Cosmologia e Mnemotecnia


          E a cidade é fundada em quadro, e tão comprida como larga: e mediu ele a Cidade com a cana de ouro [...]. E o seu comprimento e a sua altura e a sua largura são iguais.

          APOCALIPSE, XXI, 16

          Só o justo permanece, Aristóteles o chamou quadrado, pelo afirmar estável. A Cidade de Deus é quadrada porque é eterna.

          FREI JACINTO DE DEUS

          É unanimemente partilhada a opinião segundo a qual a Biblioteca do Palácio Nacional de Mafra (doravante BPNMafra) constitui um caso excepcional, singular mesmo, no contexto biblioteconómico lusitano.

          Diversos são os argumentos probatórios aduzidos.

          À cabeça, surge o mais consensual de quantos são citados: a BPNMafra é uma biblioteca histórica, efectivamente a única que sobreviveu incólume às vicissitudes que, em maior ou menor grau, estiveram na origem do desbarato das restantes livrarias conventuais portuguesas (1), inclusivé das contemporâneas dela.

          Depois de apontada tal circunstância, que aconselharia redobradas medidas cautelares no que respeita à sua conservação e gestão, são sublinhadas a amplitude (2) e a excelência do acervo, frequentemente inusitado até em congéneres estrangeiras.

          Por fim, invariavelmente num misto de estupefação e incredulidade, evoca-se a ambiência mágica do lugar, geradora de uma irreprimível necessidade de recolhimento interior, face à qual o indizível que paira no ar assume os contornos de uma quase hierofania.

          De facto, ali é possível ouvir o som do próprio silêncio!...

          Creio que, efectivamente, uma aura mistérica emana deste autêntico Templo do Saber. Estou mesmo convicto que, apesar do cartesiano desdém da generalidade dos chamados especialistas, existem motivos ponderosos na origem de tão persistente impressão causada pela BPNMafra sobre o visitante intuitivo.

          A tarefa que me cometi consiste, como já se tornou óbvio, em carrear para o convívio dos leitores elementos que os capacitem a reconstituir o quadro de referências indispensável à recuperação de uma semântica aparentemente perdida. Digo aparentemente perdida, porquanto ela foi simplesmente suplantada pelos modelos epistemológicos modernos, os quais a baniram e arredaram para áreas periféricas, marginais e herméticas do saber, acessíveis apenas àqueles que, fazendo profissão de fé da sua douta ignorância, buscam na maiêutica socrática a libertação relativamente aos constrangimentos impostos pela caverna e pelas inibições específicas dos cavernícolas.

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          Há alguns anos atrás, José Carlos Calazans, buscando uma explicação para o carácter impar da BPNMafra, levantou uma ponta do véu, não conduzindo, porém, até às últimas consequências a sua abordagem hermenêutica (3).

          Constatou, no entanto, que a BPNMafra repercute um modelo cosmológico cristão, tendo chamado a atenção para o facto de o seu organizador, frei João de Santana, o ter adoptado intencionalmente, servindo-se para o efeito daquilo que designou de regra das quatro ordens (4), a saber: 

          cosmosófica (dois hemisférios: Norte reservado ao trivium e Sul ao quadrivium);

          determinada pela altura das prateleiras (mais altas nas inferiores e mais baixas nas superiores);

          de matérias (directamente relacionada com a ordem cosmosófica: hemisfério Norte e Sul);

          cronológica (das obras mais antigas para as mais recentes, dentro de cada tema, por estante e por autor nas mesmas estantes).

          Não obstante ter posto, assim, a descoberto tão espantoso filão, aquele investigador deixaria por apurar diversos aspectos essenciais para a sua caracterização, de entre os quais avulta o de saber se a BPNMafra constitui um exemplo isolado e, em caso negativo, qual a latitude e representatividade atingida pelo modelo nela adoptado.

