Cirilo Volkmar Machado - A obra de Cirilo Volkmar Machado no Palácio Nacional de Mafra, apresentada pelo próprio


 

Não obstante, pintor, teórico das Artes e memorialista, a fama de Cirilo Volkmar Machado (1748-1823) advém-lhe do facto de ter sido o primeiro historiador da Arte português (1).

A sua actividade em Mafra, pela primeira vez ora globalmente revisitada através dos apontamentos e notas que legou, prendeu-se com a longa permanência da corte de D. João VI no Palácio desta vila e com a necessidade de amenizar o ambiente austero dele com uma decoração condigna, que enquadrasse convenientemente o mobiliário sumptuoso, os adamascados e as tapeçarias.

Foi desiderato do subscritor coligir, tanto quanto possível exaustivamente, as informações e referências ao programa decorativo idealizado pelo próprio Cirilo, de forma a tornar manifestos: 1. as efectivas intenções do autor, o simbolismo e as circunstâncias da concretização da empreitada, bem como outros aspectos com ela relacionados; 2. as mais significativas opiniões alheias, favoráveis ou dissonantes, que suscitou; 3. os principais erros e desvios que a ignorância da documentação reunida tem vindo a originar.

Para o efeito, optou pelo critério de concatenar topicamente os trechos pertinentes dos seguintes escritos de Cirilo:

- As honras da Pintura, Escultura, e Arquitectura: discurso de João Pedro Bellori, recitado na Academia Romana de S. Lucas, na segunda Dominga de Novembro de 1677, dia em que se distribuirão os prémios aos Estudantes das três Artes, cujas obras forão coroadas; sendo Principe da mesma Academia Mr. Le Brun. Traduzido do Italiano em Português, e ilustrado com anotações, por um dos pintores de S. A. R. o Principe Regente Nosso Senhor, Lisboa, 1815 (doravante As Honras) (2);

- Collecção de Memórias, relativas ás vidas dos Pintores, e Escultores, Architectos e Gravadores Portuguezes, e dos Estrangeiros que estiverão em Portugal [...], Lisboa, 1823 (sirvo-me da edição de J. M. Teixeira de Carvalho e Virgílio Correia, Coimbra, 1922, doravante Memórias) (3);

- Descrição das Pinturas do Real Palácio de Mafra (edição de J. M. Cordeiro de Sousa), in Revista de Arqueologia, t. 3 (1936-38), p. 105-112, 134-139, 177-186 e 207-211 (doravante Descrição).

 

 

(1) Para o estudo das suas multifacetadas personalidade e obra, ver, além da que adiante se anota, a seguinte bibliografia:  Xavier da Cunha, O Concílio dos Deuses por Luís de Camões, pintado por Cyrillo Volkmar, Lisboa, 1903; Paulo Varela Gomes, A Cultura Arquitectónica e Artística em Portugal no século XVIII, Lisboa, 1988 e A Confissão de Cyrillo: estudos de História da Arte e da Arquitectura, Lisboa, 1992, p. 13-37.

(2) De João Pedro Bellori existem na Biblioteca de Mafra cerca de uma dezena de títulos, embora não a tradução de Cirilo, à qual ele acrescentou o Aditamento de tão grande utilidade para o conhecimento da sua intervenção no Palácio Nacional.

(3) Na Biblioteca do Congresso, em Washington, guarda-se um volume [P - 133-34] contendo as Memorias comunicadas ao Pintor Cirilo Volkemar Machado pelo Argtº Honorado Jose Correa em 1820 para juntar a sua obra artistica, escriptos por L[uís] G[onzaga] P[ereira], seo Discipulo e Admirador, manuscrito no qual Cirilo bebeu algumas das notícias que avança nesta sua obra.

 

 

[Legenda retrato de Cirilo]

 

Cirilo Volkmar Machado

Retrato panegírico, aberto, em 1823, por Gregório Francisco de Queirós (a partir de pintura de M. Servam, de 1791), que acompanha a 1ª edição das Memórias. Em legenda: "Eis o Eximio Pintor, Douto Cirilo; / tão grande na Lição como no Estilo".

 

 

 

O Real Palácio de Mafra, pela augusta pessoa a quem pertence, pela sua vastidão, riqueza de materiais, magnificência e primor da arquitectura é um dos mais famosos da Europa e, por consequência, do mundo todo.

Ele não cede ao Escorial, ao Vaticano, ao Luxemburgo, ao Louvre e a outros da maior nomeada. A sua decoração interior deve, pois, corresponder à soberba do seu exterior. E se para o ornarem como ele merece não existem os Rafaéis, os Rubens e os outros artistas célebres que enriqueceram os outros com os seus doutíssimos pincéis ao menos, deve-se cometer esta empresa dificultosa ao mais ou a um dos mais hábeis dos pintores que florescem no tempo presente.

Eu tive a temeridade não só de aceitar mas até de requerer esta comissão (1). O amor próprio me seduziu fazendo-me esperar que a mesma magnificência do edifício, a honra e o prazer de servir um soberano e um tão augusto e amável Soberano, seria capaz de elevar o meu coração até a[o] ponto de [...?] requerido para o desempenho, eu vejo por isso com bastante mágoa que ele me enganou e que nós temos um Pedro Alexandrino, um Domingos de Sequeira, um Francisco Vieira e outros, que são muito mais próprios para o desempenho desta grande empresa.

