Oráculo Profético


 

          Oraculo Prophetico, Prolegomeno da Teratologia, ou Historia Prodigiosa, em que se dà completa noticia de todos os Monstros, composto, para confuzao de pessoas ignorantes, satisfaçaõ de homens sabios, exterminio de prophecias falsas, e explicaçaõ de verdadeiras prophecias. Parte primeira. Em que se exterminaõ as prophecias falsas. Consagrada a Marte, como quinto entre os planetas. Por [...], Doutor pela Universidade de Coimbra, Familiar do Santo Officio, e natural da Villa de Soure. Lisboa Ocidental, Nova Oficina de Maurício Vicente de Almeida, morador nos Sete Cotovelos junto a S. Mamede, 1733, p. 86-96 [BN: SA 3112 P]

 

VII

           [...]. Porém como Deus, quando, e como quer, restaura no tempo futuro os mesmos sucessos, que já nos séculos passados aconteceram: Et Deus instaurat quod abut; quem poderá, pergunto com Salomão, compreender os incompreensíveis juízos de Deus, penetrando, e sabendo com toda a certeza os seus conselhos, ou poderá excogitar aquilo mesmo, que Deus quer fazer com a sua divina, e livre vontade: Quis enim hominum poterit scire consilium Dei? Aut quis poterit cogitare quid velit Deus? (Sap. IX, 13) A esta pergunta, que não tem fácil reposta, satisfez o mesmo Salomão desenganado a todos os homens presumidos, e temerários, para que se não atrevessem a exceder os termos, que Deus tinha limitado ao seu conhecimento; porque com as suas imaginações tímidas, e incertas não podem excogitar, nem penetrar este segredo: Cogitationes enim mortalium timidae, et incertae (Ibid., 13.); e com as imaginações humanas temerosas, ou temerárias são muito incertas: Timidae, et incertae; incertas ficam também sendo todas as coisas passadas, que Deus oculta no futuro à nossa imaginação: Ommia in futurum servantur incerta (Eccles., IX, 2). E a razão do que a mesma razão não alcança vem a ser; porque ignorando os homens, e não podendo conhecer a razão de todas as coisas, que Deus obrou no tempo passado, segundo entendeu Salamão: Et intellexi quod omnium operum Dei nullam possit homo invenire rationem (Eccles., VIII, 17); com esta ignorância do passado não pode a imaginação humana saber por algum modo o futuro: Quia ignorat praeterita, et futura nullo scire potest nuncio. Nenhuma dúvida haveria em conhecerem os homens o futuro, se com toda a certeza penetraram, ou souberam o passado; porém a ignorância do passado lhes oculta o futuro. Como não sabem o que já foi, ignoram também o que há-de ser; e desta sorte não profetizam, porque não sabem. É, contudo, tão confiada, atrevida e temerária a ignorância e imaginação dos homens, que até do nascimento dos Monstros pretende[m] tirar fundamentos para adivinhar os futuros. Imaginam, que o mesmo nome Monstro está dizendo, ou mostrando, ser qualquer Monstro um mostrador do futuro. Não é isto imaginação minha, senão etimologia de Santo Isidoro referida por Ambrosino: Monstrum, ex mente Isidori itanuncupatur, quia aliquid futurum monstrando, hominos moneat (Ambrosino, In Monstror. Historia, cap. 2, fl. 325). Alucinados com esta etimologia, censuram alguns Momos, que me imputam, e não impugnam o X dato; e não gostam, em gastam da Ennoea, zombar eu dos prognósticos, que se fazem pelos Monstros. Dizem que seguindo, ou devendo eu seguir aos Teratoscopos podia, ou devia prognosticar naquele papel grandes felicidades a Portugal; porque este Reino é tão venturoso, que até os Monstros lhe vaticinam bons anúncios.

