Frontispício


 

É possível que o ascendente da impressão produzida [pela Basílica de Mafra se deva ainda mais ao segredo das suas proporções que propriamente à riqueza e ao volume da construção [...]. O misterioso poder da harmonia manda mais do que nós; e, por isso, a explicação das sensações recebidas, ali, como de resto diante de outro qualquer monumento esteticamente perfeito (se assim pudermos dizer) fica sempre por dar.

ARMANDO DE LUCENA (O Convento de Mafra)

 

Por cartas de 6 de Dezembro de 1729 e 24 Janeiro 1730, na sequência da adopção do quarto e derradeiro plano para a edificação (1728), José Correia de Abreu, conselheiro artístico de Dom João V, sublinharia a persistência de dúvidas no tocante às soluções definitivas (respeitantes ao frontispício, galilé e estatuária) na origem dos atrasos na obra da Basílica. Ainda com a mesma preocupação em mente, Abreu solicitaria o envio de "todas as plan­tas das Igrejas em que o Papa tem feito Capelas Papais [...], nas quais se perceba distintamente o plano da Igreja e os acrescentamentos que se lhe fizeram por causa da Capela [...]" (Carta 7 Fevereiro 1730).

Outra Carta, datada de 19 de Março de 1730, remetida por Abreu para Roma, evidencia o desejo do Magnânimo ver rapidamente concluída a fachada da Basílica. Nessa mis­siva ocorre a primeira referência à encomenda das estátuas de vulto para Mafra. Para o efeito é solicitado o envio de pequenos modelos (terracota, com três palmos de altura) da estatuária para a Basílica (actualmente no Museu do PNMafra). A 10 de Maio avisaria que deveriam ser realizadas "conforme as melhores regras assim da Escultura como da propriedade das roupas e insígnias dos Santos para que por ne­nhum princípio esta obra mereça crítica alguma e assim deve Vossa Reverência caprichar na perfeição com que devem ser obradas, não se lhe permitindo tenham pintura alguma e juntamente na brevidade com que devem ser acabadas, porque em todos os modos deseja Nosso Amo e Senhor vê-las colocadas nos seus lugares para o S. Francisco do ano 1731 [...]. [...] e assim fico persuadido que sem contrariedade alguma, possam chegar aqui para o tempo que se deseja todas perfeitamente acabadas, capazes de fazerem honra aos artífices que as fizeram, e dignas do Templo para que são destinadas, como também de serem vistas e admiradas dos Professores da mesma arte".

 

De facto, as estátuas só chegaram a Lisboa no dia 30 de Março de 1733 (Carta 31 Março 1733).

 

A pedra da sacada da janela principal da Sala da Benção pesa mais de trinta toneladas, medindo 8 x 4 x 0,68 m.

 

Medalhão do frontão

 

Santo António em adoração à Virgem com o Menino

O medalhão ovado em alto-relevo [3,16 x 2, 24 m] colocado no centro do frontão é obra atribuída a Giuseppe Lironi. Antes da sua chegada, uma réplica em madeira ocupou o seu lugar. O viajante galês Udal ap Rhys julgou ver no medalhão a figura de Neptuno conduzido por cavalos marinhos!

 

Estátuas

 

São Domingos

Mármore; h = 3,34 m; s. a. (atribuído Carlo Monaldi)

 

São Francisco

Mármore; h = 3,34 m; s. a. (atribuído a Carlo Monaldi)

 

Santa Clara

Mármore; h = 2, 81 m; s. a. (atribuído a Gian Battista Maini)

 

Santa Elisabete, Rainha da Hungria

Mármore; h = 2, 81 m; s. a.

