Em Torno da Ideia de Lisboa como Capital do Quinto Império


Tem Lisboa o seu assento na parte Ocidental de Espanha, onde o Tejo entra no Oceano. É empório do Mundo e metrópole de Portugal [...] fica ela trinta e nove graus da parte do Norte, debaixo do signo de Aries, no fim do quinto e príncipio do sexto Clima, fundada como outra Roma sobre sete montes [...].

MANUEL PEREIRA CIDADE

 

Portugal não permaneceu imune, porquanto as supra aludidas doutrinas tiveram aqui curso, ora expendidas na Universidade de Lisboa por Tomás Escoto, de quem Álvaro Pais escreve: "Outro erro sustenta como dizem os maus astrólogos e também chamados falsos profetas, que as coisas surgem e sucedem necessariamente neste mundo pelas constelações" (erro 34º), ora alimentando uma notável obra de apologética do século XV (83), cujo autor manifesta havê-las conhecido por intermédio do livro intitulado Ovídio da Velha, vulgarizado no Ocidente por Ricardo de Fornival (84).

 

Não menos significativos foram os contributos da inventiva hebraica. Salienta-se desta o Rabi toledano Yehuda Al-Harizi (séc. XII), autor do Tahkemoni, onde é possível ler:

 

E devido a que uma parte da tribo de Judá encontrou refúgio em Espanha, como dizem as escrituras [...] e a que o território de Sefarad se coloca no centro do Céu, com toda a exactidão e precisão, sob o meridiano recto, enquanto que os filhos de Babilónia se encontram no meridiano de Oriente: por esta razão se propagaram as ciências nestes dois extremos, segundo as suas variedades [...] e nestes dois lugares alcançou o mundo sua glória e sua grandeza [...] (85).

 

Mas igualmente da tradição islâmica. Num manuscrito aljamiado da Biblioteca Nacional de Paris (nº 774), o profeta Maomé assegura que a Espanha muçulmana está geograficamente situada debaixo do Alyaña ou Paraíso, o que corresponde a dizer que é uma Nova Jerusalém ou Nova Ka' aba (86).

Aos meios joaquimitas nacionais, poderá ser, todavia, assacada a responsabilidade pela pertinaz voga de tão peculiar cosmologia, a qual alimentará Almanaques e Prognósticos, verdadeira literatura de vulgarização da astrologia mundial e compelirá Fr. António de Beja a compôr o seu Contra o Juízo dos Astrólogos (1523), correspondendo a solicitação da Rainha D. Leonor, para desfeitear os profetas do dilúvio anunciado para 4 ou 5 de Fevereiro de 1524, devido a uma conjunção no signo de Peixes.

Em pleno século XVII, achamos no trinitário Sebastião de Paiva, no P. António Vieira e no astrólogo António Pais Ferraz (87) exímios expositores do tema. O jesuíta abordou-o em diferentes ocasiões. Serve de exemplo a Palavra do Pregador Defendida:

 

E se alguém com razão perguntar de que princípios se pode inferir politicamente, que este império universal, e último se haja de levantar nos últimos fins, ou raias do Ocidente ? Respondo, que da experiência havida pelas histórias, que são aquele espelho inculcado por Salomão, em que olhando para o passado, se antevêem os futuros. E posto que estes dependem dos decretos divinos; pelos efeitos que os olhos vêem dos mesmos decretos, não só conhece o discurso humano quais eles fossem, mas interfere quase com certeza, quais hajam de ser. Assim o notou em outro lugar o mesmo Lípsio, advertindo (e pedindo se considere) que o poder e o domínio do mundo sempre veio caminhando ou descendo do oriente para o ocidente: Nescio quo Providentiae decreto res, et vigor ab oriente (considera, si voles), ad occasum eunt. O primeiro império do mundo, que foi o dos Assírios, e dominou toda a Ásia, também foi o mais oriental. Dali passou aos Persas mais ocidentais que os Assírios: dali aos Gregos mais ocidentais que os Persas: dali aos Romanos mais ocidentais que os Gregos: e como já tem passado pelos Romanos, e vai levando seu curso para o ocidente, havendo de ser, como é de fé, o último império, aonde pode ir parar, senão na gente mais ocidental de todas ?

Mas porque o mesmo autor desta advertência confessa ignorar a razão dela, e a da Providência Divina em um tal decreto, Nescio quo Providentiae decreto, não será temeridade, nem consideração supérflua dizer eu a razão que se me oferece: e é, que Deus, enquanto governador do mundo, se conforma consigo mesmo enquanto Criador dele. A sabedoria com que Deus governa o universo, é a mesma com que o criou. Que muito logo, que no modo do governo e da criação se pareça a mesma sabedoria e o mesmo Deus consigo ? Deus criou o mundo em sete dias, e vemos que no governo do mesmo mundo, nas idades, nas vidas, nas doenças, nos dias críticos, e nos anos climatéricos, observa sempre os períodos do mesmo septeno. Pois assim como Deus no governo da natureza observa a proporção dos tempos, assim é de crer, que no governo dos impérios observe a proporção dos movimentos. O Sol, os céus, as estrelas, os mares, todos se movem perpetuamente do oriente para o ocidente: e porque a roda que os ignorantes chamam da Fortuna, é própria e verdadeiramente a da Providência Divina, correndo sempre os movimentos naturais do Universo desde o oriente ao ocaso, pede a proporção e harmonia do mesmo Universo, que também corram do oriente para o ocaso os movimentos políticos. Assim que não é totalmente violenta a força que muda e desfaz os impérios antigos, e cria e levanta os novos; mas nessa mesma violência ou força tem muito de natural, pois segue os movimentos e peso de toda a natureza. No oriente nasceu o primeiro império; no ocidente há-de parar o último. O que eu logo pudera confirmar a Portugal com um famoso texto da Escritura; mas porque faço conta de acabar com ele, basta que fique aqui citado.

