Sala dos Actos Escolares


 

          Os Actos Escolares dos Reais Estudos de Mafra, também denominados Actos Literários (quiçá as Aulas Literárias de Mafra referenciadas num manuscrito de Machado de Castro, intitulado O Zenit da ingratidão), decorriam na sala também designada dos Actos Literários, a qual serviu de açougue durante a primeira invasão francesa.

          Trata-se de uma dependência situada no extremo Sul do Corredor das Aulas, destinada à apresentação e defesa dos Actos finais ou Conclusões das aulas de Teologia, Moral, Lógica, Física, Metafísica e Gramática daquele instituto escolar fundado por Dom João V. É descrita no Real Edifício visto por fora e por dentro (fl. 121-123) por Frei João de Santa Ana nos seguintes termos:

           "Esta famosa casa, designada na planta pelo n. 119 tem a sua entrada pelo corredor das Aulas, dada por um portal, que com todo o seu ornato tem de alto 25 palmos [5,50 m] e de largo 13 [1,86 m] e fica defronte do corredor, que do claustro vem ter ao corredor das Aulas. A casa, que se entende de Norte a Sul, tem de comprido 117 palmos de largo 43 e de alto 60. Defronte do portal da entrada está outro fingido, que lhe corresponde e ao lado de cada um destes estão cinco degraus designados pelos n. 120 por onde se sobe para os Doutorais, que estão elevados nos dois lados da casa. Cada um deles tem de comprido com os degraus 80 palmos, e forma uma varanda de seis palmos de largo, acompanhada toda com parapeitos formados de pedras brancas e encarnadas e gradeamento de maravilhoso lavor e artifício. Junto à parede são acompanhados de assentos, que descansam sobre cachorros de pedra e de famosos espaldares de pau preto e amarelo que formam  almofadas  de pau preto,  cercadas de molduras, e de outro  ornato de pau  amarelo. Nestes Doutorais se assentam, quando na casa se fazem actos públicos de conclusões, os Padres mestres arguentes, que costumam vir de Lisboa sendo por todos 24 de doze diversos Conventos e religiões. Estes assentam-se no Doutoral que está no lado do Norte. E  no mesmo se assenta o Provincial e Mesa da Definição, nos lugares mais próximos à cadeira do Presidente; no do lado do Sul  assenta-se junto à mesma cadeira o Regente dos Estudos; depois os Doutores Seculares; depois os Lentes, os Substitutos da Província e em último lugar os Passantes. No topo da casa, entre os Doutorais, há um patim para o qual se sobe por três degraus, e nos lados dele há de cada parte dois degraus, e por aí se entra também para os  Doutorais; e entre os assentos destes junto à parede está a Cadeira Magistral, designada na planta pelo n. 121 em que se assenta o Presidente do Acto. Esta é mais elevada que os espaldares dos Doutorais, mas das mesmas qualidades de pau, e nas costas tem um espaldar  mais elevado, sendo  tudo lavrado e apainelado  com o melhor gosto. Por baixo da cadeira há um assento corrediço, que se puxa fora quando é só um o Defendente, quando porém são mais os Defendentes, põe-se aí um banco para eles se assentarem. Por cima do espaldar da dita cadeira  está na parede uma grande e preciosa pedra branca cercada e guarnecida de muito lavor em pedra branca, amarela, encarnada, azul, e outra mesclada de branco e amarelo. Na dita grande pedra se vê insculpida com letras maiúsculas a inscrição seguinte: Joannes V. Mafrensem Academiam erigens Domum hanc Sapientiae dicavit. Sapientia grata hanc sibi Sedem eligens, ex ea Academiam rexit. Josephus I. utranque nimium diligens sapientiae legibus Academiam firmavit. Academia grata pespetuum  monumentum seligens hunc eis lapidem in titulum erexit. Anno 1752. Sobre a pedra em que está esta inscrição, se acha uma coroa de flores amarelas com laços de fita da mesma cor, que as prendem, a qual  está entre os pés de duas palmas, que estão cruzados, se estendem para os lados. As palmas são de pedra branca, a fita e a Coroa de pedra amarela. Aos lados de todo este ornato há um friso de pedra branca, que principiando  a elevar-se vai acabar em pontiagudo por cima da Coroa e onde ele acaba, há um ornato de pedra amarela, que se  estende  algum tanto para os lados  sobre o friso e no meio está um vaso de pedra azul, do qual sai um grande florão de pedra amarela. Por cima de tudo isto passa a cimalha real da casa e sobre ela está uma grande e formosa janela ornada, e cercada de muito ornato, da qual não se pôde medir o tamanho por ficar em grande altura. Aos lados do espaldar  da cadeira há de cada parte uma janela, que tem de alto 19 palmos, e de largo 10. Do mesmo tamanho há outras duas aos lados, e por detrás dos espaldares dos Doutorais. Há mais oito janelas em toda a casa, que lhe comunicam luz das quais umas deitam para o corredor das Aulas, outras para o terraço do mesmo corredor; e além destas tem quinze janelas fingidas, e quatro portais fingidos, contando o que está fronteiro ao portal da entrada. Todo o pavimento da casa é de pedras brancas e encarnadas, que formam um admirável xadrez. No espaço que há entre os Doutorais se põe a bancada em que se assentam todas as pessoas que assistem aos Actos, além dos já mencionados. No meio da casa por cima dos Doutorais, há de cada lado uma tribuna elevada do pavimento 21 palmos, e saída fora da parede, a qual está firmada sobre quatro grandes cachorros de pedra branca de primoroso artifício, e igualmente a pedra da Tribuna que sai fora da parede. Tem  de largo o peitoril 18 palmos  e meio. Estas duas Tribunas são os lugares onde Sua Majestade e mais Pessoas Reais assistem aos Actos Literários. Para  a Tribuna do lado do poente se entra por  uma escada, que desce de uma das casas do Tesouro da Sacristia [...]. Para  a do nascente se entra por um portal, que está no ladrilho do Sul do dormitório grande do 2º andar [...]. Na parede do topo do Norte, fronteiro à pedra da inscrição está um famoso painel, que representa Nossa Senhora da Conceição pisando a serpente, com o Menino Jesus nos braços, cercada de Anjos, e sobre eles o Eterno Pai, e o Espírito Santo. Deste quadro, que todos admiram, é autor [Sebastião] Conca, pintor italiano. É cercado de moldura de pedra preta cristalina, e acaba formando um arco. Tem de alto 28 palmos, e de longo 15 com a moldura. Ao lado esquerdo do portal da entrada está um grande painel, que representa a Sagrada Família, e de fronte deste está outro que representa a Coroação de Maria Santíssima, ambos com grandes  molduras de pau fingindo pedra. Este é muito louvado pelos Mestres da pintura mas ignoro quem fosse o autor. Masucci é o autor do da Sacra Família, e o outro dizem ser Vieira". 

  

          As colunas de madeira encimadas por candeeiros, sobre a balaustrada, foram ali colocadas quando a dependência passou a ser tutelada pelo Ministério da Justiça, o que aconteceu até à década de 1990, em virtude de só então o tribunal da Comarca de Mafra ter adquirido instalações próprias.