Manuel Pereira da Costa


 

          Calliope Sacra, que em doze sonetos á Real Fundação do Convento de Mafra consagra reverente á Magestade Augusta, e Fidelissima delrey D. Joseph I. Nosso Senhor. Lisboa, Oficina de Miguel Rodrigues, Impressor do Eminentíssimo Senhor Cardeal Patriarca, 1753 [Nos sonetos II e V compara Mafra à Nova Jerusalém, citando expressamente Apocalipse XXI, 2]

 

          Soneto 2

Detém‑te, ó peregrino, e reconhece

Os prodígios, que encerra este edifício

Maravilhoso avulta o frontispício,

Insigne o capitel mais resplandece.

Olha esse pincel raro, que parece,

Apeles reviveu nele sem vício

Observa deste cedro o artifício

O que aprendera Fídias se vivesse.

Que pórticos, que estátuas, que luz pura

Unir-se vejo neste jaspe atento!

Ilustre Nume inculca esta estrutura.

Não pode humano ser tanto portento

Toda esta sacra, insigne arquitectura

Obra foi, que desceu do firmamento.

 

          (Nas letras iniciais do 2º e 3º Sonetos se lê o nome do Augustíssimo Fundador)

 

          Soneto 5

Atende, ó Fábio, e vê que presumido

Este Templo às esferas se remonta;

De Deus brilhante é já luzida afronta

Quanto em golfos de luz surca aplaudido.

Vê como infunde ao pólo esclarecido

Novas constelações, que altivo conta,

Olha o ar como à chama viva, e pronta,

Resplandece mais puro, e mais luzido.

Não bastara a copiar tantos primores

Esse, que em sombras deu vida a Campaspe,

Raios sendo os pincéis, luzes as cores.

Viste portento igual do Tejo ao Idaspe?

Não te parece em pompa, e resplendores

Planeta de alabastro em Céu de jaspe?