Ennoea


 

Ennoea, ou applicação do entendimento sobre a Pedra Philosophal, pro e defendida Com os mesmos argumentos com que os Reverendissimos Padres Athanasio Kircker no seu Mundo Subterraneo, e Fr. Bento Hieronymo Feyjoo no seu Theatro Critico, concedendo a possibilidade, negão, e impugnão a existencia deste raro, e grande mysterio da Arte Magna. Parte primeira. Offerecida ao Illustrissimo Senhor D. Francisco de Menezes, Conego da Santa Igreja Patriarchal, e do Conselho de Sua Magestade, etc. Por [...] Doutor da Universidade de Coimbra, Familiar do Santo Ofício, Médico do Excellentissimo Senhor Duque de Aveiro natural da antiquissima Villa de Soure.

Lisboa Ocidental, Nova Oficina de Maurício Vicente de Almeida morador ao Arco das Pedras Negras, 1732-1733 [PNMafra: 2-33-9-19]

 

Dedicatória a D. Francisco de Meneses, cónego da Patriarcal

 

[...]. Viu o Evangelista João uma Igreja, ou uma Sé colocada no Céu, que tinha à sua vista um mar cristalino como vidro e diante do seu trono ardiam sete lâmpadas. Na circunferência desta Sé havia vinte e quatro Tronos, ou assentos, em que se assentavam vinte e quatro Anciãos, coroados com Mitras Episcopais, ou Coroas de ouro. Estes vinte e quatro Anciãos [...] eram Sacerdotes que reinavam e dominavam sobre a terra e sendo Reis que dominavam e reinavam, eram também o Reino de Deus [...].

[...] como nenhuma Igreja ou Sé tem mais semelhança do que com a Santa Igreja Patriarcal; porque tem à vista o mar e o Tejo que é quase mar [...].

E desta sorte se estabeleceu na Sacrossanta Basílica Patriarcal o Quinto Império do Mundo e de Cristo, prometido por Cristo ao primeiro Rei de Portugal [...]. De maneira que o Quinto Império do Mundo sendo espiritual e de Cristo também é temporal e dos Reis Portugueses. E tendo-o fundado Cristo na Santa Igreja Romana o estabeleceu depois na Sacrossanta Basílica Patriarcal [de Lisboa], que por ser Igreja junta e unida com o Palácio de El-Rei, entre El-Rei e o Eclesiástico está repartido sem divisão o Quinto Império [...].

Finalmente, chegando o Reino de Portugal a ser Cabeça do Império universal de todo o Mundo e a Santa Basílica Patriarcal [de Lisboa] o trono da cadeira de S. Pedro, serão os Ilustríssimos Senhores vinte e quatro Cónegos Eminentíssimos Cardeais da Santa Igreja Romana. Esta conclusão infiro eu das premissas em que tão solidamente tenho fundado este discurso, porque se os Senhores Cónegos da Santa Basílica são os mesmos vinte e quatro Sacerdotes e Bispos Anciãos do Apocalipse, que se representam nos Sacerdotes que antigamente havia no Templo de Jerusalém, como diz Alapide 1, porque também tinham suas cadeiras e tronos dentro do Templo, sólios verdadeiramente augustos, como são os dos Príncipes e Reis, e como agora têm os Bispos e os Pontífices, por cujo respeito se chamam as suas igrejas Catedrais 2. Sendo os mesmos vinte e quatro Sacerdotes e Bispos Anciãos no sentir do padre Alapide, figura dos Cardeais da Santa Igreja Romana, chamada vulgarmente Capela do Sumo Pontífice, em que se vê a imagem da Celeste Jerusalém, donde se derivou e tirou a Santa Igreja de Roma como cópia de tão perfeito original, segundo conclui o mesmo Alapide.

Bem se segue que também serão Eminentíssimos Cardeais da Santa Igreja Romana os Ilustríssimos Cónegos da Sacrossanta Basílica Patriarcal [de Lisboa], que é tão semelhante à Santa Igreja de Roma, como a Igreja Romana à Cidade de Jerusalém Celeste, porque assim como da Celeste Jerusalém se derivou a Igreja de Roma, da Igreja Romana, como de perfeitíssimo original, se tirou a perfeita cópia da Sacrossanta Basílica Patriarcal [de Lisboa].

À Santa Igreja de Roma também se chama vulgarmente Capela do Sumo Pontífice e até nesta circunstância se parece com a Igreja Romana a Santa Basílica Patriarcal [de Lisboa], porque, sendo antigamente a Capela Real dos Monarcas Lusitanos, ainda hoje é Capela dos mesmos Reis e o vulgo lhe chama Capela. Porém, não só é imagem da antiga Jerusalém e da Jerusalém Celeste, mas nova Cidade de Jerusalém descida do Céu à terra e colocada onde a veem os olhos do Grande João. [...]. Nenhuma coisa traz João o Grande mais diante de seus olhos do que o culto Divino e o ornato desta nova Cidade de Jerusalém, a quem a sua magnificência tem dado tanta riqueza que no Ouro e Prata e pedras preciosas excede ao Templo da antiga Jerusalém no reinado de Salomão. Por isso Deus o ama, como amou ao mesmo Salomão, eternizando-lhe o Reino, dilatando-lhe o Império e, sobretudo, prometendo a El-rei D. Afonso I pelo Ermitão do Campo de Ourique de pôr os olhos de sua misericórdia, como também Deus prometeu a El-rei David pelo Profeta Nathan de estabelecer o Reino e firmar o trono de Israel em seu descendente Salomão, segurando que não apartaria dele a sua misericórdia 3. E se Deus pôs os olhos da sua misericórdia em João, o Grande, grande fundamento tenho para dizer que também como João está em graça de Deus, porque na graça de Deus está aquele Monarca com quem Deus usa da sua misericórdia. Por isso verá a Jerusalém Celeste o mesmo João que viu a nova cidade de Jerusalém descida do Céu à terra. [...].

 

NOTAS

1 Cornélio Alapide, Com. in Apoc., cap. 4, 4.

2 Idem.

3 1 Paralipómenos, XVII, 11-13.