 

          No ano de 1638 nasceu em Lisboa, conforme escreve Ambrosino, um Menino monstruoso, e ferozmente armado; porque na cabeça tinha um capacete, nas pernas umas botas, e pelo corpo todas as armas defensivas, com que os homens militares costumam ir à guerra, formadas prodigiosamente de vários apêndices de carne e pele: Nuper etiam na Civitate Olysiponensi, antiqua Regum Lusitaniae Sede, anno salutis post millessimum, et sexcentesimum trigesimo octavo, ex honestis parentibus in lucem prodivit infans armatissimus: quandoquidem variae cutis et carnis appendices ratione figurae, illa arma tutelaria representabant, quibus se homines ad bellum profecturi munire solent, imò, eadem materia galeatus, et acreatus erat (idem, cap. 7,fl. 585.); e não se pode negar, que este Monstro, nascido em tal ocasião, e com tão misteriosa figura, anunciou a feliz aclamação do Senhor Rei D. João IV sucedida no ano de 1640 e o venturoso sucesso que teve este reino com a guerra defensiva.

 

          Fundando-se neste discurso, queriam que eu fizesse este prognóstico: estado a corte de Lisboa dividida em duas Cidades Oriental e Ocidental, que ambas juntas fazem um monstruoso corpo, nasceu na cidade de Lisboa Oriental um monstro de dois corpos femininos, que no primeiro de Outubro de 1732 pariu uma mulher preta, de tal sorte unidos pelas costas, que representavam um X. Porém, como um destes corpos tinha tão grande cabeça, que lhe impedia o nascimento, e antes de sair do útero excitava funestíssimos sintomas, degolada por um cirurgião português, morreu antes de sair à luz, e matou a própria mãe que lhe tinha dado a vida; e deste símbolo queriam, que eu inferisse, ou conjecturasse, que o ferro, ou a espada dos portugueses degolará no Império do Oriente uma Grão Cabeça, e com este golpe morrerá também a negra mãe, que a tiver gerado; e deste modo ficará unido o Império do Oriente com o do Ocidente debaixo do domínio de um só Imperador, assim como em Lisboa já estão unidos o Ocidente, e o Oriente debaixo do Império de um só monarca. De maneira que a divisão de Lisboa em Oriental e Ocidental, mas unida em uma só Corte, prognostica que será a cabeça do Império Ocidental, e Oriental, quando os portugueses degolarem no oriente uma Grão Cabeça. Em semelhantes vaticínios não fundamos nós os nossos prognósticos. Com outros Monstros provaremos estas mesmas profecias.

 

          Não consta do Sagrado Texto, que Deus admoestasse aos homens, nem lhes revelasse nenhuns futuros com o nascimento dos Monstros; mas em monstruosos símbolos fundou Deus as profecias. Em sete Vacas monstruosamente robustas, ou fracas, e em sete Espigas monstrificamente gradas, ou falidas, mostrou Deus a Faraó a grande abundância, ou esterilidade do Egipto. Em uma estátua monstruosamente formada de quatro metais revelou Deus a Nabucodonosor todos os Impérios do Mundo. Em uma monstruosa Árvore, que plantada no meio da terra assombrava todo o mundo, e tocava com os remates no céu, representou Deus a Nabucodonosor a futura tragédia da sua inconstante fortuna. E em quatro monstríficas Feras descobriu Deus a Daniel as futuras Monarquias. Com estes símbolos monstruosos, ou com estes, e outros Monstros celestes, em que Deus profeticamente fala aos homens, e não com outro género de monstros, profetizaremos a Portugal as suas maiores e futuras felicidades; porque se Deus assim falou, quem com as palavras de Deus não profetizará: Dominus Deus locutus est, quis non prophetabit? (Amos, III, 8) Seguindo, e entendendo nós aos verdadeiros profetas, não podemos enganar-nos em os nossos vaticínios, e guiando-nos só pelo Monstro não podíamos acertar nos seus prognósticos; porque aos Monstros naturalmente gerados, e preternaturalmente produzidos, chamou, discreta e sabiamente, Aristóteles erros da Natureza; e guiado pelos seus erros ninguém acerta.