E certamente que não haverá juízo político alheio de paixão, que medindo geometricamente o mundo, e suas partes na suposição, em que imos, de que Deus haja se levantar nele império universal, não reconheça neste cabo ou rosto do ocidente assim lavado do Oceano, o sítio mais proporcionado e capaz que o supremo Arquitecto tenha destinado para a fábrica de tão alto edifício. Como o sangue nos corpos viventes e sensitivos é o humor e instrumento principal, sem o qual se não puderam sustentar nem viver; assim neste vastíssimo corpo do universo, em que a terra, e os penhascos são de carne e os ossos; o mar, os portos, e os rios são o sangue e as veias por onde nas mais remotas distâncias se pode unir o coração com os membros, e por meio dele lhes comunicar a vida, e reparar as forças, com aquela distribuição igual e contínua, sem a qual se não pode conservar e muito menos ser um. As naus grandes e poderosas são as pontes do Oceano: as embarcações menores as dos rios caudalosos e navegáveis: com estas se unem as províncias, com aquelas o mundo se não divide em partes, e até as mesmas ilhas se fazem continente. E que outro lugar há no universo tão acomodado a receber ele como de uma só fonte todos estes benefícios vitais mais breve e facilmente que Portugal: situado quase na boca do Mediterrâneo, não longe das gargantas do Báltico, e para o Atlântico, e o Etiópico, para o Eritreu, e o Índico mais vizinho ? Ali se desagua o Tejo, esperando entre dous promontórios, como com os braços abertos, não os tributos de que o suave jugo daquele império libertará todas as gentes, mas a voluntária obediência de todas que ali se conhecerão juntas, até as da terra hoje incógnita, que então perderá a injúria deste nome.

Lava o celebradíssimo Tejo, ou doura com as suas correntes as ribeiras, e faz espelho aos montes e torres de Lisboa aquela antiquíssima cidade, que na prerrogativa dos anos excede a todas as que os contam por séculos. Em seu nascimento foi fundada por Elisa, filho de Javã, e irmão de Tubal, ambos netos de Noé, donde começou a ser conhecida pelo nome de Elísia; e depois tão amplificada por Ulisses, que não duvidou a grega ambição de lhe dar, como obra própria, o nome de Ulissipo. Tanto pelo fundador, como pelo amplificador lhe compete a Lisboa a procedência de todas as metrópoles dos impérios do Mundo; porque enquanto Elísia é duzentos e vinte e dous anos mais antiga que Nínive cabeça do primeiro império, que foi o dos Assírios; e enquanto Ulissipo quatrocentos e vinte e cinco anos mais antiga que Roma, cabeça também do último, enquanto o dominaram os Romanos. Ambas caminhando ao ocidente trouxeram das ruínas de Tróia as pedras fundamentais de sua grandeza [...] (88).

 

Porém, até perante o Tribunal do Santo Ofício Vieira abordou o assunto, conforme a Defesa, que expressamente compôs na circunstância, patenteia (89).

Numa outra obra que, infelizmente, não chegou a redigir, o Livro VI da História do Futuro, o qual deveria tratar da "Terra em que se há-de fundar o dito Império enquanto temporal e qual há-de ser a cabeça dele", previa a abordagem de três questões que, decerto, aclarariam imenso as anteriormente citadas:

 

1. Se o Império deveria ser na Europa ou em em  qualquer dos outros continentes, concluindo-se que seria na Europa;

2. Qual a província da Europa em que tal Império teria lugar de nascimento e aceita-se como solução que em Espanha;

3. Em que Reino de Espanha será fundado o mesmo Império, diz-se a capital de Portugal (90).

 

Ecos das referidas proposições são rastreáveis em inúmeros outros autores. Em regra são alusões veladas por um código conceptual em que se encontram implicados conceitos senão do conhecimento geral, pelo menos muito divulgados.

Um dos primeiros, senão o primeiro, a expôr os seus argumentos, no que respeita à predestinação de Lisboa, foi João de Barros, na Crónica do Imperador Clarimundo:

 