          Justamente a propósito dele recordo um trecho da descrição apresentada por Adso da biblioteca da abadia em cujo cenário se desenrola a trama de O Nome da Rosa de Umberto Eco, que é tudo menos uma inocente e quimérica ficção:

 

 “Em suma [...] convencemo-nos que a biblioteca era na verdade constituída e distribuída segundo a imagem do globo terráqueo. A setentrião encontrámos ANGLIA e GERMANI, que ao longo da parede ocidental se ligavam a GALLIA, para depois gerar no extremo ocidente HIBERNIA e na direcção da parede meridional ROMA (paraíso dos clássicos latinos!) e YSPANIA. Vinham depois a meridião os LEONES [África, direcção onde se encontravam livros de autores infiéis, i. e., os livros da mentira], o AEGYPTUS, para oriente se tornavam IUDAEA e FONS ADAE [o Paraíso, i. e., o oriente, direcção onde se guardavam as sagradas Escrituras, i. e., a palavra de Deus, e seus comentários]. Entre oriente e setentrião, ao longo da parede, ACAIA, uma boa sinédoque [...] para indicar a Grécia [...]. O modo de leitura era bizarro, por vezes procedia-se numa única direcção, outras vezes andava-se ao contrário, outras vezes ainda em círculo, frequentemente, como disse, uma letra servia para compor duas palavras diversas (e nestes casos a sala tinha um armário dedicado a um assunto e um outro a outro). Mas não havia evidentemente que procurar uma regra áurea naquela disposição. Tratava-se de mero artifício mnemónico para permitir ao bibliotecário encontrar uma obra. Dizer de um livro que se encontrava em quarta Acaiae significava que estava na Quarta sala a contar daquela em que aparecia o A inicial, e quanto ao modo de a identificar supunha-se que o bibliotecário sabia de cor o percurso, ou recto ou circular, a fazer. Por exemplo, ACAIA estava distribuído por quatro salas dispostas em quadrado, o que quer dizer que o primeiro A era também o último [...]. [...] vindo de oriente, nenhuma das salas de ACAIA introduzia nas salas seguintes: o labirinto terminava naquele ponto, e para chegar ao torreão setentrional era necessário passar pelos outros três. Mas, naturalmente, os bibliotecários, entrando pelo FONS, sabiam bem que para ir, supunhamos, a ANGLIA, deviam atravessar AEGYPTUS, YSPANIA, GALLIA e GERMANI”.

 

Enfim, se a mestria dos cânones tradicionais da cosmologia e da Arte da Memória, se revelou adequada ao intento dos personagens de Eco, por que não há-de igualmente ser competente para nos guiar na travessia do também labiríntico jardim de eloquência sacro-profana que é o locus mnemotécnico da BPNMafra?


 

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Orientar-se é uma atitude primordial que implica uma relação com o mundo (logo cosmológica), condicionada tanto pela forma específica como cada um se adapta ao espaço como pela cumplicidade que cria com as suas direcções cardeais. Sem tais condicionantes qualquer orientação quer geográfica, quer antropológica, seria inviável. Contudo, e desde uma época anterior à alcançável pela memória humana, todo esse sistema de interacções depende de um único referencial: o Norte celeste ou zénite do universo, a dimensão vertical e transcendente sem cuja vivência interior as dimensões horizontais jamais lograriam adquirir a posição que ocupam.

É, todavia, este conceito permutável com o outro mais vulgarizado de Oriente místico, origem e objecto da Demanda Eterna, tão comum na literatura cavaleiresca ocidental (tal como em Os Lusíadas), mas já presente nas instruções facultadas aos mystes do orfismo, ou no poema de Parménides, no qual, guiado pelas filhas do Sol, o poeta empreende uma viagem que tem por destino esse particular Oriente (5).

Convirá, entretanto, sublinhar que a BPNMafra fica situada no extremo oriente do edifício em que se acha inserida e, à semelhança deste, foi concebida como um autêntico cosmograma, conforme se infere da observação dos respectivos traçados reguladores.

 

Alguns dos traçados reguladores do Monumento de Mafra, obtidos a partir do comprimento do eixo Norte-Sul da Biblioteca.

 

A Casa da Livraria do Palácio Nacional de Mafra

O salão mede 88,88 m (404 palmos) no sentido Norte-Sul, 24,20 (110 palmos) no sentido nascente-poente e 9,46 m (43 palmos) de largura.

A abóbada eleva-se à altura de 10,78 m (49 palmos), excepto no cruzeiro, onde atinge 13,20 m (60 palmos).

Quatro portas envidraçadas fronteiras, duas a nascente e duas a poente, dão acesso a escadas que conduzem à galeria. As escadas do lado nascente, em caracol, são em pau preto, ocupando o espaço de um vão de janela, enquanto as outras duas são de cantaria, possuindo 27 degraus, distribuídos por 4 lanços: o terceiro dá acesso à galeria e o quarto às casas situadas sobre as do piso inferior.