Seria para desejar que se praticasse com o Palácio de Mafra o que Júlio II praticou com as [sic] do Vaticano [Descrição, p. 105].

[...] tive uma recompensa, e por grande mercê uma pensão de 720$000 réis a título de Pintor de S.A.R., pagos pela folha de Mafra (2); obtive também a licença que pedi para ali fazer algumas pinturas; por cujo motivo se me deu um quarto no Palácio, um servente, e um ajudante, etc. Transportado àquela real Vila em Maio de 1796 fui pintando alguns tectos [...] [Memórias, p. 248].

[...] Concedido por Sua Majestade, tive por meu ajudante nas Obras Reais de Mafra e Ajuda, Bernardo António de Oliveira Góis, filho de Manuel António Góis, natural do lugar da Lobagueira [actual Encarnação], Freguesia de S. Domingos da Fanga da Fé, termo da Vila de Torres Vedras. Seu pai também foi pintor de figura empregado pelo Marquês de Pombal na fábrica dos azulejos, da qual se retirou para as Províncias por desgosto de intrigas. Pintou em Torres Vedras, na casa do Despacho da Irmandade dos Clérigos Pobres na Igreja de S. Pedro, os 4 Evangelistas na Vila da Ericeira, e em Mortágua existem obras suas. Porém, depois que casou deu-se ao trabalho de cuidar nas suas fazendas, e em uma dizimaria que alcançou, por cujas ocupações se deixou totalmente da Arte (3). Era natural de Lisboa, baptizado na freguesia do Socorro. Morreu em 1789, de idade de 54 anos. Jaz na sobredita Igreja de S. Domingos da Fanga da Fé. Deixou 10 filhos vivos, o meu ajudante Bernardo António foi o mais novo; e quando seu pai lhe faltou andava ele nos estudos do Latim; mas não podendo por morte de seu pai continuar aqueles estudos, veio para a Casa Pia, onde se aplicou ao desenho da figura na Aula de António Fernandes, em que deu mostras do génio natural para a pintura; porém moléstia do peito o fez abandonar aquele estudo, saindo no cabo de 9, ou 10 meses para fora da Casa Pia para ir tomar os ares pátrios, e não tornando para a dita, se conservou 3 anos no Linhó, ao pé de Sintra, e ali teve lições de um Joaquim José da Roxa, pintor de ornatos e escaiolas, e retirando-se para a Vila da Ericeira aí pintou muitas casas a fresco (4), e uma Capela de Nossa Senhora do Carmo, onde o vieram convidar para a Vila de Torres Vedras, na qual também fez várias Obras, e uma delas foi um painel do senhor com a Cruz às Costas, para os Paços da Paixão daquela vila, painel que estava fazendo quando eu, em 1796, fui para Mafra; do que ele tendo a notícia, e conhecendo o quanto precisava de saber e estudar numa Arte que apenas tinha principiado, veio-me falar a Mafra, e gostando eu do seu comportamento, gravidade e maneiras, o aconselhei que requeresse. Com efeito, o Superintendente Raposo, com consentimento de Sua Majestade, lhe concedeu o lugar de meu ajudante, que até ao fazer destas Memórias, em que muito me tem ajudado nas indagações, lhe tem sido conservado, com justiça ao seu trabalho e desempenho com que sempre tem servido [Idem, p. 256-257].

 

[Oratório Sul ou de Nossa Senhora do Livramento]

Já em 1796 havia S.A.R. incumbido a direcção e execução das pinturas no Palácio Real de Mafra ao editor deste livreto e ele começou pelo tecto do oratório da parte do Sul. Desde os anos 1710 até 1792 viu-se Portugal duas vezes consternado por falta de sucessão na Casa Real e duas vezes a viu felizmente continuar por intercessão, como piamente se crê, do Taumaturgo Lisbonense (5). A Igreja e Convento de Mafra é um autêntico e não vulgar testemunho do primeiro favor; assim como a pintura deste tecto poderá conservar a memória do segundo: S. João Baptista, S. Carlos, e Santo António, prostrados diante da SS. Trindade, intercedem pela sucessão do trono. As sua súplicas são deferidas e enquanto os demais rendem as graças pelo benefício, Santo António, principal intercessor, envia a desejada Prole aos Augustos Progenitores (6). O Anjo Custódio do Reino é o seu condutor [As Honras, p. 113-114].

 

[Sala dos Camaristas]

Na saleta imediata pintou a Fecundidade, sendo ela a maior vantagem que possa ter uma mulher casada, principalmente, quando serve para aumentar o número dos Príncipes ou dos Heróis. Os Romanos eternizaram a memória da fecundidade de Faustina, esculpindo-a numa medalha e erigiram um templo à fecundidade de Popéa. Rubens fez memorável a de Maria de Médicis no Palácio de Luxemburgo. Porém, esta felicidade nunca pareceu tão preciosa como em 1793, quando nasceu a Senhora Princesa D. Maria Teresa. E Portugal deu nessa ocasião as mais evidentes provas do seu contentamento, mas provas fugitivas, que em poucos anos se perdem da memória. A pintura deste tecto pode conservá-la muito tempo (7). No lugar superior aparece a Deusa da Fecundidade, tendo em cada mão uma insígnia de abundância, das quais vão saindo vários meninos. Alguns deles tecem, com grinaldas de flores, um vistoso ornamento às Quinas Portuguesas, enquanto outros as sustentam nos ombros. Está ela sentada sobre o Leão Espanhol que lhe faz muitos afagos. Aos seus lados, estão, de uma parte vários cupidinhos forjando as setas com farpões de ouro, ao pé do Tejo, e de outra parte Vulcano, Tritões e Nereidas, cujos coloridos participam muito das cores dos elementos em que vivem, ou a que presidem. Todas estas figuras representam os dois princípios essenciais da procriação: isto é, o quente e o húmido. A brevidade deste resumo não permite que se faça a descrição do resto (8) [Idem, p. 114-116].