Ulisses e a mais principal causa que nesta terra fez, foi a cidade de Lisboa junto do mosteiro de Chelas, onde Aquiles estava. E não foi a fundação dela sem grão mistério, porque estando Ulisses dormindo, apareceu-lhe Júpiter dizendo: - Ulisses, quão pouco te hão-de aproveitar teus trabalhos ordenados para a destruição de Tróia, pois no fim deles e dela, ficarás mais vencido que vencedor! que não se conta por vitória a que por engano e trição dos naturais se alcança; e porque vós outros desta maneira cobrareis Tróia, não sereis chamados vitoriosos, mas inventores de enganos, e em galardão de teis obras nenhum de vós outros tornará à sua pátria descansado, senão que com muitos trabalhos alcançareis a vista dela, e depois mortes desonradas; e os Troianos desbaratados e vencidos cobrarão gloriosa fama; porque da sua cidade sairá aquele, da geração do qual nascerá o fundador de Roma, que em tamanha alteza nas armas florescerá, que grandes partes do Mundo lhe serão sujeitas; e a vossa Grécia mui humilde será submetida debaixo de seus pés; e porque a tua geração não fique com estas cousas abatida, faze o que te disser, que este só remédio te fará tão glorioso, que não hajas inveja aos Troianos, nem a seus fundadores. Onde esta segunda noite vires cair um sinal de fogo, ali fundarás uma cidade, a qual depois que a grã Roma desfalecer de seu senhorio perdendo o nome de imperatriz, crescerá em tamanho poder e alteza, que em todas as partes do Mundo será temida e amada, fazendo tais obras, que as armas gregas e romanas perderão sua glória. Isto será para ti maior louvor, que quantas cousas no cerco de Tróia fizeres; portanto, vive contente, que o teu nome será exalçado por ser fundador de tal monarquia. Acabando Ulisses de ouvir estas cousas, ficou mui espantado com a novidade delas, e como era capaz e agudo, considerando o bem e louvor, que por tal obra lhe prometiam, dando de isto conta a seus companheiros, estiveram toda a noite esperando pelo sinal, até que viram cair do céu na maior altura de um monte um raio de fogo, e começou de queimar aquele arvoredo verde que tinha, até que ficou a terra tão escampada, como se nunca ali outra cousa estivera. Ulisses ao outro dia atinando onde vira cair o raio, foi dar com uma esfera lavrada em uma pedra da cor do mesmo fogo, e pelo zodíaco tinha umas letras que diziam: Sobre este fundamento seja posta a primeira pedra da minha cidade, porque outra tal figura como esta será sujeita a quem me tiver por cimento. Quando Ulisses e seus companheiros entenderam que naquele lugar, e sobre tal fundamento lhes era mandado edificar, fizeram a cidade de Lisboa, a que pôs nome Ulissipo. E este princípio foi de tanta força, que sempre se aumentou em poder, honra, riqueza, e toda perfeição; e acabando-a de fundar, deixou ali alguns companheiros para povoadores, oa quais depois que se estenderam pela terra, edificaram estes lugares (91).

 

Mas Lisboa, soberana das urbes do mundo, foi cantada numa acepção similar por Júlio Escalígero:

 

Vês para onde vai o orbe compelido / De ventos peregrinos ? Vês onde é, / Em um pequeno golfo, a terra d' Índia ? / Calma se vê do mar a salsa face, / Dourada está do céu a violência. / Que te falta senão arrebatar / Do pólo o ceptro ? Deus não podes ser; / Não queres tua fama eternizar, / Quando três vezes te levanta a sorte / Por sobre as condições da vida humana ? (92).

 

Ou por Gabriel Pereira de Castro (1571-1632), na Ulysseia (1636):

 

[...] Antre os segredos da futura idade / Grande glória te espera, ó Tejo ufano, / Quando os muros erguer da grão Cidade / Em tuas margens hum Grego soberano, / Em cujo império, e eterna majestade / Dispois do mar Atlante, e do Oceano / Se há-de ver o mar roxo navegado, / perdendo a cor vermelha de enfiado (93).

 

Será pura estultícia objectar, afirmando tratar-se de meras figuras de retórica, iludindo, assim, um facto cultural, do qual, inexplicavelmente, se não extraíram nunca quaisquer consequências.

Sem me deter na análise sistemática e extensiva dos exemplos que me são familiares, eis, sucintamente, algumas das mais interessantes formulações do problema:

 

1. A ENCARNAÇÃO DOS PORTENTOS MÁGICOS ASSOCIADOS AO INDO E AO GANGES, RIOS SAGRADOS DA ÍNDIA, PELO TEJO

 

O tema remonta à centúria de quatrocentos, inspirando-se no dístico do poeta Hercule Strozzi, gravado no cenotáfio de Pico della Mirandola:

 

Aqui jaz Pico della Mirandola, / não o ignoram nem no Tejo, nem / no Ganges, nem mesmo talvez / nos Antípodas (94).

 

Porém, aquilo que no panegírico não passava de uma declaração da fama universal do humanista tumulado, adquiriu inesperados contornos semânticos a partir da divulgação por Duarte Nunes de Lião da denominada Profecia de Sintra, lápide com uma inscrição latina, alegadamente descoberta em plena serra, a qual o mesmo autor traduzia:

 

Patente me farei aos do Ocidente. / Quando a porta se abrir lá no Oriente. / Será coisa pasmosa (de ver) / Quando o Indo com o Ganges trocar / Segundo vejo, os efeitos com o Tejo (95).

 

Embebida na ambiência mítica e imperial do período de D. Manuel tal antigualha suscitou um vivo interesse entre antiquários (96) de cujas páginas migrou, contaminando a literatura.

Jorge Buchanan escreve no seu "elegante carme em louvor dos portugueses":

 

Nem já o Índio, ao jugo paciente, / Teria por desonra que o Ganges / Pedisse leis ao Tejo, seu Senhor (97).