De ambos os lados do cruzeiro, sobre a janela grande observa-se uma coroa real com o monograma de Dona Maria I.

 

Sistema mnemotécnico proposto para um mosteiro por Johannes Romberch(Congestorium Artificiose Memorie, Veneza, 1533).

Os loci ou lugares mnemotécnicos podem ser representados por arquitecturas complexas, sujeitas a todo o tipo de divisões e estruturas, e assumindo a forma de cidades, templos, palácios, jardins, diagramas geométricos, etc. As cinco partes da Retórica (inventio, dispositio, elocutio, memoria e pronuntiatio) são susceptíveis de se subordinar às sete zonas do corpo humano ou aos sete pontos espaciais: zénite, nadir, oriente, ocidente, meio-dia e setentrião.

 

Por outras palavras, a sua estrutura e configuração resumem analogicamente as leis e cânones anhistóricos do cosmos (6), tal qual estes têm sido tradicionalmente assumidos e legitimados pela prática construtiva, sob uma tripla formulação, sistematizada no Ocidente pelos collegia fabrorum latinos com a denominação de quatro Horizontes, duas Vias e três Recintos (7).

Clemente de Alexandria proporá a seguinte leitura para a citada fórmula: "De Deus, Coração do Universo, partem as extensões indefinidas que se dirigem, uma para cima, outra para baixo, uma para a frente e outra para trás. Voltando o seu olhar para cada uma dessas seis direcções cria o mundo. Em Deus se contêm as seis fases do tempo e é dele que elas recebem a sua extensão indefinida. Nisso reside o segredo do número sete".

 

Como cada um de tais enunciados cosmogónicos emerge de um âmbito semântico específico, convém elucidar o respectivo alcance, aplicando-o ao objecto em análise:

 

Quatro Horizontes

A sua figura canónica é a cruz, a qual representa, entre outras coisas, os pontos cardeais ou quatro domicílios do Sol no decurso dos seus ciclos quotidiano (dialéctica Dia-Noite ou Luz-Trevas) e anual (quatro Estações e por extensão os doze signos zodiacais). Exprime-se simbolicamente por intermédio da dinâmica circular que insere o factor Tempo (Cardo maximus, braço Norte-Sul ou dos Solstícios: Inverno = Capricórnio e Verão = Caranguejo) no factor Espaço (Decumanus maximus, braço nascente-poente ou dos equinócios: Primavera = Carneiro e Outono = Balança).

 

Duas Vias

O Cardo maximus  resume-as: segundo Porfírio "O Câncer [Sul] é favorável à descida e o Capricórnio [Norte] à subida" (8). Conduzem às portas solsticiais, sendo representadas por Janus, porteiro celeste, o deus bifronte ou Senhor das duas Vias (Y pitagórico = dois Caminhos), detentor (como São Pedro) das chaves dourada e prateada dos Grandes e dos Pequenos Mistérios, da Porta dos Deuses ou Empíreo (Janua Coeli = Capricórnio / domicílio de Saturno / Inverno) e da Porta dos Homens ou Hades (Janua Inferni = Caranguejo / domícilio da Lua / Verão) (9). São apenas dois os acessos à Biblioteca e acham-se exactamente nas extremidades do eixo Norte-Sul da cruz.

 

Três Recintos

A mundividência suposta nesta tripartição assenta, segundo Georges Dumezil, em três energias ou ordens que garantem o curso do mundo, a saber: a soberania, regida pelo céu e representada pelo templo (oratores ou curatores, o clero, no braço Norte da cruz); a fecundidade que radica no mundo subterrâneo e se materializa no celeiro (laboratores ou povo, no braço nascente-poente); a força que age no mundo terrestre e tem sede no paço (bellatores ou nobreza, no braço Sul da cruz). Nesta trifuncionalidade a que Platão se reporta quando descreve a Alma do Mundo (mistura de três substâncias, uma indivisível outra divisível, ligadas por um misto), se baseia a organização social convencional no antigo Regime, conforme a tese de Georges Duby sobre o imaginário do feudalismo.

