Cortesãs


 

Anedotas cortesãs

 

No Convento de Mafra, existem nos terraços superiores, dois respiradouros de canos, vulgarmente conhecidos pelo nome de pombais pelo facto de neles aninharem nos seus buracos interiores numerosos bandos de pombos bravos. Noutros tempos, quando El-Rei D. Carlos vinha a Mafra para caçar na Tapada, algumas vezes subia aos terraços para também abater os voláteis ali existentes [...]. Numa ocasião em que Sua Magestade visitava a Basílica na companhia dos seus leais amigos D. Tomás de Melo Breyner e Carlos Mardel [...] El-Rei parou a contemplar na primeira capela à entrada da Basílica, à esquerda, a estátua do papa S. Gregório. A estátua tem, como os leitores certamente sabem, uma pomba de bronze simbolizando o Espírito Santo a inspirá-lo. Mardel que o observava, e devido à intimidade que tinha com o seu régio amigo, ousa interrompê-lo na sua muda contemplação da Imagem:

- Sabe Vossa Majestade o que está dizendo o Espírito Santo ao ouvido de S. Gregório?

Surpreende-se D. Carlos com a inesperada pergunta do seu amigo, mas responde-lhe:

- Decerto a inspirá-lo.

Resposta do gracioso Mardel:

- Engano, meu Real Senhor. Está a dizer-lhe que peça a Deus que Vossa Majestade não se lembre esta tarde de subir aos terraços para matar-lhe os companheiros.

(In O Concelho de Mafra, Abr. 1956)

 

*

Apesar do seu aspecto sorumbático, D. Afonso gostava imenso de pregar partidas. Assim, por exemplo, um dia convidou várias meninas solteiras das suas aristocráticas relações para assistirem a uma caçada na Tapada de Mafra.

A caçada não era senão um pretexto para um dia bem passado. As respectivas famílias, os papás e as mamãs, iam ter depois ao Salabredo, sítio onde era servido o lunche.

 

A gente moça tomava o lugar no grande carro de caça do Infante, que empunhava as rédeas. A determinada altura do acidentado percurso, Sua Alteza enterrou propositadamente o carro num enorme lamaçal, declarando às damas, fingindo-se muito arreliado, que era necessário todas apearem-se para ele se desenrascar. A falar, Sua Alteza era, por assim dizer, de uma delicadeza bruta! Como as damas não quisessem enlamear os sapatinhos e enxovalhar os vestidos, decidiram-se a transpor, galhofando, o tremendo lamaçal, ora ao colo dos caçadores, ora do criado Ponta da Unha.

Sua Alteza, é claro, dando execução ao seu endiabrado plano, ofereceu logo os seus braços robustos a uma roliça e linda rapariga...

Escusado é dizer que todas elas gostaram imenso de serem levadas ao colo pelo Senhor Infante. Ele, porém, só carregou com aquela que previamente escolhera...

Não façam cerimónia...A trepem!

 

Que força prodigiosa a do Senhor Infante - exclamavam contentíssimas com a estranha aventura as tímidas gazelas; que delicioso frete segredavam os mirones...

(In O Jovem, 1 Mar. 1965)

 

*

O rei D. Luís costumava convidar para caças na Tapada de Mafra, grandes personagens vindas de Lisboa: embaixadores, ministros plenipotenciários, etc.. De uma vez convidou um embaixador brasileiro para uma caçada aos coelhos.

Ao começar a caçada disse ao almoxarife José da Costa Jorge, pessoa que El-Rei muito estimava, que acompanhasse o Senhor Embaixador, levando a espingarda para a carregar e indicar a caça que fosse aparecendo. Começada a batida não tardou o aparecimento de um coelho. José da Costa avisa e Embaixador.

- Sr. Embaixador aí vai um coelho.

O Embaixador puxa a luneta que trazia no bolso, pede a espingarda para apontar ao coelho.

José da Costa, observa:

- Sr. Embaixador - o coelho fugiu.

- Foi o que lhe valeu, responde o Embaixador.

E assim continuou sem lograr matar um coelho.

(In O Concelho de Mafra, 17 Nov. 1946)