 

Gabriel Pereira de Castro (1571-1632) apresenta na Ulysseia argumentos idêntico mote (98), o qual havia anteriormente sido endereçado a D. Sebastião na Écloga Adonis por Diogo Bernardes (99) e no In Ezechielem Prophetam Commentaria (Salamanca, 1568) por Frei Heitor Pinto (100).

Cervantes também não é excepção, dando corpo à ambiência lendária na Galatea (101) e numa das Novelas Exemplares (102). Nem tão pouco António Vieira que utiliza o topos, introduzindo-o na parenética (103). Ou mesmo Bocage que o emprega em A Virtude Laureada:

 

[...] Acompanhar-te quis ao vasto empório, / De Lysia, do universo, à grã cidade, / Que espelha os torreões no vítreo Tejo, / D'onde sagradas leis despede ao Ganges / O globo é puro aqui, e aqui parece / Estar inda na infância a Natureza, / Bella, serena, cândida, inocente [...] (104).

 

As alusões suceder-se-ão contando-se Fernando Pessoa no número daqueles que seria imperdoável deixar de citar, porquanto, segundo a sua corografia simbólica, "o Ganges também passa pela Rua dos Douradores".

Outro tanto pode ser afirmado de Camões que consagra ao assunto todo o episódio do sonho profético de D. Manuel, em Os Lusíadas:

 

[...] -- Ó tu, a cujos reinos a coroa / Grande parte do mundo está guardada, / Nós outros, cuja fama tanto voa, / Cuja cerviz bem nunca foi dourada, / Te avisamos que é tempo que já mandes / A receber de nós tributos grandes. / Eu sou, o ilustre Ganges, que na terra / Celeste tenho o berço verdadeiro; / Estoutro é o Indo, Rei, que, nesta serra / Que vês, seu nascimento tem primeiro. / Custar-te-emos contudo dura guerra; / Mas, insistindo tu, por derradeiro, / Com não voistas vitórias, sem receio. / A quantas gentes vês porás o freio (105).

 

Mas, verdadeiramente significativo do sentido eminentemente imperial que andava subjacente a este topos seria, não houvesse sido destruído pelo terramoto de 1755, um dos nove candelabros encomendados por D. João V a um ourives de Florença, precisamente para a Igreja Patriarcal de Lisboa, no qual se via um navio acompanhado pelo moto "Ab Indo ad Tagum" (106).

Desde aqui somos inexoravelmente guiados até outra das formulações, porventura aquela que maior ventura concitou, da ideia que exponho.

 

2. A TRANSFORMAÇÃO DE LISBOA NUMA NOVA ROMA

 

É Camões o responsável pela inauguração da galeria, nos versos de Os Lusíadas:

 

Via todo o Céu determinado / De fazer de Lisboa nova Roma / Não o podendo estorvar que destinado / Está de outro poder que tudo doma (107).

 

Já agora sublinhe-se que nesta assunção se filiam umas quantas variantes.

João Baptista Gesio, napolitano, espião de Filipe II, tendo travado conhecimento em Lisboa com Gregório Sarmiento de Valadares, nobre galego em contacto estreito com os cristãos novos portugueses, informa que o apoio dado pelos judeus a D. António não só se destinava a fazer dele rei de Portugal mas também de Lisboa uma Nova Jerusalém, onde se reuniriam todos os cristãos novos dispersos pela Europa (108).

Ou aquela outra, destinada a manifestar a circunstância de tal urbe ser um resumo do Universo: "[...] um reino por si só [...]" lhe chama Duarte Nunes de Lião (109).

Resumo do universo ou, por outras palavras, um umbigo do mundo, provavelmente na origem de um dito célebre atribuído a Carlos V: "Se eu fora Rei de Lisboa eu o fora em pouco tempo de todo o mundo" (110) e cujo corolário se acha:

 

A. No programa iconográfico da arquitectura efémera levantada quando da entrada que Filipe III realizou em Lisboa no ano de 1619 (111);

B. No Discurso Político na ocasião endereçado por Manuel Severim de Faria ao mesmo monarca na intenção de o sensibilizar para as vantagens que retiraria do facto de sediar a sua Corte em Lisboa (112), porquanto a monarquia espanhola "sendo toda marítima parece que em certo modo fica monstruosa tendo no sertão a cabeça" (113);

C. Em Amador de Arrais, que crisma a lusa capital de "olho claríssimo do Universo", considerando-a "[...] escolhida por Deus para esclarecer o Mundo, e acender o lume da fé em gentes bárbaras e nações feras [...]" (114);

D. No Roteiro Terrestre de Portugal (1748) do P. João Baptista de Castro, no qual é comparada a um coração "que é o principal fundamento que vivifica todos os seus membros [...]";

E. Em Fernando Pessoa: Lisboa, a sua aldeia, cuja topografia remete para os tempos primordiais, surge, em Álvaro de Campos e, designamente, no Livro do Desassossego de Bernardo Soares, como uma forma metonímica, resumindo não apenas Portugal mas concentrando o próprio universo.

 

Afinal, Lisboa está à imagem de Roma ou Constantinopla, entre inúmeras outras cidades, devido a essa particularidade consideradas sagradas, construída sobre sete colinas, motivo por que Fernando Pessoa preconizará: "[...] Não precisamos dos sete montes de Roma: também aqui, em Lisboa, temos sete montes. Edifiquemos sobre estes a nossa Igreja [...]" (115).