 

[Oratório Norte ou de S. José]

Os nossos Príncipes, gratos ao benefício que recebem do Céu, donde dimana tudo quanto é bom, consagram seus filhos ao Senhor que lhos concedeu e elegem para Padrinho de um, o Santo Padre Pio VI. O Augusto Menino, nos braços do seu Anjo da Guarda, beija o Estandarte da santa Religião, pendente da cruz Pontifícia. Tal é a pintura do tecto no 2.º oratório da parte do Norte (9). Em qualquer tempo seria esta acção muito louvável, porém num século em que a grande nação dá ao Ateísmo o nome de Filosofia, preferindo Voltaire e João Jacques a S. Jerónimo e Santo Agostinho, é desempenhar e merecer de novo o Título glorioso de Príncipe Fidelíssimo, à Lei de Jesus Cristo [Idem, p. 116].

 

[Sala dos Heróis Portugueses ou das Descobertas]

No tecto da saleta logo ao pé se vê o princípio das nossas descobertas (10). E nenhuma acção, seja pelo valor, ciência e constância com que foi empreendida, seja pelas incalculáveis utilidades que dela resultou, era mais digna que esta de ficar memorável [Idem, p. 116-117].

Às viagens [...?] fomentadas pelo Infante D. Henrique deve o mundo todas as descobertas que depois fizeram tantas nações da Europa. Nenhuma acção, seja pela ciência e valor com que foi empreendida, seja pelas incalculáveis utilidades que dela resultou, merece mais a estimação e a admiração dos homens que esta.

O retrato do Infante D. Henrique aparece ali sustentado pela Fama.

A cosmografia sentada sobre o globo terrestre ajuda a segurá-lo com a mão direita e com a esquerda pega no compasso e com ele aponta para o mar da Índia que tanto se desejava descobrir. Um génio desta ciência levanta en[tre]tanto o véu que teve por tantos séculos encoberta aquela parte do mundo.

De outra parte, o gigante Adamastor, com terrível aspecto, ameaça Vasco da Gama que o descobriu em 1497. O Herói intrépido não deixa de conservar o seu valor apesar da desigualdade das forças, turbado um pouco está mas não medroso e mostra querer resistir e acometer.

A esperança de que aquele promontório tomou o nome o anima a prosseguir a empresa começada.

Todos sabem que Pedro Álvares Cabral, indo para a Índia, no ano [...?] foi lançado fora da sua rota pelas tempestades e descobriu casualmente o Brasil. Ele se vê neste painel como atónito e conduzido pelos ventos.  Alguns dos quais o levam nos braços, outros o impelem com a força dos seus sopros. Um deles põe a mão em cima do Globo e lhe faz ver a terra Santa Cruz, a 1.ª que foi por ele descoberta naquela parte do mundo.

Cristóvão Colombo não é Português (11) mas viveu entre nós, casou com uma Portuguesa, ofereceu aos Reis de Portugal os seus talentos e, se é verdade o que dizem muitos autores, achou entre os papéis do sogro que era piloto e nosso nacional as memórias de que se aproveitou para as ousadas descobertas de [sic] que tão felizmente soube fazer. Os seus émulos, o caluniaram de modo que o fizeram transportar à Espanha carregado de ferros. Ele aparece ali neste estado de abatimento. A Perfídia o conduz, um génio olha e aponta para as terras que ele deixa conhecidas, outro acaba de escrever numa tabela, os seguintes versos que servirão depois no seu epitáfio: A Castilla y a Leon / nu[e]vo mundo dió collon.

Aos lados do tecto há 4 pequenos painéis pintados sobre fundos brancos de estuque e que formam como uma parte dos arabescos que ornam o tecto.

No primeiro destes 4 lados [Leste] está Vasco da Gama diante do Samori[m].

Dizem os Historiadores que o Samorim estava sobre uma cama rica adornada de seda e de ouro, com aspecto vulnerável e majestoso, com vestido de algodão branco e lustroso semeado de rosas e folhagens de couro batido a martelo. Na cabeça, uma espécie de mitra fechada e guarnecida de pérolas. Cingiam os braços e pernas vários círculos de ouro guarnecidos de pedras preciosas.

Deste modo, está ele ali representado. Um Naire tem na mão um prato de ouro, onde estão as folhas de certa erva (verdeselhe) que por ser amiga do estomago, aqueles monarcas continuamente costumam mastigar. Junto à cama está o chefe dos Bramanes, que introduziu o Almirante.

Este que é o Herói do quadro está no lugar mais nobre dele, ainda que em assento raro, e tem o colorido mais brilhante para atrair a si a vista dos espectadores.

