vossa Majestade é verdade sem hipérbole; porque nas empresas militares é Marte insensivelmente armado com os raios de Júpiter; e na compreensão de todas as ciências, é Mercúrio universalmente consumado com a sabedoria de Minerva.

          Assim o testemunham as Universidades e Academias, de quem Vossa Majestade é Mestre e Protector. E o aclamam também as vitórias com que Vossa Majestade meteu as luas otomanas, debaixo dos pés da Igreja Católica 1. Por isso todas as coroas do Universo, ou sejam de ouro como os Diademas dos Monarcas, ou de Louro como as aureolas dos sábios, em Vossa Majestade buscam e conseguem a protecção, ou a defesa. Isto publica as alianças de todas as Potências Dominantes e as obras de todos os Escritores; porque nenhum livro aparece hoje em Portugal, que não mostre no Real retrato, ou não diga na primeira folha, que Vossa Majestade é o seu Angustíssimo e Magnificentíssimo Protector. Nem reinam pacíficos e seguros nos seus Tronos aqueles Monarcas e Príncipes mais soberanos, a quem o invencível braço de Vossa Majestade, não segura e sustenta firmes nas cabeças as coroas.

          Este conhecimento, e notícia que tenho dos obséquios, que a Vossa Majestade fazem os autores estrangeiros, sendo em mim obrigação, como vassalo, me anima também oferecer e consagrar estes cinco livros ao Misterioso e Real numero quinto do Augustíssimo nome de Vossa Majestade, por serem compostos em seu obséquio, e impressos para utilidade dos seus vassalos. Considerando que receberia Vossa Majestade esta pequena oferta, tão útil e necessária ao bem comum, com a mesma clemência e incomparável piedade, com que mandou socorrer os seus vassalos na ocasião em que sua Liberalíssima magnificência livrou a corte de Lisboa de uma funesta Endemia, excedendo nesta piedosa e generosa acção ao grande Imperador Tito I, quando com a sua excessiva prodigalidade, como verdadeiro Pai da Pátria, mandou socorrer a Roma aflita, e infeccionada com uma cruel pestilência. Por isso, com melhor fundamento, que a Tito se deu então a Vossa Majestade o Epíteto de Pai da Pátria, Regalo, Delícia do género humano; porque com delícias, regalos e com inumeráveis remédios, consolou todos os enfermos e livrou da morte a infinitos homens.

          Também, Senhor, servem algumas vezes as Majestades aqueles autores que escrevem livros necessários para utilidade dos seus vassalos. E se, de passagem, ponderam, ou imortalizam as acções heróicas dos soberanos, com as mesmas penas fazem voar pelo Mundo a fama dos Reais Ceptros. Sepultadas estariam hoje nos mesmos túmulos, que escondem as cinzas dos Césares e dos Alexandres, as suas proezas e vitórias, se as não divulgaram no Mundo as penas imortais dos Cúrsios e dos Suetónios. Não dependem as acções heróicas, e régias de Vossa Majestade em tudo excelsas e supremas de tão pequeno brado, para serem ouvidas com admiração em todo o Mundo, porque os clarins da fama, com o seu contínuo e imortal alento, as publicaram sempre na dilatada esfera do Universo. Mas também elogiam às Majestades da Terra as vozes e os silêncios dos Mudos e dos Pequenos, que louvam, como disse El Rei David, a Majestade do céu 2. E quando eu não publicara, na primeira parte desta obra, a grande caridade com que Vossa Majestade socorreu a pobreza e o povo de Lisboa, na mesma ocasião, em que será o Mundo, que a vitória que alcançaram os Portugueses de tão cruel contágio, foi glorioso trofeu da sua Real magnificência. Chamariam as mesmas pedras desta corte (como no triunfo de Cristo as de Jerusalém 3) em seu merecido aplauso, quando ingratamente emudecessem as nossas vozes, tomando por sua conta o insensível, o agradecimento de tão grande e imortal benefício, que só pode compreender o racional e não sabe explicar a Língua.