 

Sob esta óptica torna-se evidente o significado do Sol colocado no centro virtual do cruzeiro da Biblioteca, em oposição nítida ao desenhado no empedrado que dá acesso à Basílica. Enquanto este se apresenta no nádir, i. e., no extremo ocidente, direcção do mundo inferior ou sensível, aquele ocupa o pólo, omphalos, zénite ou cume no extremo-oriente, simbolizando, portanto, o mundo espiritual ou inteligível, a Luz do Norte, o Sol da meia-noite, o Dia que desponta em plena Noite e que converte em dia essa noite (et nox illuminatio mea in deliciis meis) (10).

Por extensão, ambos simbolizam, concomitantemente, o Soberano Absoluto (Dom João V), como encarnação entronizada do Astro-Rei, com a missão de tornar lúcida a terra e reconduzir os elementos caóticos à harmonia cósmica: no empedrado de acesso à Basílica sob a forma de Pai da Pátria e Sacra Majestade (Invicta, Pia e Justa), em torno de quem se mostra o mundo todo a seus pés; no cruzeiro da Biblioteca como Sempre Augusto, recapitulando a História à Luz da Eternidade.

Pertinente é também a circunstância de, cerca de meados de setecentos, nos acharmos em Portugal perante representações heliocêntricas do universo, não consentâneas com a doutrina oficial da igreja, a qual só em 1820 as adoptaria em alternativa ao até então ortodoxo geocentrismo (11).

E é uma  vez chegados a este ponto, que a mnemotecnia revela o papel superlativo que desempenha como retórica geometrizante do espaço da BPNMafra.

Não é, decerto, esta a ocasião para expor detalhadamente as diferentes acepções assumidas pelo exercício da mnemotecnia desde os seus alvores. Não posso, no entanto, deixar de anotar algumas das facetas fundamentais desta Arte apadrinhada por Mnemosis, mãe das nove Musas, também conhecida por Memória de ferro, Arte da Memória e Memória artificial (por oposição à memória congénita ou natural, cujo adestramento visava).

Foi Simónides de Ceos (556-468 a. C.) o primeiro a formulá-la sob a forma de um sistema de tópicos. Todavia, tal sistema só se tornaria relevante graças a um trágico acidente ocorrido durante um banquete para o qual fora convidado por Escopas, rei da Tessália. Simónides participava na festa quando um mensageiro chegou com um recado para si, o que o fez sair da sala para o receber. Pouco depois o tecto desta caía sobre o anfitrião e os convivas, ficando os cadáveres de tal modo desfigurados que se tornou impossível reconhecê-los. Solicitado a colaborar no processo de identificação, Simónides reconstituiu o cenário até ao momento do acidente, assinalando o lugar preciso ocupado à mesa por cada convidado e demonstrando a excelência do seu método, que advogava ser mais fácil recordar objectos, situações e eventos quando é possível reportá-los a lugares conhecidos.

O método proposto por Simónides grangeou legião de adeptos e continuadores, alguns dos quais lhe introduziram alterações e aperfeiçoamentos. O sofista Hipias parece encabeçar a lista, que regista o nome de Metrodoro da Ásia, amigo de Epicuro, como introdutor de 360 lugares inspirados nos 12 signos do zodíaco, em substituição das imagens dos edifícios e compartimentos de Simónides.

Em Roma, onde a retórica (constituída por cinco partes: inventio, dispositio, elocutio, memoria e pronuntiatio) gozou de enorme prestígio,  Cícero (De oratore [BPNMafra: R-19-2-2]), o anónimo autor da principal fonte tradicional da mnemotecnia, intitulada Ad C. Herennium [BPNMafra: 2-20-7-8 e 2-20-7-10], e Quintiliano (Institutio oratoria [BPNMafra: 1-13-7-6; 2-20-8-1 e 2, etc.]) deram-lhe enorme impulso, sendo ulteriormente considerados os decanos da Arte da Memória.

Na prática, a técnica mnemónica que propuseram associa dois métodos, o dos lugares e o das imagens ou pinturas (Constat igitur artificiosa memoria ex locis et imaginibus). O primeiro consiste em instituir uma topologia concreta, destinada a armazenar argumentos, sentenças, hieróglifos, emblemas, etc., ao passo que o segundo propõe a eleição de um elenco de imagens (res picta) a cada uma das quais possa ser associada uma ideia ou palavra (12).

