Jogo da Bola


São incertas e remotas as origens do Jogo da Bola, sendo conhecidas na Europa pós-renascentista distintas formas de o praticar, variáveis consoante a região, as quais perduraram até hoje, sobretudo no seio de comunidades rurais.

Em Portugal, foi muito popular, mesmo entre o clero e a nobreza.

Em quinhentos achava-se de tal modo difundido, ao ponto de se haver transformado num autêntico vício, que as Ordenações de D. Manuel (1521) proibiram quer aos fidalgos e cavaleiros (nos domingos e dias de guarda antes da missa), quer aos mecânicos e homens de trabalho (durante toda a semana), decretando multa de “300 reais pagos da cadeia” aos que, na varanda do paço, o jogassem.

Aparentemente, em princípios do século XVII, de acordo com Rebelo da Silva (História de Portugal, v. 5, p. 524), o abuso crescera “e o alarme também entre os moralistas, tanto mais que os poderes públicos confessavam a sua impotência para pôr cobro ao escândalo”, que chegou a provocar desacatos públicos e crimes violentos. De facto, em 1656, seriam postos a ferros na Torre Velha, o conde de São João, o conde de São Lourenço, Castelo Melhor, e Rui Fernandes Almada, em virtude do primeiro, durante um jogo da bola ter altercado com o conde de Vimioso, seu cunhado, a quem feriu mortalmente.

Durante o século XVIII o Jogo da Bola era praticado pelas comunidades monásticas de Arouca, Santa Cruz de Coimbra e Mafra, entre outras.

Sabe-se que, em 1780, funcionava um Jogo da Bola e Laranjinha, numa horta da cerca de São Roque, para a qual dava uma janela conventual do recolhimento das Órfãs, apinhando-se as moças sobre o peitoril para usufruir do espectáculo, de sorte que a mesa intimidaria “o rendeiro a acabar com o jogo” (Vitor Ribeiro, O Arquivo da Misericórdia de Lisboa na Exposição Olissiponense de 1914, p. 24).

De todos os recintos de jogo outrora existentes, o único que subsiste em bom estado de conservação pertenceu aos frades de Mafra, localizando-se no recinto do antigo Horto ou Cerca conventual, actualmente denominado Jardim do Cerco. Conservam-se ainda as bancadas de pedra para os assistentes desfrutarem dos episódios do jogo, que, na opinião de Gustavo de Matos Sequeira, “não eram poucos, e que proporcionavam aos jogadores algumas atitudes bastante cómicas” (Depois do Terramoto, v. 3, 1967, p. 355).