          Como Vossa Majestade fez estas grandiosas esmolas pelo amor de Deus, e por sua real grandeza, justo me parece repartir com Deus e Vossa Majestade as primícias dos meus estudos ou dos estudos que não são meus, que só por serviço da Divina e humana Majestade, e para utilidade dos homens, transcrevi de muitos volumes, para juntar em seis livros, em que saem outra vez à luz, como Fénix renascida das suas próprias cinzas. No primeiro livro, que é a primeira parte desta obra, provo com a certeza infalível da Fé Divina, que com as máximas da Política humana, que o verdadeiro e mais eficaz remédio de todas as moléstias, é recorrer primeiro a Deus, implorando os seus auxílios. E nos últimos cinco livros, de que consta a segunda parte, mostro conforme os preceitos da Arte Médica, que depois dos auxílios Divinos obram seguramente os remédios humanos. Com esta mesma coerência consagro a primeira parte a Deus, para que, sempre que o implorarmos, nos assista com os seus auxílios. E dedico a segunda ao número quinto do Maior Monarca dos homens 4, para que a sua Real grandeza lhe facilite nestes livros os remédios, porque como ensina Cristo supremo senhor e Máximo Monarca de todos os Dominantes, quando os súbditos satisfizerem o que deverem a César e a Deus, hão-de dar a Deus o que é de Deus e a César o que é de César 5.

          Não comparo, nem equiparo a César, a Real, e Augustíssima Pessoa de Vossa Majestade, porque vence Vossa Majestade a César, quase como a César infinitamente excede o mesmo Deus. De Júlio César, que sem controvérsia foi o maior Monarca do Mundo, tomaram, ou herdaram, o nome de Césares, todos os imperadores romanos, que por sucessão, eleição, ou tirania lhe sucederam no império. E compondo-se o nome César de cinco letras, com uma só e última letra dos cinco caracteres, com que se escreve o Augustíssimo nome João V vence também Vossa Majestade a Júlio César, como com uma só batalha desbaratou Josué aos cinco reis das Amorreus, ou como David, com uma só das cinco pedras, derrubou por terra ao gigante dos Filisteus 6. Porque é tão superior às cinco letras de Júlio, e de César, o Real número V, como o quinto Império do Mundo, do qual Vossa Majestade é o primeiro Monarca, é supremo ao Império quarto de que Júlio César foi o principal imperador.

          Na ordem misteriosa dos quatro impérios dos Assírios, Persas, Gregos e Romanos, foi o Romano o quarto império. Todos estes impérios revelou Deus aos profetas na figura de quatro metais, Ouro, Prata, Bronze e Ferro, como na primeira visão diz Daniel 7; ou quatro carroças, tiradas por outros tantos cavalos Castanhos, Murzelos, Pombos e Remendados, como viu Zacarias 8; ou quatro feras, Leão, Urso, Pardo e de outro Bruto, a quem o texto sagrado não dá outro nome, declarando somente que é forte, terrível e admirável, como na segunda visão descreve Daniel 9; ou, finalmente, de quatro rodas, pelas quais tiravam quatro animais enigmáticos, Homem, Leão, Boi e Águia, como se vê na carroça de Ezequiel 10. E a todos estes quatro impérios destruiu uma Pedra misteriosa, que na visão de Zacarias se chama Dominador de toda a Terra e na segunda profecia chama Daniel quase Filho do Homem, que é também aquela Águia Real, que na carroça de Ezequiel, voa sobre todos os quatro Animais 11, e significa (como as outras figuras), o Imperador do quinto império, porque aparece no quinto lugar, imediatamente depois do número quarto, em que esteve o Império Romano. Nesta carroça de Ezequiel símbolo dos quatro impérios 12, representa a Águia conforme os melhores Expositores a S. João Evangelista, que voando sobre todos os quatro Animais, também figura o Império quinto, e o seu Imperador 13. É certo que este é o quinto Império de Cristo, que o mesmo senhor fundou no primeiro Rei de Portugal, para se perpetuar na sua décima sexta geração, que foi o Senhor Rei D. João IV, para se estabelecer ou eternizar na sua descendência, ou prole atenuada 14, que sem controvérsia foi o Augustíssimo Senhor Rei D. Pedro II a quem Vossa Majestade sucedeu no ceptro, como legítimo sucessor e filho. E como S. João sendo um e o último dos quatro Evangelistas, parece que não podia voar sobre todos os outros animais, que ocupavam os primeiros lugares, ficando ele no último. Por isso, João, quando voa sobre João o quarto animal enigmático da carroça de Ezequiel, era expressa figura de João V, porque em quinto lugar fica João, remontando-se no voo sobre João o IV. Porque sobre o quarto não voa, nem pode subir imediatamente outro número senão o quinto. Esta me parece razão altíssima, porque o quinto Império do Mundo, figurado em João, e prometido por Cristo a outro João, descendente do Senhor D. Afonso I e da prole atenuada da sua décima sexta geração, não compete, nem pode competir a outro Monarca, senão a um Rei de Portugal, chamado João V, porque só ele, sendo João, voa sobre João o IV e como Águia, sobre outra Águia, símbolo e insígnia do quarto Império dos Romanos.