Uma pagem conduz o seu pavilhão onde se vê a insígnia da Ordem militar de Cristo, de que ele usou nesta expedição, e sustenta com a mão direita o escudo onde estão esculpidas as armas dos Gamas e sobre elas a letra grega (Gama). Letra que ainda que da história não conste que a usasse, podemos introduzi-la sem inverosimilhança.

Um Malabar, fâmulo de Zamori [sic] se entretém na contemplação destes objectos para ele totalmente novos e estranhos. Outro pagem tem nas mãos o gorro e o bastão do general; ao longe aparecem sobre o mar as embarcações em que o conduzem a terra. Tomis Pares, etc. etc.

No outro lado da parte direita [Sul] está Pedro Álvares Cabral fazendo arvorar a Santa Cruz nas terras do Brasil. Dois Religiosos Franciscanos se ocupam neste ministério enquanto ele a adora. Os Índios admiram este para eles novo espectáculo e alguns começam já a ser catequizados por outros religiosos e a persuadir-se de que a Seita de Cristo é a única que conduz os Homens à  Bem aventurança.

No lado, sobre as janelas [Oeste], está a descoberta da Ilha de S. Lourenço, feita por João Gonçalves Zarco e depois da Câmara onde dizem que Rui Pais achara o sepulcro de Ana Arfet e de Roberto Manchim [sic], fidalgo da Corte de Duarte III, rei de Inglaterra.

No último lado [Norte], vê-se o baptismo do Rei de Congo, acontecimento feliz que se deve às nossas descobertas.

Em 1489 partiram 3 embarcações de Lisboa, que comandava Rui de Sousa, levando a bordo entre muitos portugueses, o embaixador do Rei de Congo já bem instruído dos princípios da Religião. Os Portugueses foram bem recebidos pelo velho Manigong que era tio do Rei.

O qual recebeu o baptismo e o fez receber a seu filho na presença de 23 mil negros. O rei estava em Abasso Congo, 3 léguas pela terra dentro.  mudou logo todas as imagens profanas, catequizou-se e foi baptizado diante de 100 [mil] homens que estavam prestes a partir para a guerra.

O Rei está de joelhos no meio do painel inclinando a cabeça sobre a qual o sacerdote está vertendo a água baptismal. Rui de Sousa assiste como Padrinho a esta cerimónia. Um preto cortesão tem nas mãos a mitra do Rei, composta de folhas de palma tão lustrosa e bem tecida que parece de veludo. Dela pende a cauda de cavalo, a qual descendo pelas costas, é entre aqueles povos o mesmo que era o diadema entre os Gregos, quer dizer, o sinal distintivo da suprema autoridade. Este Rei tomou o nome de João. Sua mulher e um filho também se baptizaram depois e se chamaram, ela Leonor e ele Afonso. Os Soldados partiram logo para a guerra e conseguiram a vitória (12) [Descrição, p. 208-210].

 

[Telas da Sala das Descobertas]

Nos dois anos antecedentes foram admitidos, para se empregarem nas decorações do Palácio da Ajuda, Francisco Vieira Portuense, Arcângelo Foschini, Bartolomeu Calisto, Domingos António de Sequeira e José da Cunha Taborda, todos vindos de Roma onde estudaram como pensionados da corte. Achando-se porém desocupados, na ocasião em que S.A.R. mandava aprontar com pressa as paredes da casa das Descobertas, propus que se repartissem por todos os painéis. E sendo aprovada a proposição, Foschini pintou a chegada de Vasco da Gama a Calecut; Sequeira, a vitória dos Almeidas sobre Cutiale; Taborda, D. António da Silveira defendendo a praça de Diu; Cirilo, a construção da fortaleza de Cochim por Afonso de Albuquerque; e Vieira, Duarte Pacheco combatendo o Samorim no passo de Cambalam. Este pintor florescente, bom colorista, bom paisagista e bom compositor, já grande pelas obras que fazia e maior ainda pelas esperanças que nos dava, morreu de uma tísica na Ilha da Madeira, em 1805, antes de ter acabado o seu painel. O que se colocou depois no lugar dele foi feito por Domingos de Sequeira (13). Os mesmos Artistas ajudaram também a pintar os quadros da galeria, cujas paredes foram ornadas com uma ordem de painéis grandes em cima, e outra ordem de painéis pequenos em baixo, havendo entre uns e outros, almofadas de folhames, imitando os bronzes dourados (14) [As Honras, p. 126].

 

[Sala dos Reis ou dos Destinos]

A sala contígua contém a genealogia da casa Real. [...] (15) [As Honras, p. 118].

Sobre oito colunas da ordem Coríntea se eleva uma espécie de Domo que representa o templo do Destino. Esta divindade (que os Poetas consideravam como o árbitro soberano dos deuses e dos homens, e que se faz conhecer pela coroa de estrelas e pela urna onde estão depositadas as sortes dos mortais) mostra escrito no livro dos altos destinos que tem nas mãos, aos augustos Ascendentes da Casa de Bragança a glória a que os seus sucessores devem ser elevados sobre a terra, principalmente aquela que o Céu, há já tantos séculos, havia preparado, para bem da Nação Portuguesa ao Sr. D. João o IV, e mais ainda ao Amabilíssimo Príncipe, N. S.