O Septimontium, inseparável da noção, tão cara ao pensamento tradicional, das Sete Terras, Aqtab ou Dwipa, designa, seja qual for a terminologia e idioma usados (hebraico, árabe ou sânscrito), as regiões ou continentes sobre os quais as sucessivas civilizações adquirem consistência. As Sete Terras são os reinos dos "Sete Reis de Edom" da Kaballah. Cada uma dessas Sete Terras é regida por um Qutb ou Pólo, reflexo de um dos sete Pólos celestes, os quais presidem aos sete céus planetários, segundo o esoterismo islâmico. Por seu turno, a cada "Terra" ou "Face do Meru" corresponde em cada um dos sete Manvantaras sucessivos um aspecto particular do globo regido por um pólo, ou antes, por uma posição particular dele, explicação concordante com certas conclusões de A. Wegener, segundo o qual os pólos migraram à face do planeta.

Quanto ao discurso inspirador da perspectiva lusa, se bem que apócrifo, é dito remontar ao Vaticínio XXVII do Abade Joaquim, que se reporta à cidade dos "sete oiteiros" (116), a qual "terá em si o Império", tendo sido retomado sucessivamente por D. Tomé de Faria, tradutor e comentador de Camões, o religioso profeta que se esconde sob o nome de Eremita de Monserrate, Bandarra, Manuel Bocarro Francês, para só enumerar uns quantos.

Em 1620, no Livro das Grandezas de Lisboa da autoria de frei Nicolau de Oliveira, viria a adquirir uma forma próxima da definitiva (117).

Não obstante, nunca antes como a partir do século XVIII, com D. João V, a invectiva do Padre António Vieira, "veja-se Lisboa em Roma como em espelho" (118), terá servido de glosa com tamanha insistência.

O soneto À Nova Lisboa do Hermes Católico, o P. Rafael Bluteau, distribuído juntamente com outras cinco folhas com versos latinos e portugueses pelo auditório que na igreja dos Clérigos Teatinos assistiu à recitação das Prosas Patriarcais Semi-Académicas, com Aplausos Eucarísticos, Encomiásticos e Políticos, em acção de graças do Patriarcado de Lisboa, durante três tardes sucessivas e com a presença do Magnânimo, serve de exemplo:

 

Se no cristal do Tejo reverente, / Retratando Lisboa a Majestade, / Em si mesma lograva outra Cidade / Estampada na líquida corrente. / Hoje a sua grandeza lhe consente / Formar outra Lisboa de ametade, / Que para emulação da eternidade / Já nasce nova Roma no Ocidente. / Correndo ao Tejo o Tibre agradecido, / Lhe quis dar um púrpureo Principado, / Por ter com ele o ceptro repartido: / Pois bem conhece o Tibre venerado, / Que enquanto for do Tejo defendido, / Será de todo o Mundo respeitado (119).

 

Uma tal emulação, ensaiada nas cátedras e nos púlpitos datava dos primórdios do reinado, aliás do dia mesmo da aclamação de D. João V (1 de Janeiro 1707). No ano seguinte de 1708 (22 de Dezembro), na Sé de Lisboa, sendo orador André Freire de Carvalho, as laudas, dessa feita extensivas à rainha D. Mariana de Áustria, são renovadas:

 

[Lisboa] para demonstração do seu júbilo converte hoje em sinais de agradecimento os triunfos passados, transladando para obséquio de Vossas Majestades, de todas as quatro partes do Mundo os arcos triunfais, os obeliscos e as pirâmides, com que a fama eternizou o valor constante de seus filhos sobre as cinzas de muitos Impérios sobre as ruínas de todas as nações [...] deste Real Himeneu espera ver vitórias excessivamente maiores [...] verá uma só cidade ser senhora de todos os Reinos [...] Todas estas felicidades serão maiores do que a inveja, serão iguais ao merecimento, para que patentes os segredos das profecias, que nos têm prometido tantos séculos de esperanças, agradecidos, gloriosos e satisfeitos os Portugueses digam em contínuas aclamações que vivam Vossas Majestades, que reinem e que triunfem e que dos nossos anos se lhe acrescentem os seus (120).

 

Seja como for, mais do que as palavras, os cristalinos emblemas do programa imperial de D. João V, gibelino e regalista na sua essência, são os actos consubstanciados:

 

A. na construção de um Aqueduto (edificado entre 1728 e 1748), reconhecida prerrogativa dos Césares e Augustos Romanos (121);

B. na divisão de Lisboa em dois hemisférios e doze Bairros, para configurá-la de molde a corresponder à exacta figura da capital do Quinto Império, conforme a profecia que preconizava a síntese de Oriente e Ocidente na cidade sede do Império;

C. na instituição da Basílica Patriarcal, autêntico "simulacro da corte pontifícia dentro da sua real capela", arremedo da nova Jerusalém (122), a qual, a acreditar nos relatos de viajantes estrangeiros, superava o Vaticano em riqueza e pompa litúrgica.

