Galilé


 

          A Galilé mede 28 x 7 m. Serve de átrio (intróito), isto é, antecâmara por onde se acede ao corpus mysticum. Tal como a Galileia precede a Terra Santa palestina, do mesmo modo a Galilé antecede o templo, Porta do Céu, em Mafra.

          William Beckford afirma que a galilé mafrense lhe lembrara a de São Pedro de Roma. Baretti considerá-la-ia demasiado pequena relativamente à área total do edifício, defeito justificado por Alberto Teles em virtude das alterações do plano primitivo da Basílica.

          É pavimentada com pedraria branca e preta, cores eminentemente penitenciais, que são retomadas na abóbada cilíndrica.

          Três portas dão acesso à Basílica. A central é ladeada por 2 colunas caneladas de mármore branco [h = 4,5 m], com capitéis corínteos, encimados por frontão triangular onde se observa um meio-relevo de Carlo Monaldi, representando Santo António em adoração à Virgem e ao Menino. As laterais são guarnecidas de festões, ramos de açúcenas e serafins.

          A Galilé e os Vãos das Torres abrigam os doze fundamentos da Cidade Santa, isto é, os Doze Apóstolos do Cordeiro (Apocalipse, XXI, 14) ou fundadores de todas as grandes religiões dentro do catolicismo romano, autênticas colunas em que se firma a Igreja Militante. Além dessas imagens de vulto, existem duas mais, de dimensão superior às restantes, iconografando os mártires São Sebastião e São Vicente, os quais ladeiam o pórtico, quais as colunas de bronze Jakin (Ele estabelece) e Boaz (por Ele é poderoso) postadas à entrada do Ulam (vestíbulo) do Templo de Salomão (1 Reis, VII, 21).

 

          Frontão sobre o pórtico central

          Santo António em adoração à Virgem e ao menino

Mármore; meio relevo; 1,7 x 1,35 m; subsc.: Carlo Monaldi, Romano

          Uma carta, de 4 de Agosto de 1729, remetida por José Correia de Abreu a José Maria da Fonseca de Évora, é o primeiro documento conhecido no qual há menção a esculturas destinadas à Basílica de Mafra. Nela, o conselheiro artístico de D. João V solicita o envio de um baixo-relevo, da grandeza do molde de papel e segundo as instruções escritas que lhe remetera, iconografando Santo António em adoração à Virgem (ambos de meio corpo) com o Menino "para se colocar sobre a porta" (Carta de 11 de Agosto).

          Salienta que a "obra deve ser feita pelo mais insigne mestre, com toda a perfeição, com a brevidade possível [...]". A 27 de Setembro de 1730 comunica para Roma que o baixo-relevo chegara no dia 3 de Janeiro de 1731 e que tivera "boa aprovação". Porém, cerca de uma semana depois, desgostoso, escreve que o bom efeito que a escultura fazia em baixo se desvaneceu quando foi observada no seu lugar, "reconhecendo-se notavelmente os veios azuis que tinha a pedra, quando se tinha recomendado que nenhum dos ditos baixos relevos, nem as estátuas tivessem veio algum" (Carta de 10 de Janeiro). Posteriormente, Abreu sublinharia "o dissabor" sentido pelo Magnânimo quando viu o baixo relevo posto sobre a porta, motivo suficiente para o decidir a "mandar fazer outro" (Cartas de 14 e 28 de Fevereiro).

 

          Estátuas

          São Vicente

Mármore; h = 3,58 m; subsc.: Carlo Monaldi, Romano

          Abreu recomenda que a incumbência não seja adjudicada a Cornacchini, autor dos respectivos desenhos, salvo em caso de necessidade (Carta de 10 de Maio de 1730). Na mesma missiva determina que o santo seja representado com o "livro como Diácono e o corvo aos pés".

 

          São Sebastião

Mármore; h = 3,58 m; subsc.: Carlo Monaldi

          José Gorani escreve: "A [estátua] de São Sebastião é notável" e Richard Twiss: "A [estátua] de São Sebastião é extremamente bem executada". Abreu recomendou que a incumbência não coubesse a Cornacchini, autor dos respectivos desenhos, salvo em caso de necessidade (Carta de 10 de Maio de 1730). Depois de recolhido o andor onde seguia uma pequena imagem do mártir com setas de prata espetadas no corpo, esta estátua servia, outrora, de pano de fundo para o leilão dos cargos, fogaças, sacos de batatas e de feijão, cestos de fruta, etc., tudo em benefício do santo advogado contra a peste, fome e guerra, como se depreende da narrativa de Tomás de Mello Breyner: "De madrugada os grandes sinos dobravam à romana, tocava a música no adro e subiam foguetes. Pelo meio dia missa cantada com órgão e vozes. Frei Vicente, um egresso já velho, era o organista e a certa altura descia à igreja para subir depois ao púlpito e pregar um sermão já decorado por muita gente, pois era sempre o mesmo. À tarde a procissão saía com a obrigação de passar pelas casas dos festeiros mais importantes. Irmãos de capa encarnada, anjinhos arrepiados, trôpegos e ranhosos; pendões, guiões e bandeiras. Levado por quatro mocetões o andor do mártir com setas de prata espetadas no corpo e atrás lá ia eu com a vara do comando! Por fim, entre dois acólitos vestindo ricas dalmáticas do convento, caminhava debaixo do pálio o Prior segurando o Santo Lenho encerrado numa preciosa cruz de cristal de rocha, que pode ainda hoje ser admirada no museu instalado na galeria grande do Palácio. Fechando o préstito a filarmónica de Torres Vedras porventura a melhor nas quatro ou cinco léguas em redondeza. Recolhida a procissão principiava o leilão dos cargos, fogaças, sacos de batatas e de feijão, cestos de fruta, com obrigação de ser tudo melhorado para o ano seguinte e a benefício do santo advogado contra a peste, fome e guerra. Os cargos vinham a ser umas armações de madeira com andares cheios de bolos e no tope uma grande maçã luzidia das chamadas de espelho. As vendas faziam-se na galilé da igreja por baixo de uma estátua colossal do Santo festejado. Cá fora comiam-se pevides e tremoços, bebia-se vinho. muito vinho, O carrascão subia às cabeças e era da praxe ao anoitecer uma grande desordem entre militares e paisanos e sempre por causa das raparigas" (Memórias, p. 158-159).

 

          São Bruno, cartuxo

Mármore; h = 2,86 m; s. a. [Giuseppe Lironi (1689-1749)]

          Carlos Galrão compara esta estátua com o São Bruno da Cartuxa de Miraflores, do escultor português Manuel Pereira [S. Bruno, in Bol. Junta Província da Estremadura, s. 2, n. 11 (Jan.-Abr. 1946), p. 105-108].

 

          São João da Mata, trinitário

Mármore; h = 2,86 m; s. a. [atribuído por Cirilo a Pietro Bracci (1700-1773)].

          Depois de haver solicitado informações sobre a forma da cruz do escapulário dos trinitários (Carta de 10 de Maio de 1730), Abreu comunica para Roma, em 27 de Novembro de 1731, que esta estátua, à semelhança da de São Félix de Valois, se deve mandar fazer calçada e com murça e cruz, "de que usa a Religião calçada em Roma e por toda a França e há-de ter capa da mesma forma que usam as ditas duas partes".

 

          São Bernardo, cisterciense

Mármore; h = 2,86 m; s. a. [atribuído por Cirilo a Giuseppe Rusconi]

 

          São Bento, beneditino

Mármore; h = 2,86 m; s. a. [Giuseppe Rusconi]