          Assim voa, ou se remonta Vossa Majestade sobre César e sobre todos os Monarcas dos quatro Impérios dos Assírios, Persas, Gregos e Romanos, não só por razão do nome de João, senão também por respeito do Real número V, porque é mais augusto e pré-excelente, do que foi o número e nome dos mesmos Césares, por ser animado o número quinário e sem alma o símbolo quarto 15, como são também desanimados os metais e as rodas, que simbolizavam os quatro Impérios. Por isso, nas visões misteriosas de Daniel aparece o Império quarto comparado ao ferro, que é o mais vil e forte dos metais, ou uma terrível fera, sem nome, nem alma, que é maior vileza entre os brutos. Representando, pelo contrário, Ezequiel ao número V na Águia, que só tem cinco letras no nome e com grande espírito voa sobre o número quarto, como se remonta sobre todas as aves do céu, consagrada por esta causa (como Imperatriz de todas), ao Deus Júpiter Supremo Monarca do fabuloso Olimpo. E se na visão do profeta Daniel é o nome de Vossa Majestade, quase Filho do Homem, se como Dominador de toda a Terra não chega a ser divino, o seu heróico e elevado ânimo, o seu Real e sublime espírito, o canonizam por mais que humano.

          Para exaltarem a Júlio César sobre os homens e para também o colocarem entre os Deuses, escreveram os historiadores e poetas romanos que a sua alma se transformara em estrela, ou cometa brilhante, depois da morte do mesmo César 16, porque no fim da sua vida, apareceu no céu por tempo de sete dias este luminoso meteoro, e por memória deste imaginado prodígio, coroaram todas as estátuas de César com uma Estrela. Ainda quando fora verdadeiro este fingimento, ou crédula imaginação dos antigos romanos, fica Júlio César tão escurecido e inferior à vista de João V, como fica um cometa comparado com um Astro e um meteoro à vista de uma Estrela. Porque se os Egípcios pintavam um Astro para significar o número V, com o número quinário mostra o seu nome Augusto que Vossa Majestade é não só um grande e brilhantíssimo Astro do céu 17, mas que em si compreende sempre todas as luzes nas conversões dos setes planetas. Porque Vénus e Mercúrio fazem a mesma conversão com o Sol 18. Porém, que muito é, senhor, que o número quinto representa a Vossa Majestade como estrela da primeira grandeza e como todos os sete Planetas juntos, se este mesmo número com cinco círculos máximos compreende toda a Esfera Celeste 19. Esta é só a medida do Real número do Augustíssimo nome de Vossa Majestade, e o dilatado espaço do seu quinto Império, porque todo o Mundo obedece a um Monarca, que só com o seu nome ocupa e compreende toda a Esfera do Universo. E se por memória daquela meteorológica Estrela, coroaram os romanos com um só Astro todas as Estátuas de César, por razão do número V coroam a Vossa Majestade todas as luzes do Firmamento, aonde também há uma constelação em forma e com o nome de Cruz, para remate de seu Imperial Diadema.

