O Preto das Torres


 

O Preto das Torres

Lenda de Mafra

 

J. F.

Chovera fortes bátegas de água que haviam enlameado as ruas da Vila. Pingavam ainda as biqueiras, conservando as casas o tom triste dos dias invernosos. O Convento qual monstro gigantesco conserva-se austero na sua sumptuosidade. Lá de muito em longe, um carro atravessava a correr o largo, enlameando os resguardos com os salpicos das rodas; as lojas conservavam as portas semicerradas; e pela atmosfera havia um cheiro acre a enxofre da tempestade desencadeada. A tinta negra das tabuletas tinha-se tornado pardacenta desaparecendo aos bocados. Um rancho de patos refastelava-se à vontade, banhando-se nas poças em grasnos estridentes. A chuva ameaçava zurzir as janelas, batendo nos vidros em grossas pingas que o vento impelia, obrigando-as a fazer ricochete.

Apesar de tudo isto, o galo da torre do norte estacionava orgulhoso, desafiante, numa posição antípoda à corrente do vento.

O empregado das torres - um preto hercúleo, desenvolvido, de uma vontade enérgica, que atravessava nesse momento o terraço - viu isso, notou esse descaramento de um seu subordinado e zangou-se.

- Porque diabo não andará ele?

E ficou perplexo olhando o seu galo, o beiço inferior demasiadamente caído , deixando ver a alvura dos dentes, uma das mãos apoiada na balaustrada do terraço, desprezando o vento que lhe açoitava a casa.

- Mangas comigo? Pois vou-te fazer girar.

E resoluto numa resolução casmurra de preto sumiu-se na porta encarnado escuro da torre, brilhando-lhe nas faces entreabertas um riso sardónico.

As nuvens engrossavam sobre Mafra: de onde em onde uma descarga eléctrica fundia o espaço, rasgando ziguezagueamente numa tira de fogo, o seu amontoamento plúmbeo.

A força do vento tornara-se titónica barafustando debalde contra o colosso agigantado que o tempo tem denegrido no perpassar das tempestades.

As árvores vergastadas pela borrasca, inclinavam-se para o chão, ouvindo-se de quando em vez um estalido seco de madeira que racha; mas apesar disso o preto intemerato e orgulhoso la ía vencendo mil dificuldades e através de mil perigos, torre acima, cuidadosamente ligado pelas cordas do costume, almotolia a tiracolo, piscando os olhos às faíscas dos relâmpagos.

Chega. Olhos curiosos espreitavam-no através das vidraças que a chuva riscava caprichosamente; das portas das lojas grupos que se coligam e que se influiram mutuamente seguem nesta ânsia nevrótica do imprevisto, neste desespero mortificando abismo que se patenteia, todos os movimentos do preto.

O vento sibila mais forte por entre os fios condutores dos pára-raios similhando os rugidos moribundos das feras nos dramas sangrentos dos bosques.

A água vergasta as janelas, saltitando nas poças barrentas das ruas; e o aspecto frio e austero do convento conserva a mesma sumptuosidade como a rivalizar com a tormenta. Nisto, o galo, lasso já nos seus movimentos pelo óleo recebido, deixa-se levar pela força do vento, desandando num giro rápido na direcção da corrente.

Um grito de dor e de angústia que cá em baixo se não ouve, fere o espaço, e o corpo hercúleo do preto desenhando no ar curvas desenvoltas vem desconjuntar-se nos degraus encharcados que dão acesso para o pórtico, tingindo-os de sangue.