A Custódia de Mafra


 

A Custódia de Mafra

 

É lenda ainda não desfeita de que os Cónegos Regrantes de Santo Agostinho, últimos habitantes do Convento, ao retirarem meteram a Custódia e mais pratas de uso eclesiástico numa parede dos subterrâneos e ali as deixaram entaipadas.

A lenda frutificou e várias pesquisas se fizeram em busca das preciosas alfaias fradescas. Numa dessas aventuras figurou um oficial do exército que veio a Mafra com autorização especial para fazer a pesquisa numa parede indicada na planta de que vinha munido. Foi improfícuo o seu trabalho. O que tem sido essa lenda parece-nos que a consideramos desvendada há dezenas de anos. Os Cónegos Regrantes estiveram em Mafra 21 anos e durante esse tempo ordenaram obras importantes no Convento. Em 1791 conseguiram voltar para Lisboa com autorização do governo da Rainha D. Maria I e, mais uma vez os franciscanos em número de 200 vieram habitar o Convento até 1807 em que retiraram a fugir das tropas de Junot que vieram ocupar aquela casa conventual. Voltaram a alojar-se por fim os Cónegos Regrantes que nele se conservaram até à extinção das Ordens Religiosas.

Saídos do Convento os Cónegos Regrantes tiveram vário destino. Alguns ficaram em Mafra: D. João da Soledade Morais, Prior da Azueira; Padre Mariano António Duarte, Prior de Mafra; Cónego Morais Cardoso, encarregado da Livraria, conhecido pelo cónego da livraria , e que foi um dos organizadores do Hospital Civil de Mafra, etc.

Vejamos agora o que foi feito das pratas do Convento de Mafra. O Prior da Azueira, D. João da Soledade Morais, contava o seguinte nos serões das pessoas de qualidade em casa de quem lhe aprazia ir passar as noites: - Quando da nossa primeira retirada do Convento de Mafra, o Guardião deu a Custódia e mais pratas a um homem da sua confiança para as guardar até que nós, os Cónegos Regrantes voltássemos para o Convento. Se não voltássemos ele que ficasse com elas. Assim sucedeu.

O amigo do Guardião, fornecedor do carvão do Convento, com as pratas construíu um dos melhores prédios do Gradil e passou a viver como pessoa abastada. E aqui está a história, que reputamos verdadeira, do destino da Custódia de Mafra.

[Dr. Carlos Galrão,Lendas de Mafra, in Bol. da Junta de Província da Estremadura, s. 2, n. 17, Jan.-Abr. 1948, p. 79-80]