João Paulo Freire - O Coveiro do Cemitério de Mafra


O Coveiro do Cemitério de Mafra

João Paulo Freire

 

No excelente volume de Memórias de Dom Tomás de Melo Breyner, há pouco publicado, fala-se a páginas 358-359, como já noutro artigo salientei, num célebre coveiro de Mafra - o Zé Gago - "homem andrajoso, horripilante, nojento, macabro, tate-bitate difícil de entender, velho, corpulento, mas alcachinado, braços longos como os gorilas, terminando por mãos ossudas. Usava suíças brancas e era desdentado".

Estes traços com que Dom Tomás me reaviva a memória sobre a figura exótica do repelente coveiro da minha terra, são flagrantes de verdade. São rigorosas de expressão. Estou a vê-lo à distância de quase quarenta anos. Morava o homem no Caminho da Forca, à quinta do Dr. Azevedo, numas casas abarracadas, sem janela para a rua, e servidas por uma porta estreitíssima e baixa. O Zé Gago era realmente corpulento e alto e para entrar em casa tinha que se curvar muito mais do que já era. Feiíssimo. Não há mesmo palavras que pintem este Quasimodo mafrense. Não me lembro de conhecer, nem antes nem depois dele, figura de mais repelente fealdade, a não ser a mulher, que ainda conseguia - Deus do céu! - ser mais feia do que o marido. Ela e ele pareciam duas figuras arrancadas pelo lápis de Doré às paginas da Divina Comédia. Se o Zé Gago era uma caveira ambulante, a mulher era a expressão viva daquelas bruxas lendárias que preenchem os contos das lareiras aldeãs em noites de invernia. Os olhos hostis, chispantes, ora pareciam os de uma hiena, ora os de uma coruja. Quando, aos domingos de tarde, se sentavam os dois à porta do pardieiro, ele numa grande pedra que talvez ainda lá esteja, e ela num mocho pequeno e baixo que desaparecia sob a roda das saias, infundiam pavor a quantos por ali passavam. À mulher chamavam-lhe a bruxa da Forca. Era má, rancorosa, intratável. Nem um nem outro conviviam com a vizinhança, que os detestava. Os garotos, sempre que podiam, corriam-nos à pedra. Zé Gago vingava-se quando adregava de pilhar algum portas a dentro do cemitério.

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Diz Dom Tomás que o Zé Gago "tinha o mais profundo desprezo pelos desgraçados enterrados em simples caixão de madeira, de corpo à terra ou na vala comum". E manifestava-o sempre. Por todas as formas. Por gestos mais do que palavras, e por obras principalmente. Diziam-se deste horrendo brutamontes as coisas mais tétricas e repugnantes. Acusavam-no de nunca ter gasto dinheiro, depois que se entregou ao seu duro e pouco invejável mister, em fatos ou calçado, nem para ele nem para a mulher. O cemitério era o seu casão de fornecimentos. Odiava as crianças. Seus olhos, pequenos, quase sempre semi-cerrados, dilatavam-se, em circunferência, quando, zangado, fitava os miúdos. As mãos enormes, compridas, ossudas, eram umas mãos como nunca vi outras. Pareciam tenazes gigantes cravando-se nos cadáveres. Os maxilares estavam em movimento constante, como se ele estivesse eternamente remoendo a própria bílis. Se abria a boca mostrava uma caverna sem fundo. Nas lutas com a rapaziada bravia levava sempre a melhor, porque a sua mão certeira era de respeito. Sítio que marcasse com os seus olhos circunferenciados, era pedrada certa e segura. Não errava nunca. Um dia acertei-lhe com uma pedra na cabeça e fugi. Passaram-se meses. Uma tarde entrei no cemitério com outros rapazes acompanhando um miúdo da nossa idade que morrera. O Zé Gago viu-me e reconheceu-me logo. Eu já me não lembrava da pedrada atrevida com que meses antes o havia mimoseado. Mas lembrava-se ele. E antes que eu tivesse tempo de me recordar e fugir, deitou-me a garra de gorila aos fundilhos das calças e levando-me de barriga para baixo, esperneando e gritando como um possesso, foi até ao fundo do cemitério, do lado do norte, no último recanto, onde havia e ainda deve haver uma pequena casa de guardar as ossadas e as

ferramentas, e atirou-me lá para dentro como quem atira fora um fardo inútil. Depois fechou a porta à chave e veio enterrar a criança. Valeu-me o homem que nos acompanhava e que o obrigou, quase à força, a abrir-me a porta e a pôr-me em liberdade. Nunca mais pude encarar de frente a aventesma hedionda e vampírica deste Zé Gago. Quando o via, e me lembrava da cena do cemitério, sentia dentro de mim uma revolta enorme.

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Ora, sobranceira à moradia do coveiro, talvez com uma rampa de quinze ou vinte metros, ficava uma rua em começo que, partindo da velha Rua dos Ferreiros, quase não tinha saída para o Caminho da Forca senão por um despenhadeiro abrupto que só os rapazes poderiam descer de socalco em socalco.

Depois da cena a que acima me refiro, e durante muitas semanas, era rara a tarde em que eu não ia, com todas as cautelas, até junto da ravina para gritar cá de cima um "É! Zé! Gago!" provocador e vingativo. E quando o pobre coveiro assumava ao buraco do casebre, desabava-lhe em cima uma saraivada de pedras que eram então o meu consolo e são hoje, na recordação destas linhas, o meu remorso...

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Vale do Toiro chama Dom Tomás ao sítio onde em Mafra se encontra o cemitério novo, porque o velho foi, até 1833, na vila velha, ao redor da própria igreja. Vale do Toiro. A gente da minha terra chama-lhe de preferência Malvar. Nem de uma nem de outra designação consegui descobrir até hoje a sua origem., mas quer-me parecer que a segunda é antiquíssima, talvez dos tempos primitivos da velha Magfara. Em frente à porta do cemitério Malvar ficava a Quinta da Dona Ana Madail, à distância de um tiro de bala, em linha recta. Esta Dona Ana Madail, fidalga dos velhos tempos, era uma encantadora velhinha, aí por 1896, quando eu a fui visitar com minha mãe, de quem ela era muito amiga. Lembro-me que me fez muitas festas, muitas perguntas, e me ofereceu, "visto eu já então gostar muito de livros", quatro volumes do Almanaque da Imaculada Conceição, que eu ainda hoje possuo como lembrança dessa boa senhora, fidalga e rica, que nunca mais visitei, nem vi, e que hoje me admiro como podia viver naquela tristíssima solidão, tendo por única paisagem o cemitério não distante, e uma gemebunda faixa de pinheiros em toda a volta.

As longínquas recordações da minha mocidade distante que este precioso livro de Memórias de Dom Tomás tem trazido à minha alma e ao meu espírito de mafrense vagabundo e arredio!...

Dezembro, 31, 1930