          Finalmente, senhor, com cinco palavras entendidas em seu verdadeiro sentido, queria antes falar na Igreja o Apostolo S. Paulo, do que com dez mil vocábulos proferidos com a língua 20. E com cinco letras quero eu também elogiar sem lisonja o misterioso número quinto com o Majestoso, Augusto, Famoso, Real e Admirável Templo de Mafra, quinta essência de todas as maravilhas do mundo, que só admiram os cinco sentidos e não explicaram dez mil línguas, o qual Vossa Majestade edificou com a maior magnificência, para consagrar com grande piedade à Religião Seráfica. Porque o seu grande Patriarca S. Francisco, e os Augustíssimos senhores Reis de Portugal são tão amados e favorecidos de Cristo Nosso Senhor, que só eles mereceram e conseguiram a honra de receber as cinco chagas que o mesmo Senhor estima tanto, que ainda hoje as conserva em seu santíssimo corpo, como imortal troféu da sua morte. Com altíssima providência, e grande mistério, edificou Vossa Majestade em Mafra o Real Palácio, unido com o Augustíssimo Templo, como edificou Salomão o Templo de Jerusalém junto com o seu Palácio 21. Porque unindo-se também os religiosos e os exércitos, os militares e os pregadores e, armados todos com as cinco chagas de Jesus, conquistarão o mundo todo como César e a Terra Santa como Josué e a defenderão como David, com braços tão invencíveis como o do famoso Judas Macabeu. Entre os Imperadores, ou Césares Romanos, que se chamaram Constantinos, deveu o primeiro, chamado por antonomásia o Magno, toda a sua grandeza ao milagroso aparecimento da cruz, que do céu lhe segurou com esta insígnia todas as suas vitórias. E muito mais certificam os troféus e triunfos de João V, ou Magno, as cinco chagas de Jesus, que em forma também de cruz são as armas, ou cinco quinas de Portugal, principalmente quando na mesma cruz onde Cristo prometeu a Vossa Majestade o quinto Império estão unidos os dois braços de Cristo e de Francisco, para defenderem os portugueses com as suas cinco chagas, que por triunfarem já da morte, não podem dar a Portugal senão vitórias e troféus.

          Tão glorioso e misterioso é o número quinto, que até parece conduziu em os nomes daqueles grandes heróis Jesus, Josué, David, Judas, César, aos quais junto um Imperador chamado por antonomásia o Magno, para vencerem tantas vitórias e alcançarem por elas imortais triunfos. E agora noto eu, que só no quinto preceito do Decálogo proíbe Deus o Homicídio, porque parece providência sua, que o número V seja o seguríssimo asilo da imortalidade. O quinto não matará: Imortal faria a Vossa Majestade só o número V do seu Augustíssimo nome, se as suas heróicas acções e as suas virtudes católicas e cristãs o não tiveram já imortalizado. Guarde Deus a Real e Augustíssima Pessoa de Vossa Majestade por eternos anos, para que, no felicíssimo Império de Vossa Majestade, domine Portugal o quinto Império do Mundo, que o mesmo Senhor em Vossa Majestade tem estabelecido para aumento da Igreja Católica, exaltação da Fé, glória de Portugal e ruína de seus inimigos.

 

          Lisboa Ocidental, 7 de Setembro de 1729.

 

NOTAS

 

1 Apocalipse, I, 2. e Salmos, LXXI, 7.

2 Gálatas, VIII, 3 e Mateus, XXI, 26.

3 Lucas, XIX, 40.

4 Apocalipse, XIX, 17.

5 Mateus, XXII, 21.

6 Josué, X, 16 e 26 e 1 Reis, XXVII, 40 e 49.

7 Daniel, I.

8 Zacarias, I.

9 Daniel, VII.

10 Ezequiel, 1.

11 Idem.

12 Cornélio Alapide, Com. in Ezech., cap. 1, q. 2, fl. 955.

13 Idem, fl. 959.

14 Monarquia Lusitana, parte 3, cap. 5 e Crónica de Cister, V, 3, cap. 3. António Vieira, Palavra de Deus Empenhada, § VIII, fl. 58.

15 Petrus Bung, De Myster. Numer.: De numer. V, fl. 249.

16 Suetónio, lib. 1, n. 88, fl. 138.

17 Petrus Bung., op. cit., fl. 264.

18 Idem, ibidem.

19 Idem.

20 Epístola aos Corínteos, I, 14.

21 Paralipómenos, I, 25.