Até ao séc. XIII, salvo uma breve referência de Martianus Capella (410-439), no De nuptis Philologiae et Mercurii, nada consta sobre a utilização de regras mnemónicas. Nessa centúria, Rogério Bacon (1214-1294) redige a Arte memorativa e Raimundo Lúlio (1235-1346) a sua Ars Generalis [BPNMafra: 2-19-4-5 e 6]. Cerca dos finais de quatrocentos, Pedro de Ravena causa sensação em Itália com as suas proezas mnemónicas tidas por nigromânticas por alguns. A Phoenix Artis Memoriae (Veneza, 1491) deste mnemotécnico teve diversas edições num período de poucos anos, merecendo ainda destaque a Oratoriae artis epitome (Veneza, 1482) de J. Publicius, a Epitoma in Utramque Ciceronis Rhetoricam cum Arte Memorativa Nova (1492) de Conrado Celtes ou o Congestorium Artificiose Memorie (1520) de Juan Romberch, não esquecendo, todavia, Pedro Ciruelo (De Arte Memorandi), frei Bartolomeo de S. Concórdio (Trattato della Memoria artificiale), Guillermo Grataroli Bergomatis (De Memoria Libellus), Lodovico Dolci (Dialogo di Memoria), Cosme Ronello (Thesaurus Artificiosae Memoriae), etc.

 

Leporeo

A retórica clássica concebe o orador como construtor de um espaço mental próprio, no qual armazena, por ordem e consoante uma determinada disposição, uma série de figuras que contêm as palavras, os conceitos, bem como a estrutura do discurso.

 

Com efeito, seria simplesmente fastidioso prosseguir na enumeração dos propagandistas da Arte da Memória até à actualidade, ainda que apenas reportando-me aos mais notáveis (13).

Reservo, portanto, o destaque para os portugueses, de entre os quais saliento, meramente a título exemplificativo, os nomes de: um tal Adrião, Mestre da “Arte de Reymonde” (14),  frei Isidoro de Ourém (15), Álvaro Francisco de Vera (16),  frei Francisco de Santo Agostinho Macedo (17), padre Cristóvão Bruno (18), frei Manuel do Cenáculo Vilas Boas (19), António Pereira Ferrea Aragão (20), J. F. e A. M. de Castilho (21), António Feliciano de Castilho (22) e Martins Oliveira (23).

Mas adivinho no meu leitor a impaciência própria de quem espera uma explanação cabal, tal como a adiantada para caracterizar a vertente cosmológica, acerca do modo como a mnemotecnia influiu na disposição e organização da BPNMafra.

Um princípio de resposta pode ser entrevista na exposição atribuída ao próprio Simónides sobre o método de aplicação da sua combinatória:

 

 “[...] deveis figurar na vossa mente a imagem de um edifício de três corpos divididos cada um deles em aposentos, e cada compartimento há-de estar designado por uma letra, uma palavra ou o nome de um animal que sirva de ponto de referência para pensar no respectivo compartimento. Em cada compartimento imaginemos cinquenta lugares numerados, distribuídos como segue: Nove números ocuparão cada uma das quatro paredes e o pavimento, ou seja um total de 45. O número 50 colocar-se-á no centro do tecto. Na parede fronteira à porta de entrada estarão os números de 1 a 9; na parede direita, os de 11 a 19; na da esquerda, de 21 a 29; na outra, de 31 a 39; e no pavimento de 41 a 49. Os números 10, 20, 30 e 40 colocar-se-ão no tecto, precisamente em cima das respectivas paredes dos números dez, vinte, trinta e quarenta. Se for preciso aumenta-se o número de compartimentos mobilando-os imaginativamente a tal ponto que, como têm feito alguns dos meus discípulos, podeis figurar mentalmente bairros inteiros de edifícios imaginários com os seus diversos aposentos. Uma vez que tenhais construído este arquivo mnemotécnico podereis utilizá-lo para visionar milhares de objectos, vocábulos ou ideias que queirais recordar, para o que bastará imaginá-los situados em um dos números do aposento, como o lugar que ocupa um comensal a uma mesa ou um colegial no dormitório. Quando chegardes a estar senhores deste sistema sereis capazes de recordar milhares de nomes de coisas sem relação entre si, pois esta incongruência é suprida pela associação do objecto com o lugar que ocupa no compartimento imaginário”.

