Manifesto


 

Monumento de Mafra é a designação adoptada para aludir ao complexo formado pelo Palácio-Convento, Jardim do Cerco e Tapada de Mafra. De resto, à imagem do que sucedeu até ao advento da República, de cuja acção e negligência resultou o actual estado de coisas: o desmembramento de um todo coerente, delineado e concretizado sob a direcção do Magnânimo, Fidelíssimo e Luso Rei-Sol, Dom João V.

Incensado ou denegrido, o Monumento de Mafra tem autorizado maniqueísmos ideológicos, apurado dissenções estéticas e servido para zurzir gostos. Não obstante, permanecem enigmáticas ou inverosímeis muitas das circunstâncias relacionadas com os seus primórdios, nunca apuradas de forma totalmente satisfatória.

Do seu acervo destacam-se a Biblioteca conventual, a única in situ no nosso país, os dois carrilhões e o conjunto de seis órgãos da Basílica, exemplos impares e nunca emulados à escala mundial.

Por um tal motivo a inexistência de investigações pluridisciplinares sistemáticas com vista ao esclarecimento das inúmeras perplexidades que esse património ainda hoje coloca, é tanto mais surpreendente quanto parece relevar de um misto de indiferença, preguiça intelectual e incúria, tão ao jeito nacional.

Há cerca de duas décadas, quando o Monumento de Mafra se constituíu como objecto da minha curiosidade, eram raras excepções aqueles que lhe dispensavam alguma atenção.

O legado romântico oitocentista perdurava ainda, inabalado.

Apesar de tudo, não fora uma obra de ficção, o Memorial do Convento de Saramago, e tal estado de coisas teria persistido, quiçá indefinidamente, sem remédio.

Hoje, o cenário é, decididamente, outro.

Os amadores e críticos de arte de antanho foram rendidos por docentes e académicos que adoptaram a fábrica do Magnânimo para tema das suas dissertações, concitando para ela, desse modo, novas atenções, sob a alegada reivindicação de renovado rigor epistemológico.

No entanto, e não obstante o enfoque geral haja sido transferido para topoi mais consentâneos e de harmonia com as actuais preocupações da historiografia de arte, com alguns resultados louváveis sublinhe-se, falta assimilar muita pesquisa independente, não afectada por inibições de cariz institucional, para aceder à visão sistémica, qualitativamente adequada aos pressupostos metafísicos que consabidamente nortearam D. João V.

E quais poderão ter sido os aludidos pressupostos metafísicos?

Quando ocorre interpelar a actuação de D. João V, raros são aqueles que não caem na tentação de dizer que tudo o que o soberano tinha em mente era uma insaciável sede de ostentação, ou que a exuberante sumptuária, de que se fez Mecenas, apenas servia a esse fim.  Explanação pobre que esvazia de sentido o ideário que lhe andava subjacente.

Com efeito, o espectáculo foi, no período barroco, uma necessidade intrinsecamente associada ao exercício do poder. O monarca absoluto desejava atrair, surpreender e causar o pasmo do povo. Pessoas e instituições assumiam o compromisso tácito, quase obrigatório, de o secundar nessa tarefa.

O principal agente do espectáculo era, no entanto, o monarca, que elegia o argumento, a cenografia, o guarda-roupa e os actores da encenação, dando forma e conteúdo ao imaginário do corpo simbólico e imortal do Rei.

Concomitantemente, e como corolário da teoria do duplo corpo do soberano (indivíduo privado e encarnação do Estado), seria enfatizada a mitologia do Imperium, a qual permitia reforçar o poder Real e dar uma coerência à sua política e um objectivo às suas acções. Porém, uma vez adoptada a lição da Antiguidade Clássica e do seu tempo mítico, os monarcas absolutos careciam do espaço correspondente: a cidade capital, edificada à imagem de Roma, onde cada elemento da arquitectura e da paisagem urbana supunha uma semântica própria, de cujo sentido derradeiro o Rei era o lídimo detentor.

Nova Roma foi como Camões crismou Lisboa, em quinhentos. Em seiscentos, António Vieira considerá-la-ia um espelho da Cidade Eterna. Não obstante, nunca antes como a partir do século XVIII, com D. João V, o tema terá servido de glosa com tamanha insistência. Datando uma tal emulação, ensaiada nas cátedras e nos púlpitos, dos primórdios do reinado do Magnânimo.

Seja como for, mais do que as palavras, os cristalinos emblemas do programa imperial de D. João V, gibelino na sua essência (porquanto raramente foram pacíficas as suas relações com o Papado), são os actos que consubstanciaram, a divisão de Lisboa em dois hemisférios (para adequá-la à profecia que preconizava a síntese de Oriente e Ocidente na Capital do Império), a criação da Basílica Patriarcal, autêntico "simulacro da Corte Pontifícia dentro da sua Capela" e o Aqueduto das Águas Livres (reconhecida prerrogativa dos Augustos Romanos).

O palácio-cenóbio mafrense participaria do mesmo programa, na ideação, estrutura e até nas circunstâncias da sua Sagração. O clérigo italiano D. Gabriel Cimballi, convidado para a função de Mafra, em 22 de Outubro de 1730, confessaria "que assistindo a muitos Pontificais na Capela do Papa não vira celebrar algum com tanta pompa e grandeza, assim na riqueza dos paramentos como na multiplicidade dos ministros, perfeição das cerimónias e harmonia de vozes, e só poderia ter a diferença de em Roma administrarem Cardeais o que em Mafra fizeram Cónegos".

Face ao exposto e em vista da desarticulação funcional daquele que é, quiçá, a derradeira expressão (cronologicamente falando) do universalismo lusíada, bem como da confrangedora gestão a que se assiste, sem remédio aparente, no Palácio Nacional por parte da respectiva tutela, torna-se evidente a necessidade imperiosa de subordinar o Monumento de Mafra à missão emblemática que um conjunto patrimonial de tal envergadura física e ideológica, é inexorável, tem de encarnar, porquanto:

Constitui uma obra-prima do génio humano;

É expressão de um considerável intercâmbio de valores humanos, num dado período, designadamente no que concerne à arquitectura, às artes plásticas, ao planeamento urbano e ao desenho paisagístico;

Acha-se directa e evidentemente associado a acontecimentos, tradições, ideias e crenças relevantes, bem como a obras artísticas e literárias de excepcional significado universal.

Nessa conformidade, Monumento de Mafra Virtual que se assumirá como um exercício de cidadania activa, propõe-se convocar a memória, o entendimento e a vontade de todos quantos, instituições e indivíduos, se manifestem disponíveis para, concertadamente, e no quadro da Convenção para a protecção do património mundial cultural e natural, promoverem a inclusão do Monumento de Mafra na Lista do Património Mundial, com base nos critérios I, II e VI da aludida directiva, aprovada, em Novembro de 1972, nas 32ª e 33ª Sessões Plenárias da UNESCO.