 

VIII

          Bastava, leitor cristão, este último fundamento, para exterminar do Mundo todas as profecias falsas, que sobre o nascimento e figura dos Monstros, produzidos e gerados pela Natureza, fundaram supersticiosamente os Teratoscopos, e sobejam neste papel razões sólidas, e argumentos eficazes, para mostrarmos com toda a verdade e certeza, que os monstros celestes, criados, ou revelados por Deus, são as suas verdadeiras, e últimas vozes. Para ouvirmos só as vozes de Deus, emudecemos primeiro as palavras dos homens. Exterminámos então as profecias falsas, para explicarmos agora as verdadeiras profecias; porque deste modo se conhecerá melhor a verdade à vista da mentira. Não introduzimos na primeira parte deste Oráculo Profético todos os Monstros celestes, nem outros Monstros, que se puderam ver na Teratologia, ou na História Prodigiosa, em que se dá completa notícia de todos os Portentos; porque para o nosso intento não era necessário referir agora todos, senão alguns destes prodígios. Com esta mesma disposição compusemos e principiamos já a impressão da segunda parte do mesmo Oráculo, interpretando nele alguns monstruosos símbolos, e discorrendo moral e politicamente sobre as suas profecias; porque pediu a matéria (sobre que provocados escrevemos) esta mesma proporção de figuras monstruosas, para que as duas partes deste monstrífero corpo, correspondessem ao todo desta obra, e ficasse por este modo monstrífica em tudo a nossa ideia. Não lançámos os fundamentos deste dividido edifício, segundo os oradores ensinam os preceitos da Retórica, senão conforme os artífices guiam as regras da Arquitectura; porque para também ser monstruosa esta máquina era mais necessária a proporção na firmeza, do que a disposição na formosura.

 

          Sobre alicerces tão sólidos, e firmes levantaremos, com a divina graça, não a Cidade e Torre de Babel, para subir e não chegar da terra ao Céu, porém mostraremos edificada uma Nova Igreja e Santa Cidade de Jerusalém, que desceu e chegou desde o Céu à nossa terra. Esta é a santa e nova cidade de Jerusalém, que do Céu viu descer o Evangelista S. João, preparada primeiro por Deus e adornada, como a Esposa para seu Esposo: Et ego Joannes vidi Sanctam Civitatem Jerusalem novam descendentem de Caelo a Deo paratam, sicut Sponsam ornatam viro suo (Apoc., XXI, 2); e como João viu já esta nova e Santa Cidade de Jerusalém descida lá do Céu, facilmente a descobriremos agora cá na terra; porque se não pode esconder à nossa vista uma Cidade, posta, ou colocada sobre o alto monte deste Mundo: Non potest Civitas abscondi supra montem posita (Mateus, V, 14).Os olhos de João foram os primeiros exploradores, que viram e descobriram esta nova e última, ou única Maravilha do Mundo; e nós mostraremos ao Mundo as grandes Maravilhas do Céu, que Deus fez para nos mostrar por João. O primeiro arquitecto, que lançou o fundamento a esta grande Cidade, foi o Divino e Supremo Artífice; porque desceu do Céu traçada pela infinita sabedoria de Deus: Descendentem de Caelo a Deo paratam; e tudo isto, que Deus tinha disposto, é o mesmo, que João tem visto: Et ego Joannes vidi; mas sobre esta Celeste Maravilha, que João viu com seus olhos, e sobre o mesmo fundamento, que Deus pôs a esta Santa, e Nova cidade, descobriremos nós agora (com os seus auxílios) o maior e melhor Templo que vê e venera o Mundo; porque sendo Templo de Deus, fundado em uma Pedra angular, ou quadrada, que é Jesus Cristo, nosso senhor, também é uma Cidade Santa, que domina, como Imperatriz, e Senhora das Gentes, a todo o mundo.

 