 

Partindo do pressuposto indiscutível que o organizador da BPNMafra,  frei João de Santa Ana, dominava as regras da Arte da Memória, mesmo assim não creio ser possível saber-se com rigor se o sistema de Simónides lhe era familiar, nem tão pouco quais os mnemotécnicos que terá elegido. As fontes disponíveis na BPNMafra constituem uma substancial colecção dos melhores autores sobre a matéria em apreço (24), mas não está, igualmente posta de parte a possibilidade de ter sido compulsada bibliografia inexistente no acervo mafrense ou, quiçá, havido colaboração de mnemotécnicos religiosos ou leigos activos em Portugal na época. Ocorre-me como possível inspirador do bibliotecário arrábido o nome do bispo de Évora, frei Manuel do Cenáculo Vilas Boas, cuja actividade como organizador da biblioteca do Convento de Jesus, segundo cânones idênticos, lhe não era decerto estranha (25), tal como as suas preocupações relativamente ao sistema da ciência (como diria Fichte) concebido por Raimundo Lúlio (26).

Que a Arte luliana tinha cultores também em Mafra é um dado adquirido, rastreável nas Conclusões de Filosofia dos Reais Estudos de Mafra (27). Resta extrair as ilações adequadas dessa circunstância.

 

Antes, porém, é conveniente sublinhar que a Arte luliana  é algo mais que um mero artifício dialéctico, ultrapassando em muito qualquer estrita metodologia do pensamento. Trata-se, na verdade, de um conjunto de estruturas sistémicas e escalonadas dirigido para o conhecimento, encurtando o percurso e facilitando o exercício intelectual. Suposta uma recta intenção, a Arte luliana exige aprendizagem e treino simultâneos, com o intuito de atribuir a cada conceito o lugar e a figura que lhe convêm. Para alcançar esse desiderato o praticante dispõe de uma tábua de 84 combinações ternárias, cada uma delas cabeça de 20 câmaras, num total de 1680 câmaras (84 x 20), curiosamente, apenas mais quatro que o número total de casas (536 + 1140 = 1676) da BPNMafra!

 

1. Tábua das 84 combinações ternárias da gramática mnemotécnica de Raimundo Lúlio. Cada uma delas é a cabeça de 20 câmaras, perfazendo um total de 1680 câmaras (84 x 20).

2. As 20 câmaras da primeira coluna da Tábua.

 

No que concerne à arrumação das matérias, confrontem-se as duas plantas anexas e suas respectivas legendas para se constatar o jogo das polaridades e a harmonia dos contrários no seio da organicidade geral.

Eis-nos, pois, face à BPNMafra, na presença de um espectacular exemplo do tão propalado visualismo barroco, dirigido à formação da memória e à persuasão por meio do pathos.

 

NOTAS

 

(1) Por ocasião da publicação do Decreto-Lei, n. 28107, de 23 de Outubro de 1937, que mandou abrir a BPNMafra à leitura pública, Júlio Dantas afirmaria que “constitui uma importante biblioteca de conservação, de tipo erudito e de sistematização setecentista”, importando “restituí-la à plenitude da sua função, como instrumento de cultura; abri-la à leitura dos estudiosos; e realizar, em harmonia com as aquisições da moderna ciência biblioteconómica, mas sem prejuízo do carácter especial e do interesse histórico desta antiga biblioteca portuguesa, todas as operações de conservação, de organização e de utilização destinadas a assegurar o exercício da função que lhe é própria”. Cf. Anais das Bibliotecas e Arquivos, v. 12, n. 49-50 (Jul.-Dez. 1937), p. 161.

(2) Os cerca de 34800 livros que a compõem, se dispostos linearmente em fila ininterrupta, alcançariam 1350 metros, i. e., dariam volta e meia ao Monumento.

(3) Cf. A Casa da Livraria do Palácio Convento de Mafra, in Boletim Cultural ’92, Mafra, 1993, p. 17-21.

(4) Ver Catálogo da Real Livraria de Mafra, prefácio, in v. 1.

(5) Na língua portuguesa as palavras nortear e orientar fazem jus à importância transcendente do Norte e do oriente, não existindo palavras correlatas para o Sul e o ocidente. A ideia é igualmente consagrada nas rosas de marear patentes na cartografia nacional. Cf. informação complementar em Lima de Freitas, Orientações: notas para uma hermenêutica das direcções do Espaço, in A Simbólica do Espaço: cidades, ilhas, jardins, Lisboa, 1991, p. 249-265.

(6) Ver do subscritor, A Ideia do Monumento de Mafra: Arquitectura e Hermetismo, in Bol. Cultural ’94, Mafra, 1995, p. 11-78.

