Sebastião Pacheco Varela


 

          Numero Vocal, Exemplar Catholico, e Politico, proposto no Mayor entre os Santos o Glorioso S. Joam Baptista: para imitaçam do Mayor entre os Principes o Serenissimo Dom Joam V, Nosso Senhor [...]

          Lisboa, Manuel Lopes Ferreira, 1702, p. 41-49

 

           [...] Ao tempo que Vossa Alteza [Dom João V] alegrou com seu nascimento a Portugal [1686], esperava a curiosidade vã de alguns que aparecesse o prodigioso Encoberto, cumpridas as circunstâncias de seus ilusórios auspícios. Fundavam-se estes nos sinais e portentos que precederam a perda de El-rei Dom Sebastião, o desejado, e nas várias opiniões com que incertamente se refere o modo e o lugar de sua morte. Corroboravam-se com a protecção especial que Cristo a este Império prometeu: dando-lhe inextinguível sucessão. Confirmavam-se com os genéricos prognósticos que se hão-de cumprir no fim dos séculos e com outros fatídicos individuais testemunhos, que a sincera credulidade fazia verídicos, por mais que o tempo os fosse descobrindo apócrifos. E tudo isto não era mais que um desafogo do amor com que a seus Reis veneram os Lusitanos, os quais vendo-se a estranho domínio sujeitos, vinculando a mistérios a isenção do temido jugo, buscavam (se não foi favor divino para consolação de cativeiro penoso) alívios ao sentimento, pretextos ao desagrado, às opressões refúgio, à liberdade estímulo. Mas passando a ser engano da conjectura aquele entretimento da esperança, ainda depois de restaurada a Monarquia, não se acabaram de extinguir os desejos, até que em Vossa Alteza se viram cumpridos.

          Parece que a Divina Providência satisfez aos Sebastianistas com Vossa Alteza da sorte que aos Discípulos com o Santo Baptista. Corria naquele tempo fama vaga, que conforme a predição do Profeta viria o Encoberto e prometido Elias a restaurar (como se diz) a Terra Santa. E consultado Cristo Senhor nosso, desenganou a seus Apóstolos sagrados com o que já outra vez lhes tinha dito: que o Baptista era o prometido Encoberto. Assim também dirigiu Deus a verdadeiro objecto a fidelidade ansiosa de alguns Lusitanos, porque achando em um Príncipe nascido os requisitos que supunham no imaginado, demitindo a esperança de milagres supérfluos, sem tirar ao Reino o privilégio de escolhido, creem da generosa índole de Vossa Alteza os que sonhavam triunfos ao desejado Monarca e dizem que este João é aquele Elias, legítimo sucessor de sua dignidade suprema, vantajoso imitador de sua virtude heróica.

          Certifica esta identidade de sujeitos a exacta computação de seus números, pois, conforme o estilo dos Anagramas numéricos, que já usavam os Gregos antigos e hoje frequentam os modernos curiosos, tanto soma o título de Vossa Alteza nascido, como a vinda do prometido Encoberto. Escrevo-o com a usada abreviação, sem a reverente declaração do D. G., porque sem duplicadas repetições, em o próprio nome de João se apelida Vossa Alteza, Rei por graça de Deus:

 

Sebastianus................. 628

Promissus.................... 699

Veniet......................... 359

1686

Joannes...................... 235

V................................... 5

Portug......................... 497

Et Alg.......................... 133

Rex............................. 385

Natus.......................... 431

1686

 

          Falando Cristo daquele tempo último, em que há-de ser o verdadeiro Encoberto, dá a entender que o tempo se prove para se conhecer com pontualidade. E se provarem os Sebastianistas o tempo que sinalam os Anagramas, acharão que é Vossa Alteza o Encoberto que esperam, pois soma então o tempo de sua vinda o ano do nascimento de Vossa Alteza. [...].

          Descendo pois a singularizar a pessoa para adaptar proporcionalmente a semelhança, é Vossa Alteza por João e por Quinto o esperado vencedor dos Maometanos: pois o primeiro João foi o seu conquistador primeiro e o primeiro Quinto foi o seu temido assombro. O apelido numérico do futuro Dragão é seiscentos e sessenta e seis [...]. Este número do vaticinado Monstro há-de vencer aquele Rei soberano, que até no nome quer mostrar-se Encoberto, mas os que pretenderam decifrá-lo entendem que será o inefável JEHOVA, que corresponde ao ditoso João. Logo João deve chamar-se o Encoberto prometido, para ser semelhante ao profetizado. E por que se achem parecidos em tudo, precisamente há-de ser João V, porque o nome de JOANNES não enche perfeitamente as vogais de JEHOVA, senão quando se lhe junta a letra V. E pois em Vossa Alteza concorrem todas as circunstâncias que na vinda do Encoberto se sinalam, Vossa Alteza é o Desejado, por quem Portugal suspira há tantos anos, e como tal destruirá os Impérios dos Agarenos e dos Otomanos, não com a presença da sua pessoa, mas com a eficácia de sua palavra, por Capitães felizmente obedecida.

          Prognostica a Vossa Alteza estas felicidades o Signo em sua formação dominante, que desde então deve levantar-se a figura [...]. Teve pois Vossa Alteza seu princípio ao tempo que o Sol entra em Aquário e se este Signo (ao que imaginam os Astrólogos) promete em seus influxos venturas e domina sobre a Cidade Santa, será Vossa Alteza o Príncipe mais ditoso e conquistador do Santo Sepulcro. [...]. Receba Vossa Alteza deste Signo a influência, prevenindo-se com a devoção para a semelhança que, como é nimiamente venturoso, o fará a Vossa Alteza grandemente feliz.