 

É, realmente, esclarecedora a narrativa das "raras exuberâncias sumptuárias" do Patriarca de Lisboa, D. Tomás de Almeida:

 

[...] saía de estado no seu coche riquíssimo de veludo carmesim, agaloado de ouro por dentro e tendo no tejadilho, na parte interna, o Espírito Santo, fabricado de ouro à imitação do que usa o Papa [...] Os cocheiros eram, também como os do Papa, vestidos com calções largos cobertos de ouro, véstias encarnadas todas tecidas de ouro e, por cima destas, outras, de mangas perdidas com vários cachos de ouro pelos ombros, volta bordada, cabeleiras grandes, botas encarnadas e as joelheiras caídas com umas rendas finíssimas; montados em selas encarnadas e os arreios da mesma cor e tecido de ouro. Seguia-se a liteira de estado, também muito rica e, depois, quatro coches conduzindo os seus familiares, puxados cada um deles por seis cavalos russos e bem ajaezados, levados pela rédea por outros tantos criados. E num coche iam sempre nestas ocasiões quatro desembargadores da relação Patriarcal (123).

 

O Palácio-cenóbio junto à Vila de Mafra participará do mesmo programa, na ideação, estrutura arquitectónica e até nas circunstâncias da sua sagração. O italiano D. Gabriel Cimballi, clérigo convidado para a Sagração de 22 de Outubro de 1730, confessaria "que assistindo a muitos Pontificais na Capela do Papa não vira celebrar algum com tanta pompa e grandeza, assim na riqueza dos paramentos como na multiplicidade dos ministros, perfeição das cerimónias e harmonia das vozes, e só poderia ter a diferença de em Roma administrarem Cardeais o que em Mafra fizeram Cónegos " (124).

Pelo mesmo motivo, António Isidoro da Nobrega chamará a Mafra "um verdadeiro compêndio da nova Roma" (125).

 

 

NOTAS

 

(84) Clérigo e médico inglês (c. 1201-1260), autor do Bestiaire d' Amour (1252), tratado de estratégia no qual o poeta enamorado descreve as tácticas, erros, acertos e fracassos da sua actividade galante, utilizando as propriedades naturais dos animais, tradicionalmente descritas pelos autores de bestiários. Li Bestiaires d' Amour di Maistre Richart de Fornival, Milão-Nápoles, 1957.

(85) Cit. por A. I. Laredo e David Gonzalo Maeso, El nombre de Sefarad, in Sefarad, a. 4, n. 2 (1944), p. 357.

(86) Ver Luce Lopez Baralt, El Oraculo de Mahoma sobre la Andalucia Musulmana de los ultimos tiempos en un manuscrito aljamiado-mourico de la Biblioteca Nacional de Paris, in Hispanic Review (Inverno 1984), p. 41-57. Ver também  Ibne Arabi, Futuhat, II, 582.

(87) Discurso Astrologico das Influencias da Mayor Conjunçam de Jupiter e Marte, que succederá neste anno de 1660 a 8 de Agosto observada, e calculada para o Meridiano desta Corte, cabeça de Portugal. Nelle se trata da exaltaçam de Portugal, dos principios do seu Imperio e de suas felicidades, Lisboa, 1661.

(88) Tb. conhecido por Discurso apologético oferecido secretamente à Rainha Nossa Senhora para alivio das suas saudades, depois do falecimento do Príncipe D. João, primogenito de Ss. Magestades, in Sermões, v. 15, p. 83-86. Na primeira edição dos Sermões este discurso surge sob o título Palavra do Pregador Empenhada e Defendida, associado a outro em acção de graças pelo nascimento do mesmo Príncipe, intitulado Palavra Empenhada.

(89) Defesa perante o Santo Ofício, v. 2, n. 602-603, p. 272-273.

(90) Cf. Dedução Cronológica, provas da parte I, divisão IX, § 356, prova n. XLV, n. 70: Que a cabeça deste Império Temporal há-de ser Lisboa e os Reis de Portugal Imperadores Supremos. Que neste tempo hão-de florescer universalmente a justiça, a inocência e santidade em todos os estados.

(91) III, cap. IV, v. 3, p. 124-126. Foi Solino o primeiro a atribuir a fundação de Lisboa a Ulisses, inspirado numa interpretação geográfica de Estrabão (Fontes, II, p. 185, 156-179).

(92) Cit. por Serafim de Freitas, Do Justo Império Asiático dos Portugueses, v. 1, Lisboa, 1960, cap. V, p. 145.

(93) Canto VII, 70.

(94) "Johannes facet hic Mirandula: coetera norunt / Et Tagus et Ganges: forsan et Antipodes". O mesmo Strozzi compôs um outro epitáfio: "Aqui jaz Pico e se das suas virtudes todas houvessem perecido, sete túmulos seriam insuficientes [para as enterrar]". Crê-se que o túmulo de Pico se ache na Igreja de S. Marcos de Florença, junto do de Ângelo Policiano. Sebastião Toscano acomoda o dístico ao Terribil, na Oração fúnebre de Afonso de Albuquerque (Lisboa, 1566, fl. 15-15v). Ver, sobre as implicações teológico-filosóficas do epitáfio do humanista italiano, Armando de Jesus Marques, O Epitáfio de Pico della Mirandola num clássico português: de um actual problema antropológico que sugere, in Panorama, n. 45 (1973), p. 12-16.