À vista de tanta felicidade todos eles exultam de prazer. Hugo Capeto (16), extasiado, levanta os braços e os olhos ao Céu para lhe render as graças. O Conde D. Henrique (conhecido pela cruz que tem lavrada no escudo) e D. Afonso I, observam ainda o livro, e cheios de respeito adoram a Providência. De um outro lado, aparecem sobre nuvens os primeiros Reis de Portugal: à direita D. Sancho I, D. Afonso o gordo, e D. Sancho Capelo; à esquerda D. Afonso III, em cujo escudo vemos as quinas de Portugal sobre os Castelos do Algarve (porque este Monarca foi o primeiro que possuiu aquele Reino), segue-se D. Dinis, instituidor da Ordem de Cristo, cuja insígnia tem bordada no manto. Depois dele estão D. Afonso IV, D. Pedro o I e D. Duarte.

No grupo principal, ao pé de D. Afonso Henriques, também está em acto de admiração o Sr. D. João o I. Ele se distingue pela cruz de Avis bordada no manto e pela serpe que tem sobre o elmo porque a tomou por timbre em honra de S. Jorge a quem encomendou a protecção do Reino. Seu filho, o Sr. D. Afonso, Conde de Barcelos e 1.º Duque de Bragança, está logo abaixo, vestido à militar segundo o uso dos Romanos, e bem se distingue pelas armas da casa de Bragança que tem esculpidas no escudo. Ele se entretém com o Condestável, D. Nuno Álvares, seu sogro a respeito da futura glória e grandeza deste seu Augusto Neto. D. Nuno deve aqui entrar, porque sobre as suas terras que se estendiam quase à terça parte do reino, lançou os fundamentos desta grande casa a mais augusta e opulenta de toda a Espanha.

O Destino aponta para o alto do tecto, onde se vê[em], num disco luzente cingido pela imortalidade, as lizes e quinas, gloriosos brasões das Reais Famílias Francesa e Portuguesa. Acompanham este círculo luminoso, de uma parte, a Prudência, a Justiça, a Fortaleza e, da outra, o valor militar, as ciências e as belas artes.

Na luneta oposta a esta se vê a série dos Duques de Bragança: D. Fernando I, D. Fernando II, cuja parte superior do corpo está encoberta com o arco do Templo. D. Jaime é o mancebo que domina o grupo e os dois génios que estão sentados ao pé dele sustentam, um, o escudo com as armas reais, que se lhe concederam quando El Rei D. Manuel, querendo passar a Castela, o fez jurar herdeiro do Reino na falta de sucessão, o outro tem o banco de pinchar de ouro: este banco que significa a precedência que nas cortes têm acima de todos os Grandes, costuma ter três pés, mas como D. Jaime era Príncipe jurado, deve ter só dois. Os outros Duques são: D. Teodósio I, D. João I, D. Teodósio II.

Seguem-se os Monarcas começando em D. João II na ordem dos Duques, e 4.º na série dos Reis; este deve ir colocado entre as janelas, em um quadro histórico alegórico que servirá também para conservar a memória da sua feliz aclamação (17).

Na medalha que fica por cima, irá D. Afonso 6º. As estátuas que decoram o seu ornamento representam a Tristeza e a Infelicidade; na medalha sobre a porta da parte do Sul deve ir o Sr. D. Pedro II acompanhado da Justiça, e da Fortaleza corporal; Na que lhe fica fronteira irá o Sr. D. João o V tendo ao pé de si a Religião e Magnificência, e na que está oposta às janelas colocaremos o Sr. D. José, entre a Majestade e a Política (18); finalmente na parede grande a Sr.ª Rainha D. Maria I (19).

Até aqui, todo o colorido deve ser manejado com tanto artifício que pareça mas não seja muito brilhante pois que me proponho reservar os maiores realces para a Imagem de S.A.R. o Augusto Príncipe Regente D. João o VI, o Herói de toda esta máquina pinturesca e o digno objecto a que toda ela se refere. A virtude heróica representada no Hércules que está em cima é relativa a este painel (20).

Deve-se advertir que a esta obra ainda falta a vida que as pinturas recebem nos últimos toques que se lhes dão.

EXPLICAÇÃO SUCINTA

1 O velho que tem ao pé de si a urna que está coroada de estrelas e segura o livro é a Divindade que preside aos destinos.

2 O Monarca que está sentado nas nuvens, levantando os braços e os olhos ao céu é Hugo Capeto.

3-4 Os que estão de joelhos segurando o livro dos destinos e contemplando os dois decretos são o conde D. Henrique e D. Afonso Henriques.

5-11 Os que estão sobre as nuvens de um e outro lado são: à parte direita D. Sancho I, D. Afonso II, D. Sancho Capelo; e da esquerda D. Afonso III, D. Dinis, D. Afonso IV, D Pedro I e D. Fernando.

12 O Herói que está ao pé de D. Afonso Henriques com a serpe em cima do Elmo é D. João o I.

13-14 Os dois que conversam logo ao pé dele, são Nuno Álvares Pereira e o 1.º Duque de Bragança, D. Afonso, filho de D. João o I [Descrição, p. 108-110].