          Falando o Apóstolo S. Paulo nesta grande Cidade de Deus, confessa na primeira Epístola aos Coríntios, que sobre o fundamento, que ele (ajudado com a Divina graça) pusera a este edifício, como tão sábio Arquitecto, sobreedificará outro Artífice: Secundum gratiam Dei, quae data est mihi, ut sapiens Architectus fundamentum posui: alius autem super aedificat (I Ad. Corinth., III, 10); e na carta, que ao depois escreveu aos Efésios descreve esta cidade tão grande, populosa e unida com o Templo de Deus, fundado sobre a Divina Pessoa de Jesus Cristo, como em uma Pedra quadrada, ou angular, que todos os homens do mundo são seus Cidadãos, sem haver entre todas as suas Nações nenhuns hóspedes, estrangeiros, nem peregrinos; porque todos são moradores da mesma cidade, em que habitam Católicos e todos os domésticos da Casa de Deus, sobreedificados sobre o fundamento dos Apóstolos e dos Profetas, que é Jesus Cristo, como Pedra angular, ou quadrada, em quem todo aquele Edifício cresceu, para ser o Templo do Santo Deus: Ergo jam non estis hospites, et advenae: sed estis cives Sanctorum, et domestici Dei: super aedificati super fundamentum Apostolorum , et Prophetarum, ipso summo angulari lapide Christo Jesu: in quo ommis aedicatio constructa crescit in Templum Sanctum in Domino (Ad. Ephef, II, 10-20);e conforme a descrição, que o Apóstolo fez deste Templo, unido, ou identificado com esta Santa Cidade: sobre a Cidade Santa se descobre o Templo de Deus; porque ficando o Templo superior à mesma cidade: Aedificatio constructa crescit in Templum, fica por este modo, como separado e por cima da Cidade o Templo, ou Santuário, que possui um só príncipe, como viu profeticamente Ezequiel: Principi quoque hinc et inde in separationem Sanctuarii et possessionem Civitatis (Ezequiel, XLV, 7).

 

          Este Santuário, ou Novo Templo de Ezequiel viu este profeta separado sete léguas da Cidade marítima, chamada Oriental, e Ocidental; porque tem por um lado ao Oriente, e pelo outro ao Mar, e a sua longitude se estende (como vemos em Lisboa) desde a parte Ocidental, até ao termo Oriental: Et contra faciem possessiones urbis: a latere maris usque ad mare, et a latere Orientis usque ad Orientem: longitudinis autem juxta unamquamque partem a termino Occidentali, usque ad terminum Orientalem (idem). Mas ainda que se não pode esconder uma Cidade posta sobre um Monte, nem se podia ocultar este Templo edificado sete léguas por cima de tão grande Cidade, nenhum dos Expositores Sagrados descobriu até agora esta Cidade, nem mostrou ao Mundo aquele Templo.

 

          Todos os intérpretes confessam com as mesmas palavras de Ezequiel, que não puderam vadear a profunda (conforme S. Jerónimo, e Vilhalpando) subterrânea corrente de um rio tão caudaloso e profundo (como o Tejo) que corria por baixo do mesmo Templo e da Cidade, em que se representa (além do Baptismo, e doutrina Evangélica) a obscuridade e profundidade das profecias, como de si, e em nome de todos afirma o grande Alapide: Ego de me illud possum dicere, quod Ezechiel de se (cap. 47) et post eum docti interpretes: torrentem non potui pertransire, quoniam intumuerunt aquae profundi torrentis, quae non possunt transvadari (Alapide, Com. in Proph. Maior, fl. 16.). Porém, ainda que S. Jerónimo lhe chama labirinto intrincado e tenebroso; Santo Agostinho o nomeia escuro labirinto e profundo oceano; S. Gregório o compara a estrada desconhecida e encoberta com a noite, e ao caminho só conhecido dos Espíritos celestes; e finalmente o Padre Alapide o assemelha a uma vereda incógnita a todos os homens. O mesmo Doutor Máximo sem nomear o Reino, nem a Província aonde esteja estabelecido este Templo, sobre tão Santa e Católica Cidade, afirma ser a Igreja de Cristo, edificada sobre esta firmíssima Pedra, para edificação quotidiana dos seus Santos: Et nos ad Christi Ecclesiam referimus, et quotidie in Sanctis ejus aedificari cermmus; e acrescenta o Padre Alapide por lição de S. Gregório, Viegas, Maldonado, Barradas, Heitor Pinto, e António Fernandes, que este Templo de Deus e Santa Cidade de Jerusalém, que viu o profeta Ezequiel, é o Principado da Igreja de Cristo tão duplicado como Eclesiástico e Secular: Per templum, et urbem Ezechielis significari duplicem in Ecclesia Christi principaeum, Ecclesiasticum et Saecularem (Alapide, Com. in Ezech. Synop., cap. 40, fl. 1173). Este Principado Secular, e juntamente Eclesiástico da Igreja não esta na Itália, mas existe separado, e fora de Roma estabelecido em uns mosteiros, e varões religiosos, consagrados de todo a Deus como declara o mesmo Alapide: Templum, esse monasteria, virosque religiosos, qui a Roma separati sunt, non tam loco, quam mente, actione, et contemplatione, ut se totos Deo consecrent (idem).