(95) Na versão original latina: "Volventur saxa litteris et ordine rectis / Cum videris Oriens, Occidentis opes / Ganges, Indus, Tagus erit mirabile visu / Merces commutabit sua uterque sibi".

(96) Dr. João de Barros, Descrição de Entre Douro e Minho, 1549 (ed. Porto, 1919, com o título Geographia d' Entre Douro e Minho e Trás-os-Montes), Frei Bernardo de Brito, Monarquia Lusitana, liv. I, cap. XII.

(97) Cit. por Serafim de Freitas, Ob. cit..

(98) Canto III, 81: "[...] ao famoso Tejo ufano, / (Escurecendo toda a antiga fama) / Ajoelhados de longe, o mar abrindo, / A mão virão beijar o Gange e o Indo".

(99) In O Lima (1596): "Levou a cruel morte, sem ter pejo, / Aquele belo moço, a quem tributo / esperavam pagar o Indo e o Tejo".

(100) Enaltece D. Sebastião e os seus antepassados pela obra de evangelização, referindo ao Desejado algumas profecias que Ezequiel aplica a Cristo: "Hic fluvius nostra hac, et patrum nostrorum memoria fluxit ex tua hac Lusitania usque ad Gangem et Indum magnos fluvios ditissimae Indiae campos alluentes [...]".

(101) Livro VI: " [...] dirán que en ciencias es Hernando solo / del Gange al Nilo, y de uno al otro polo. / valor, virtud, ingenio te enriquecen / y sobre el Indo y Ganges te engrandecen".

(102) Ver Gitanilla: " O como crió tal pieza / el humilde Manzanares? / Por esto será famoso / al par del Tajo dorado / y por Preciosa preciado / más que el Ganges caudaloso".

(103) Palavra de Deus Empenhada no Sermão das Exéquias da Rainha D. Maria Francisca Isabel, in Sermões, v. 15, Porto, 1959, p. 363: "[...] Saíu do Tejo a Armada querenada de ouro, matizando com assombro os mares: saíu do Tejo carregada de diamantes e pérolas, como se saíra do Indo e Ganges".

(104) Elogio aos anos da Augustissima Senhora Rainha de Portugal, D. Maria I, v. 4, p. 125.

(105) Canto IV, 73-75.

(106) P. Maestro Benvenuto Benvenuti, Distinto Ragguaglio dal Disegno, e Lavoro de Famosi Candellieri fabbricati in Firenze per ordine della Sacra Real Maestá di Giovanni V Re di Portogallo, Florença, 1732, p. 10. Ver Padre João Baptista de Castro, Mappa de Portugal, v. 3 (3ª edição), p. 109-110. Na literatura panegírica produzida para as exéquias do Magnânimo descobrem-se mais ecos deste índice imperial da majestade portuguesa. Ver, por exemplo, Culto funebre [...].

(107) Canto VI, 7.

(108) Carta citada por Sylvie-Deswarte-Rosa, Escorial - De l' Emblema à l' Espionnage: autour de D. Juan de Borja Ambassadeur Espagnol au Portugal, in As Relações Artísticas entre Portugal e Espanha na época dos descobrimentos, Coimbra, 1987, p. 183, nota 18 (p. 171-172).

(109) Descrição do Reino de Portugal, Lisboa, 1610, fl. 11.

(110) Nicolau de Oliveira, Grandezas de Lisboa, fl. 77.

(111) As chaves de Lisboa foram entregues a Filipe III sob um arco (dos Mercadores) com quatro fachadas (quadrifrons), cada uma das quais representava um continente. Portugal  achava-se ao centro e Lisboa como umbilicus mundi. Ver João Baptista Lavanha, Viagem da Catholica Real Majestade del rey D. Filipe II, Madrid, 1622.

(112) Discursos Vários Políticos, Évora, 1624, discurso primeiro, fl. 1-21v. O pensamento exposto por Manuel Severim de Faria não era exclusivo seu, traduzindo um desejo amplamente partilhado. Ver, por exemplo, os Diálogos (1608) de Luís Mendes de Vasconcelos, in Arquivo Nacional, a. 6, n. 302 (20 Out. 1937), p. 290-291. A resposta à letra às pretensões lusas haveria de surgir pela pena de Don Alonso Nuñez de Castro no Libro Historico Politico. Solo Madrid es Corte, y El Cortesano en Madrid. Dividido en quatro libros. En el primero se discurren las ventajas, que Madrid, ya en quanto Plobacion, ya en quanto Corte, haze a las demas del Orbe. Los tres siguintes instruyen al Cortezano con dogmas Christianamente Politicos para adorno del entendimiento, aliño de la voluntad, y perfeccion de la memoria, Madrid, 1658.

(113) Idem, fl. 12r. Lavanha descreve outro arco erigido pelas guildas próximo da Sé de Lisboa, onde Jacob (i.e., Filipe III) era representado entrando na Palestina (i.e., Portugal) (fl. 36). A propósito do arco dos italianos (fl. 33v), o mesmo Lavanha sublinha o implícito desígneo ali exposto de supremacia para Lisboa relacionado com as duas empresas colocadas na cornija: esferas sob coroas com os moto Consilio et patientia e Hic Principium, finis nullibi, por intermédio das quais a monarquia espanhola era aconselhada a dar mostras da sua sábia governação, fazendo de Lisboa a sua capital para que o império se tornasse perpétuo. Ver George Kubler, Portuguese Plain Architecture: between Spices and Diamonds (1521-1706), p. 109.