 

[Sala da Tocha]

Ordenando-me S.A.R., em Agosto de 1800, que decorasse o tecto e as paredes da Casa da Tocha (21), no caso de ser possível até o fim de Setembro (empresa em si mesmo dificultosa e mais ainda porque não pude conseguir nenhum ajudante) (22), e tendo eu muito desejo de me desempenhar, fiz excessiva diligência e a acabei no tempo prescrito. Como o tecto era muito irregular fiz de todo ele um quadro de paisagens, com um Céu por extremo luminoso para suprir a falta que a sala tinha de luz. Representei a comitiva de Diana, cujas Ninfas espreitadas pelos sátiros escondidos na espessura se entretinham nos exercícios de caça, ou se banhavam em cristalinas fontes. O principal grupo é composto de Dríadas que se ensaiam em atirar à flecha, tendo por alvo uma pomba atada por uma fita à ponta de um mastro. A 1.ª deu na estaca, a 2.ª cortou a fita, e a 3.ª matou a pomba no ar. Domenichino tratou este mesmo sujeito, à imitação da pintura de Virgílio no 5.º livro da Eneida, copiada também do 23.º da Ilíada. No meio do tecto sobre uma nuvem aparece Diana em acto de dar o prémio à vencedora: Nas paredes pintei Atalanta e Meleagro fazendo a montaria ao Javali de Celidónia, e por uma fingida porta entreaberta, se vê, como em outra casa, Diana e Endimião (23) [As Honras, p. 119-120].

 

[Sala dos Archeiros, da Guarda Real ou de Faetonte]

Seguiu-se uma das galerias que tem 88 palmos de comprido (24). Os pés direitos à vista de uma tal extensão pareciam curtos e a parte inferior da abóbada era penetrada por certas goteiras que, filtrando o salitre, o conduziam à superfície, causando um dano irremediável às pinturas. Evitei ambos os inconvenientes fazendo logo acima da cimalha, uma frisagem em baixos relevos, semelhantes à do templo de Faustina, a qual foi executada por Brás Toscano de Melo e Roberto Luís da Silva, escultores, discípulos de Giusti, empregados em Mafra. E como ela, em gosto, cor e tom fosse análoga ao rodapé, deu em aparência à altura da casa a desejada maioria. Nem o salitre pode fazer mal algum aos baixos relevos como faria às pinturas. O resto do tecto é uma superfície côncava, de 80 palmos de comprimento por 24 de largura, e consiste em um só painel. Voulez-vous du Public mériter les amours / Sans cesse en écrivant variez vos discours / Un style trop égal et toujours uniforme, / En vain brille à nos yeux, il faut qu'il nous endorme. Este preceito, que Despreaux dá aos poetas, convém igualmente aos pintores e a todos. Sem variedade ninguém pode contentar os sentidos e o espírito do homem; e havendo já nas outras peças objectos de votos, alegóricos e históricos, estava a galeria pedindo alguma coisa mais risonha. E como S. A. R. deixava à minha escolha também os assuntos (25) escolhi para ela algumas das Metamorfoses de Ovídio. [...] [As Honras, p. 120-123].

[...] O precipício de Faetonte era assunto próprio para esta pintura porque pede um céu incendiado e, por consequência, luminoso, porque se pode bem representar num quadro estreito e comprido e porque sendo um exemplo terrível dos danos e precipícios que causava[m] a si e aos outros os temerários que precituosamente [sic] tomam as rédeas de governos difíceis a que não são chamados por vontade divina era como a maior de todas as calamidades que a Europa teve de sofrer debaixo do ilegítimo e tirânico governo dos Jacobinos e dos desgraçados abismos em que eles mesmos se precipitaram (26).

É bem sabido de todos o contexto desta Fábula, ela tem sido tratada por artistas de 1.ª ordem. Como a cena do quadro me oferecia um campo assaz vasto, introduzi muitas figuras que se não acham em outros painéis do mesmo assunto, mas que eu não suponho alheias do sujeito.

Como a catástrofe se passou no espaço imenso que há entre a terra e os astros, tomando a [...?] a liberdade sempre concedida aos pintores e poetas, personifiquei os planetas, os rios e o mar.

Vénus e Marte, sempre amantes e sempre inimigos de Apolo, depois que ele foi chamar os deuses para que os viessem ver embrulhados no laço com o qual Vulcano os enredara. São agora espectadores tranquilos da desgraça de seu filho e da muita aflição que lhe causa um tal incidente. Mercúrio parece tomar mais algum interesse e a terrível [...?] Diana [...?] que existe no 1.º céu via [...?] do sol que gira no 2.º muito mais alto que o seu. Mas como Faetonte depois que abrasado pelo veneno do escorpião soltou as rédeas, os cavalos desenfreados ora se elevavam até ao firmamento ora desciam muito vizinhos à Terra e a Lua se admirava de ver o carro de Sol mais abaixo do seu [...?]. Saturno está em [...?] e pode ser interrompido o giro do Sol [...?]. O relógio que mede as horas assim como as ninfas que as representam. [...] [Descrição, p. 210-211].

PAINEL DO TECTO

Havendo Faetonte, depois que soltou à vista do Escorpião as rédeas aos condutores do seu carro, motivado o incêndio quase universal, resolveu-se Júpiter, para evitar a ruína inteira do mundo, a matá-lo com um raio e não cede às rogativas do Sol que, posto de joelhos diante dele, lhe pede com a ternura de pai para conservar a vida do seu filho. A mesma águia parece oposta a tão injusto requerimento e querer insultar o Deus da Luz. Os outros Planetas, etc. [...]. Espadanas já secas.