(7) Para a aplicação dos mesmos preceitos à Baixa pombalina, ver Manuel J. Gandra, A Praça do Real Arco demonstrada, in Monumentos, n. 1 (Set. 1994), p. 35-40. Para o caso de Tomar consulte-se o Projecto de Salvaguarda do Centro Histórico daquela Cidade, sucintamente exposto no ensaio Anotações para a devolução do compasso aos Olhos, in Da Vida, da Morte e do Além: aspectos do Sagrado na região de Mafra, Mafra, 1996, p. 30-31 e em Portugal Misterioso, Lisboa, 1998, p. 337-343.

(8) Segundo um axioma consagrado por Homero, no episódio da gruta de Ítaca incluso na Odisseia, as almas "descem" pela porta Sul ou dos Homens (Caranguejo) e "sobem" pela porta Norte ou dos Deuses (Capricórnio) do Zodíaco. No cristianismo, o simbolismo da escada de Jacob encerra a mesma ideia, tendo inspirado patriarcas e doutores. Cf. São Jerónimo, In Ecclesiastem, in Patrologia Latina, v. 23, col. 1049. O tema ocorre igualmente na Regra de São Bento, quiçá inspirado na representação dos dez graus de humildade descritos por Cassiano (De Coenobiorum Institutio, IV, 34), e no De Gradibus Humilitatis et Superbiae de São Bernardo.

(9) Janus é também conhecido por Mestre do triplo tempo, sendo por vezes representado com três rostos, na ordem do passado, do eterno presente e do futuro. Outro dos seus atributos é a barca, também distintivo de São Pedro.

(10) Trata-se de uma distinção fundamental na gnose valentiniana. Dirigir-se para Oriente é, no sistema deste gnóstico, sinónimo de subida para o pólo. A expressão cognitio matutina (ou oriental), que ocorre em Santo Agostinho e foi igualmente adoptada pelo hermetismo do Renascimento, opõe-se, pela mesma ordem de razões, à cognitio vespertina (ou ocidental), típica do homem exterior e sensível.

(11) A adopção da elipse pela arquitectura é ainda consequência das teses copernicianas. Ver Casa do Capítulo, vulgo Sala Elíptica, do Convento de Mafra.

(12) Esquemas mnemotécnicos têm sido detectados e estudados em igrejas e conventos, em palácios, na arte efémera (festas, entradas régias, exéquias, canonizações, etc.), na literatura emblemática (pegmas, empresas, alegorias, enigmas, cânones musicais e diagramas místicos), no teatro (teatros da Memória), na oratória e até na actividade evangelizadora e missionária, designadamente na dos jesuítas, etc. Cf. Fernando R. de la Flor, La imagen leída: retórica, Arte de la Memoria y sistema de representacion, in Lecturas de Historia del Arte, v. 2, Vitoria-Gastriz, 1990, p. 102-115.

(13) Para uma mais extensiva informação, apesar da omissão de quaisquer referências à mnemotecnia na Península Ibérica, ver Frances A. Yates, The Art of Memory, Londres, 1978.

(14) Testemunha de um emprazamento, datado de 1431 [ANTT: Col. Especial, caixa 142], feito pelo agostinho frei Afonso de Lisboa, no convento lisboeta da sua Ordem, de umas casas sitas na freguesia de Santo Estêvão que pertenciam a Álvaro Vasques e sua mulher, Maria Esteves. Cf. Sousa Viterbo, Dicionário de Arquitectos, v. 3, Lisboa, 1922, n. 1035, p. 156-157.

(15) Cf. Ars demonstrativa et inventiva Raymundi Lulli, citada por Barbosa Machado, Bibliotheca Lusitana, v. 2, p. 843-844. De outro religioso bernardo anónimo, cf. Compendium Artis demonstrativae [BN: cod. alc. 203].

(16) Cf. Memória artificial ou modo para adquirir memoria por arte, in Orthografia ou modo para escrever certo na língua Portuguesa, Lisboa, 1631, fl. 57-76.

(17) Padre Ilídio de Sousa Ribeiro, Fr. Francisco de Santo Agostinho de Macedo: um filósofo escotista português e um paladino da Restauração, Coimbra, 1952.