(114) Diálogos, Coimbra, 1604, p. 110.

(115) Sobre Portugal, p. 178.

(116) Para o hemisfério ocidental a Urbs septicollis por excelência é Roma, cujo septimontium original comportava as colinas Palatino, Velia, Cermal, Fagutal, Cispian, Oppian e Capitólio.

(117) Foi o primeiro autor a estabelecer um paralelo entre Roma e Lisboa com base nas sete colinas: S. Vicente de Fora, Santo André, Castelo, Santana, S. Roque, Chagas e Santa Catarina (fl. 60 e 63v). Damião de Góis comparara Lisboa a uma bexiga de peixe (vesica piscis) se observada desde Almada e constituída por apenas cinco colinas (Paço Velho de Santos, S. Roque, Santana, N. Sra. do Monte e N. Sra. da Graça e Castelo), in Urbis Olisiponis Descriptio (trad. Raul Machado, 1937, p. 36, 40-41). Cristovão Rodrigues de Oliveira, por seu turno, contara apenas quatro (Sumário, 2ª edição: 1755, p. 120-121). Ver Augusto Vieira da Silva, As sete colinas de Lisboa, in Dispersos, v. 3, Lisboa, 1960, p. 179-192.

(118) Palavra de Deus empenhada, in Sermões, v. 15, p. 397

(119) Prosas Portuguesas, p. 325.

(120) Oraçam que disse o Doutor Andre Freire de Carvalho na presença de Suas Magestades ElRey D. Joam o V e a Rainha D. Mariana de Austria NN.SS. quando forão em acção de graças á Sé de Lisboa em 22 de Dezembro de 1708, Lisboa, 1709, fl. 2v-3r

e 4r.

(121) O seu projectista, Manuel da Maia, possuía um manuscrito intitulado Leges sive constitutiones imperiales de aquaeductibus - tam Romae veteris quam novae, Urbis scilicet Constantinopolitanae. Sobre legislação regulando o empreendimento, ver D. João V e o Abastecimento de Água a Lisboa, Lisboa, 1990, 2 vols.

(122) Cf. Padre Timóteo de Oliveira, Sermão da Dedicação da Santa Igreja Patriarchal (Lisboa, 1748), p. 6: "[...] Se ressuscitara Salomão, veria com assombro imitadas as riquezas do seu famoso templo; admiraria na Corte de Portugal uma Jerusalém nova, ou uma nova esposa, soberanamente enriquecida para receber dignamente o Divino Esposo [...]"; e p. 27: "[...] Os Padres Alcazar e Turriano, explicando a visão, dizem com outros, que a Jerusalém nova é a Igreja Católica, a qual sucedeu à Igreja Hebreia [...] Seja embora assim. Mas como a torrente dos Padres e Intérpretes aplicam esta visão do Apocalipse aos templos dedicados a Deus, vendo eu no nosso as mesmas circunstâncias que naquela viu o Profeta, com maior razão posso dizer, e digo, que falou particularmente do nosso a profecia [...]" [BN: R 23279 P]. Cf. também a dedicatória a D. Francisco de Meneses, cónego da Patriarcal, in Ennoea (Lisboa, 1732) de Anselmo Caetano Munhós de Abreu Gusmão Castelo Branco: "[...] Viu o Evangelista João S. João uma Igreja, ou uma Sé colocada no Céu, que tinha à sua vista um mar cristalino como vidro e diante do seu trono ardiam sete lâmpadas. Na circunferência desta Sé havia vinte e quatro tronos, ou assentos, em que se assentavam vinte e quatro anciãos, coroados com Mitras Episcopais, ou Coroas de ouro. Estes vinte e quatro Anciãos [...] eram Sacerdotes que reinavam e dominavam sobre a terra e sendo Reis que dominavam e reinavam, eram também o Reino de Deus [...] com nenhuma Igreja ou Sé tem mais semelhança do que com a Santa Igreja Patriarcal; porque tem à vista o mar e o Tejo que é quase mar [...]. E desta sorte se estabeleceu na Sacrossanta Basílica Patriarcal o Quinto Império do Mundo e de Cristo, prometido por Cristo ao primeiro Rei de Portugal [...]. De maneira que o Quinto Império do Mundo sendo espiritual e de Cristo também é temporal e dos Reis Portugueses. E tendo-o fundado Cristo na Santa Igreja Romana o estabeleceu depois na Sacrossanta Basílica Patriarcal, que por ser Igreja junta e unida com o Palácio de El-Rei, entre El-Rei e o Eclesiástico está repartido sem divisão o Quinto Império [...]. Porque assim como da Celeste Jerusalém se derivou a Igreja de Roma, da Igreja de Roma, como de perfeitíssimo original, se tirou a perfeita cópia da Sacrossanta Basílica Patriarcal [...]".

(123) J. Ribeiro Guimarães, Sumário de Vária História, v. IV, p. 196.

(124) Cit. por Frei Cláudio da Conceição, Gabinete Histórico, v. 8.

(125) Elogio fúnebre na sentida morte [...] D. João V, Lisboa, 1750 [BN: HG 4747 P].