QUADRO DAS PAREDES EM GERAL

Eu segui nestes painéis um misto composto do expressivo, do gracioso e do fútil. Este último, em que tanto se distinguiram Pedro de Cortona e Lucas Jordão é o mais próprio para os casos como foi o presente em que o artista não tem os meios nem o tempo de poder estudar pela natureza cada objecto inteiro, todo junto e cada parte dele separadamente.

QUADRO DAS ELÍADES

Como um grande número de escritos falam só em três irmãs de Faetonte Lampécia, Faitusa e Lampetusa devo dizer que para enriquecer  a composição, aqui, como têm já feito outros artistas e autoridade de Higino, o qual nomeia e lhe[s] chama Egle, Lampécia, Tibéa, Etéria e Deocipe, além das 6 irmãs, também introduzi Climene em distância dando o abraço da despedida a duas de suas filhas e uma das Ninfas de Hespéria que for forseja para desprender das raízes o pé da que domina o 1.º grupo. Se a planta quer descer à parte do pé direito, sobre a qual se forma esta figura, não cai a prumo debaixo da cavidade fúscula do pescoço e perde alguma coisa o equilíbrio é porque o seu corpo não é todo sustentado em si mesmo mas parte dele descança sobre o ombro direito da oficiosa ninfa e nos braços da irmã que a eleva para cima.

Devo pedir escusa para os muitos defeitos em que caí e como a minha vontade e o meu dever é servir muito bem e trabalhar quanto for da minha parte por não para não abusar de tanta benignidade da benegnidade [sic] com que estes Senhores se dignam desejasse ter os meios que outros pintores têm de estudar [...] [Descrição, p. 107-108].

 

[Sala Primeira do Docel, da Audiência ou do Trono]

Os antigos pintores estudavam a arquitectura e este estudo os obrigava também a entender quais eram os ornamentos competentes a cada objecto. Quando faziam tectos, galerias ou pórticos, eles mesmos, sós ou ajudados pelos discípulos, pintavam toda a decoração. Assim fez Buonarota, Rafael e Lanfranco no Vaticano, o Carache na galeria Farnesiana, Pedro de Cortona nos famosos tectos de Barbarini, etc., etc. E ainda que no tempo de agora esta moda seja pouco seguida, eu tive ordem para me conformar com o antigo costume nesta parte e também para me dispensar de Ajudantes, porque se me não dava pressa. Mas em 1804, tendo S.A.R. confiado a Inspecção daquele Real Palácio ao seu guarda jóias, personagem bem conhecido e igualmente recomendável pelo ser, pela sua conduta e erudição e pelos grandes conhecimentos que tem da Arte e das ciências, as coisas mudaram de ordem [Idem, p. 126].

Manuel Piolti, Arquitecto decorador, empregado no Teatro Régio, não tendo ali que fazer teve o louvável desejo de servir S.A.R., combinando os seus talentos com os de Sequeira para de comum acordo inventarem e dirigirem as composições dos tectos do Palácio da Ajuda, coisa que por então não teve efeito. Mas como o zeloso e Ilustrado Inspector desejasse também que o estado utilizasse o seu préstimo e o meu empenho se acordasse perfeitamente com os seus desígnios conviemos facilmente em que dirigiríamos ambos toda a pintura da casa do Docel, encarregando-se ele de desenhar a perspectiva e os ornamentos e eu o painel e as mais figuras. Os seus desenhos foram executados por José António Narciso e por seu filho Anacleto José Narciso, por Vicente Paulo, Eusébio de Oliveira, Eugénio Joaquim Álvares, José Tomás, João de Deus, etc. No painel que eu fiz, e tem mais de 30 palmos de comprido, enquanto a Providência Régia manda distribuir os competentes prémios aos grandes, aos sábios, a ministros, militares e eclesiásticos beneméritos, a mais Alta Providência manda a coroa e o Ceptro ao Augusto Possessor do Trono e o Anjo Tutelar da Nação Portuguesa o vai cobrir com o seu escudo. Acção que felizmente vimos realizada desde o fim de Novembro de 1807, até agora, tendo o Céu preservado toda a Real Família das insídias do mais impudente e ardiloso de todos os tiranos. As outras figuras foram executadas por Calisto, João de Deus, Foschini e Joaquim Gregório (27). Sequeira imaginou e desenhou as virtudes que estão nas paredes (28) e os baixos relevos do rodapé (29). A Régia Liberalidade que brilha em todas as acções de S.A.R. não se desmentiu nesta ocasião, antes, sendo também secundada pela do Inspector, deu à decoração desta sala todo o lustre e esplendor que o Trono deve ter, de sorte que os mesmos inimigos dele a viram e trataram com respeito (30). Além dos ordenados e gratificações pecuniares, S.A.R. fez outras Mercês, e deu cruzes das ordens Militares, não só àqueles artistas que as pediram mas também a muitos que não as pediram. José da Costa, Francisco Fabri, Francisco António, Domingos de Sequeira, Arcângelo Foschini, e Bartolozi tiveram hábitos de Cristo, e Joaquim José de Barros teve o de Santiago [...] [As Honras, p. 124-128].