(18) Jesuíta, professor da Aula da Esfera do Colégio de Santo Antão (1627-1630). As suas lições incluíam a Arte de Navegar, a Nova Astronomia e uma breve exposição sobre a Arte da Memória [BGUC: ms. 44; BPÉv: ms. CXVI / 1-17].

(19) Francisco da Gama Caeiro, Frei Manuel do Cenáculo: aspectos da sua actuação filosófica, Lisboa, 1959, p. 25-28, 32-24, 129-133, 221-227, 229-231, etc. Ver do próprio Cenáculo: Advertencias criticas e apologéticas sobre o juizo que nas materias do B. Raymundo Lullo formou o dr. Apollonio Philo-muso, e communicou ao publico em a resposta ao Retrato de “morte-côr”, que contra o auctor do “Verdadeiro Methodo d’estudar” escreveu o reverendo D. Alethophilo Candido de Lacerda, Valença, 1752 e Coimbra, António Simões, 1752 (anónima). Em cartas de 1754 e 1755, o cisterciense espanhol frei António Raimundo Pascoal, professor na Universidade luliana de Maiorca, refere o propósito de Cenáculo de introduzir a Filosofia de Lúlio em Portugal e a repugnância dos dominicanos em aceitar a doutrina do Doctor Illuminatus acerca da Imaculada Conceição. Cf. BPÉv: ms. CXXVII /1-3, p. 15-16 e padre Manuel Gonçalves da Costa, Inéditos de Filosofia da Biblioteca de Évora, in A Cidade de Évora, n. 23-24 (Jan.-Jun. 1951), p. 34-37.

(20) Nascido em 1801, faleceu no ano de 1857. Foi Doutor em Matemática pela Universidade de Paris, professor de Humanidades e escrivão do Tribunal da Relação de Lisboa. Autor de extensa produção literária, de que se destaca o drama original A Rainha Santa Isabel e D. Diniz (Lisboa, 1854) e, designadamente, o Diccionario Mnemothecnico, e hum breve resumo das regras mais importantes da arte de ajudar a memória (Lisboa, 1850) e a Arte Latina Mnemothecnica para aprender a declinar e conjugar rapidamente, e a traduzir com facilidade (Lisboa, 1852), obras nas quais, segundo Inocêncio, alargou os limites da mnemotécnica, "introduzindo e desenvolvendo fórmulas de sua composição e combinações fecundas e vantajosas".

(21) Cf. M. de Castilho, Recueil de Souvenirs du Cours de Mnémotechnie, Saint-Malo, 1831; J. F. de Castilho, Traité de Mnémotechnie ou Exposition des principes de cet Art et de ses principales applications, Paris, 1832 ; A. M. de Castilho / J. F. de Castilho, Dictionnaire Mnémonique, Lyon, 1834 (5ª ed.).

(22) Tratado de Mnemónica ou Methodo facilimo para decorar muito em pouco tempo, Lisboa, 1851 e  1909-1910 (3 vols.).

(23) Cf. Magia Teatral, Porto, 1948 (2 vols.).

(24) A Filosofia Hermética em Portugal e no acervo da Biblioteca do Palácio Nacional de Mafra, in Bol. Cultural ’93, Mafra, 1994, p. 58-59.

(25) Planeada em 1768 por frei Manuel do Cenáculo, em colaboração com o arquitecto Joaquim de Oliveira. Iniciada a 12 de Fevereiro de 1771 e concluída em 1800. Também a Biblioteca dos Paulistas, em Lisboa, se presume posterior a 1763, porquanto Baptista de Castro (Mapa de Portugal) referindo-se nesse ano às obras em curso no convento, não a menciona. Cf. Carlos Azevedo, Some portuguese Libraries, in The Connoisseur Year Book (1956), p. 31-39.

(26) Frei Manuel do Cenáculo é, consabidamente, tido pelo reintrodutor do lulismo em Portugal. Ver nota 35. Para o arrolamento da obra luliana sobre a Arte da Memória no acervo da BPNMafra, ver Manuel J. Gandra, O Monumento de Mafra de A a Z, v. 1, Mafra, 2002, p. 219.

(27) Os Reais Estudos de Mafra foram criados Dom João V, tendo sido inaugurados com toda a solenidade, a 14 de Fevereiro de 1737, na presença do fundador. Para uma primeira abordagem da questão em apreço, ver do subscritor: Bibliografia Mafrense: impressos até 1800, in Boletim Cultural ’98, Mafra, 1999, p. 800-807.