 

O duplo quadrado (duplo módulo regulador do Monumento de Mafra), rectângulo Phi (ø) ou Secção Áurea, presente no traçado do frontispício da Basílica

O duplo quadrado ocorre em alguns dos mais famosos edifícios sagrados do mundo, entre os quais a Câmara do Rei da Grande Pirâmide de Quéops e o Templo de Salomão. Isto porque, para os mestres construtores tradicionais, a sintonia com a matriz universal só será efectiva na condição de o templo haver sido adequadamente edificado, de acordo com um sistema matemático preciso (aritmológico e geométrico). Todavia, a justa medida do templo não se confina apenas à arquitectura. A geometria da imaginária há-de, igualmente, ser sujeita a estrito controlo matemático ou iconométrico, porquanto só uma imagem bem realizada constituirá um convite para que a divindade a habite. Os cânones de pro­porções serão ainda complementados por um cuidadoso desenho das expressões, posturas, trajes e atributos. Todos estes requisitos foram tidos em conta na estatuária encomendada para a Basílica de Mafra. Aliás. Em Carta, datada de 14 de Fevereiro de 1731. remetida para Roma, Abreu sublinharia que o cânone da estatuária leria de equivaler "à décima parte do palmo por que está feita a Real Obra de Mafra". A disposição das estátuas também ela seria meticulosamente ponderada. No frontispício, por exemplo, as duas imagens de São Domingos e de Santa Clara, à esquerda do observador, ostentando luzes visíveis (archote, livro e custódia) representam o mundo sensível, enquanto, à direita, os dois expoentes taumatúrgicos da luz invisível, São Francisco e Santa Isabel da Hungria, tornam manifesto o mundo inteligível, supra-sensível ou da intuição. Na janela da Sala da Benção, destinada às suas Aparições, competiria ao Rei proceder à harmonização dessas duas espécies de humanidade, à Luz Augusta da sua Majestade Pia e Sacra (reconduzindo-as à unidade, simbolizada pela Secção Áurea).

 

 

Encomenda da Estatuária para a Basílica

 

[...] As primeiras que se devem acabar, e que Vossa Reverência deve ir mandando primeiro, serão suces­sivamente pela ordem seguinte: primeiramente um Crucifixo com a sua glória, e dois Anjos grandes em acto de adoração, o qual deve ir colocado na capela maior, sobre o retábulo do Altar; depois duas vir­tudes, que vão sobre a porta principal da Igreja da parte de dentro; um baixo relevo de meio perfil em fosco, que se deve colocar no frontispício da Igreja, (sendo este separado do que já encomendei a Vossa Reverência para cima da porta principal da mesma Igreja) que represente Nossa Senhora com o Menino Jesus e Santo António adorando-o; [...].Logo depois destas se seguirão as quatro grandes que vão na fachada, que são de São Domingos, São Francisco, Santa Clara e Santa Isabel Rainha de Hungria, e como estas ficam expostas ao tempo, parece devem ser feitas em fosco; seguem-se as seis que vão no Vestíbulo, que são de São Vicente, no qual se deve pôr Livro como Diácono e o Corvo aos pés guardando o Santo, ou como melhor parecer depois que se ver a sua Lenda. São Sebastião, etc. Seguir-se-ão as oito que ficam debaixo das Torres. Depois as oito que vão nos dois vestíbulos das portas travessas; seguem-se as oito das duas Capelas colaterais à maior; e por último as vinte e quatro que vão nas seis Capelas do Corpo da Igreja, e destas se deve começar primeiro das que ficam mais próxi­mas do Cruzeiro. Ponderando-se o que Vossa Reverência dizia sobre o soco das ditas Estátuas, se assentou que estas não deviam ter soco mas somente uma pequena base, ou seja socoleto da mesma pedra, como costu­mam ter todas as Estátuas, por fundamento e segurança, o qual pode ser alto nove onças in circa das Estátuas mais pequenas, e nas maiores, como as que vão na fachada poderá ser de um palmo in circa. e nesta base se deve por com letras negras embutidas o nome de cada Santo. [...].Vossa Reverendíssima procure que em todas as Estátuas se imite a vera efigie dos Santos que representam, e para considerar se as ditas Estátuas devem ter resplendores e seja diadema, e de que devem ser, contanto que não sejam de matéria que deva ser dourada, isto é,no caso que se assente que devem ser resplendores, e que o tê-los não seja contrário ao bom gosto da Escultura, e ao que em Roma se costuma; como também de que matéria devem ser os distintivos dos mesmos Santos ou as suas insígnias, para o caso que em alguma seja preciso não se lhe pôr de pedra, por nenhum acontecimento se lhe porá de coisa que seja dourada. [...].Os braços, mãos e dedos das estátuas venham com as suas linhas da mesma pedra, que cá se cor­tarão e aperfeiçoarão, quando Vossa Reverendíssima entenda, que sem elas não vêm tão seguras, porque podendo ser melhor é que venham sem coisa alguma. Com as ditas estátuas mandará Vossa Reverência dois engenhos para as transportar assim que desembarcarem [...]. [...] os cinco pontos essen­ciais desta obra que vêm a ser perfeição, brevidade, conveniência dos preços, propriedade dos hábitos e cautelas nas conduções".