 

          Muitos conventos há hoje fora de Roma, em que está edificada a Igreja de Cristo, que é a Nova, e Santa Cidade de Jerusalém, descida do Céu à terra, segundo entendeu o Padre Alapide, explicando com as palavras de S. João o referido texto de S. Paulo: Sanctus Joannes videns Sanctam Civitatem Jerusalem novam descendentem de Caelo, id est, Ecclesiam Christi (Alapide, Com. in Epistol. ad Ephes., cap. 2, 20, fl. 488); mas nenhum Mosteiro de religiosos se acha na Cristandade, que esteja edificado sete léguas fora, ou por cima da Cidade marítima, chamada Oriental, e Ocidental, fundado sobre águas subterrâneas e tão adornado como a Esposa para o seu Esposo: Sicut Sponsam ornatam viro suo, senão esta nova e única Maravilha do Mundo, que ao mundo mostraremos estabelecida em Portugal, edificada em Cristo, sobreedificada em Mafra e sobre o fundamento, que lhe pôs S. Paulo, pelo Real, e invicto braço do Sábio e Augusto Apolo Lusitano, e pelas mãos dos Portugueses, para Corte do Quinto Império de Cristo, conforme a inteligência, que às palavras do Apóstolo deu o seu melhor expositor Cornélio Alapide: Fundamentum Ecclesiae vestrae ego posui Apollo, et alii videant quod illi super aedificent, non autem quid de novo fundent (Com. in Epistol. ad Corinth, cap. 3, 11, fl. 215).

 

          Para falarmos sem lisonja, diremos tudo pelas bocas e língua alheias, que são os Monstros celestes propostos aos Infiéis e as profecias explicadas aos Católicos; e nem assim seremos ouvidos neste Povo, como disse também Deus pela boca de S. Paulo: Quoniam in allis linguis et labiis aliis loquar populo huic: et nec sic exaudiet me, dicit Dominus. Itaque linguae in signum sunt non fidelibus, sed infidelibus. Prophetiae autem non infidelibus, sed fidelibus (idem, cap. 14, 21). Não se pode entender este texto de S. Paulo, senão com a difícil inteligência deste lugar, que cita no profeta Isaías: In loquela enim labii et lingua altera loquetur ad populum istum (XXVIII, 11); porque este texto, como diz Alapide, acomoda, ou com ele alude o Doutor das Gentes ao dom de línguas de fogo que deu o Espírito Santo aos Apóstolos: Quia locum Izaiae adaptat dono linguarum Apostolis dato (Alapide, idem, cap. 14, 21, fl. 316); mas se não ouvir o Povo o que dissermos e temos falado por tantas línguas de fogo, quantos são os Fenómenos, Cometas, Meteoros, e outros Monstros Celestes, ouçam ao menos as Profecias, que não ficaram escuras, depois de alumiadas com estas Luzes do Céu. Tinha Deus profetizado a Abraão uma descendência tão multiplicada como as Estrelas, a posse da Terra de Promissão, a peregrinação de seus descendentes, o cativeiro do Egipto, o trânsito do mesmo Abraão, e a restituição dos Hebreus à terra Prometida; e como a escuridade das profecias era tão grande como a noite, em que Abraão viu tudo isto com os olhos fechados, como quem estava dormindo, com um Meteoro, ou Fenómeno de fogo, semelhante a uma fornalha e a lâmpada acesa, que passava por entre as divisões, ou partes divididas dos animais sacrificados, alumiou Deus ao mesmo Patriarca, para ver, como diz Alapide, com aquela luz celeste o mistério de tão escuras profecias: Cum ergo occubuisset sol, facta est caligo tenebrosa,etE apparuit clibanuss fumans, et lampas ignis transiens inter divisiones illas (Alapide, Com. in Genes., cap. 15, 17, fl. 163).

          E se para entenderem as suas profecias alumia Deus aos Patriarcas, e Profetas com Meteoros do Céu, e Monstros Celestes, porque não acenderíamos nós também até agora estas Luzes Celestes, ou estas Línguas do Céu, para explicarmos vaticínios dos Profetas e Patriarcas aos homens, ou alumiarmos daqui em diante com elas escuríssimas profecias?