 

 

O Gesú de Roma protótipo do primeiro projecto para a Basílica de Mafra?

 

Tudo conduz a pensar que o primeiro projecto para o Monumento de Mafra, o único da autoria indis­cutível de Ludovice, possa ter concebido a Basílica à vista do Gesú de Roma. circunstância, de resto, tornada plausível pelo desenho patente numa medalha lançada junto da pedra fundamental, descrita no Monumento Sacro (1750) de Frei João de São José do Prado. A traça ludoviciana do frontispício da Basílica de Mafra, formalmente afim do da referida igreja jesuíta, parece adivinhar-se, salvo na ausência das torres sineiras, no modelo patente neste quadro destinado às exéquias de Dom João V, na igreja romana de Santo António dos Portugueses (1751).

 

A pesca miraculosa dos 153 peixes no Lago Tiberíades

 

Este episódio, narrado pelo discípulo amado, foi interpretado por muitos hermeneutas, a começar pela patrística grega, como aquele que encerra a chave da constituição da igreja de Cristo. As palavras gregas para A Rede (To diktuon) e Peixes (Ichtus) equi­valem cada uma ao número 1224, correspondendo os 153 peixes pescados a 1/8 desse valor. O diagrama obtém-se dando expressão geométrica ao cânon de João XXI, 3-11:

 

B. Sete Apóstolos encontram-se nas margens do Lago Tiberíades onde vão pescar; Simão Pedro entra numa embarcação e os restantes seguem-no, embarcando também (João, XXI, 3).

 

C. Sem ser reconhecido, Jesus surge na praia ao raiar do dia, perguntando-lhes se têm algo para comer, ao que eles respondem negativamente, circunstância que origina que diga: "Lançai a rede para a banda direita do barco e achareis"; lançando-a, já não a pu­deram tirar, "pela multidão dos peixes". O arco deste círculo contém a vesica piscis, isto é, O Peixe - Cristo, o qual, dividido em 16 partes iguais - dezasseis pequenos peixes, perfaz o total de 153 peixes pesca­dos (i. e., 1 + todos os números até 16), (idem, 4-6).

 

A. Reconhecendo Jesus, Pedro cinge-se "com a túnica (porque estava nú)" e lança-se à água para regressar mais depressa à praia. Os restantes regressam a terra no barco (distante da praia, "uns duzentos côvados"), trazendo a rede cheia de peixes, "e sendo tantos não se rompeu a rede" (idem, 7-11).

 

Se se orientar o diagrama de molde a colocar a rede na base, ele traduzirá a cosmologia exposta no Timeu (50a-53c) de Platão: a rede na água representando o mundo sensível em constante mutação; a esfera superior, o mundo inteligível, sede de todas as leis universais, arquétipos da manifestação; a esfera intermédia é a da humanidade que participa de ambos os mundos sensível e inteligível, espiritual e material, eterno e efémero.

 

Numa perspectiva cristã, os três mundos cor­respondem às três Pessoas ou Hipóstases. num esque­ma idêntico à representação de uma Trindade trono de praça: A. Pai; B. Espírito Santo (Logos ou mediador entre Deus e o homem); C. Filho.

 

O diagrama aplica-se na perfeição ao Monumento de Mafra, mais uma vez tornando evidente a ideia que presidiu à sua edificação: fazer dele uma réplica da Jerusalém Celeste, a nova igreja destinada a imperar sob o novo céu profetizado no Apocalipse.