 

[...] Eu vivia tão solitário em Mafra como um anacoreta no seu eremitério, e para bem passar as noites entretinha-me com os meus livros, e com os que me emprestava o Padre Bibliotecário, tendo para isso licença superior. Recopilei grande número de Autores de Arquitectura, copiando o que havia mais interessante em cada um, e comparando-os uns com os outros, de sorte que, sem ser esse o meu intento, vim a compor um tratado (31) que, se se publicasse, poderia ser útil aos principiantes e servir também como prontuário aos mais avançados [Memórias, p. 249].

 

 

 

 

 

(1) Cirilo confessa nas Memórias (Coimbra, 1922, p. 136) que a empreitada lhe foi confiada na sequência da sua colaboração no projecto para a Cadeia do Palácio da Relação.

(2) Até àquele tempo não se havia dado maior ordenado aos pintores do Rei, nem mesmo ao insigne Vieira Lusitano; mas era dom gratuito e quando se lhes pedia qualquer trabalho recebiam por ele uma gratificação, depois deram-se a alguns mais avultadas pensões, sendo consideradas como recompensa das Obras que fizessem; coisas ambas praticadas na França, Espanha e outros países da Europa para dar alento às boas Artes [nota de Cirilo]. Noutra ocasião afirma: "Eu levava os meus ordenados pelas folhas de Mafra e por omissão do pagador estava em grande atrasamento ao tempo da retirada de Suas Majestades e Altezas para o Brasil. Dos franceses nada recebi, antes fui demitido por eles, mas por Aviso Régio de 23 de Agosto de 1809 tornei a entrar na dita folha e por outra Real Ordem recebi todos os atrasados [...]". Ver Memórias, p. 254. J. M. Cordeiro de Sousa transcreve o teor abonatório da informação  do Marquês de Borba, lançada, em 23 de Junho de 1809, no requerimento em que Cirilo solicita ao Princípe Regente a continuação do pagamento do seu ordenado suspenso. Cf. Uma informação num requerimento de Cirilo Volkmar Machado, in Notícias do Passado, Lisboa, 1938, p. 101-102.

(3) Ver Sousa Viterbo, Noticia de alguns Pintores, s. 2, Lisboa, 1906, p. 47-48.

(4) Resta averiguar se alguma obra sua andará abusivamente atribuída a Joaquim José da Costa e Brito Durão Padilha, autor de composições congéneres na Ericeira, entre 1853 e 1869. Cf. Manuel J. Gandra, Duas Casas pintadas na Ericeira, infelizmente já demolidas, in Região Saloia (10 Abril 1993).

(5) Cirilo refere-se especificamente à descendência de D. João V e D. João VI. Quanto à inverosimilhança da tradição que respeita ao Magnânimo, ver Manuel J. Gandra, A Ideia do Monumento de Mafra: arquitectura e Hermetismo, in Bol. Cultural da C. M. de Mafra ' 94, p. 15-20. No caso de D. João VI a rainha D. Maria fez, de facto, voto expresso de construir em Mafra um novo convento para os arrábidos se tivesse um neto. Cf. a esse propósito Manuel J. Gandra, Medalhística Mafrense: sec. XVIII e XIX, Mafra, 1989. Consta localmente que o nascimento de D. Pedro V teve origem em idêntica promessa de D. Maria II, cujos contornos exactos são desconhecidos.

(6) A Princesa D. Maria Teresa, depois Rainha de Espanha, desposada com D. Pedro Carlos e, em segundas núpcias, com D. Carlos Maria Isidoro. No MNAA guarda-se um esboceto de Cirilo para este tecto.

(7) O fresco foi limpo e consolidado em 1993 por Margarida Mendonça, Ana Paula Lourenço e Teresa Pimentel, alunas da Escola do Património de Sintra. Cf. Boletim da Câmara Municipal de Mafra ' 94, p. 97-106.

(8) Cirilo só descreve a parede nascente. Nas restantes observam-se: a Sul, Afrodite, Íris associada ao Arco homónimo, Hera e o pavão, Zeus e a águia, Cibele polimástica e Artémis; a Oeste: Diana, Cronos devorando um dos filhos, Marte; a Norte: Hermes, Pã e Apolo com a sua lira. Frei João de Santana regista no Real Edifício Mafrense que "está o tecto pintado e nele se representam vários passos da Fábula" (fl. 390).

(9) Composição alusiva à escolha do Papa Pio VI para padrinho de D. António, filho dos Príncipes do Brasil, D. João e D. Carlota Joaquina.

(10) No MNAA guardam-se oito desenhos preparatórios para esta composição, datados de 1798, quase todos estudos de nú (porventura realizados na Aula de nú de Mafra) e do natural, como o próprio autor os designa. A pintura do tecto deve ter tido início no ano anterior, segundo um primeiro projecto posteriormente preterido: "O Infante D. Henrique mostrando as Tábuas de Ptolomeu a João Gonçalves Zarco e Simão Vaz, que descobriram as ditas Ilhas. Depois dever[sic] aparecer Gil Eanes e Mr. de Bitencourt. Um pouco mais distante a Geografia levanta um véu de cima do globo e mostra os mares da Índia a Vasco da gama, o Brasil a Pedralvares Cabral e a Magalhães o seu estreito" (Descrição, p. 180). Foi objecto de restauro pelo pintor Benvindo Ceia na década de 1940.

(11) Não é de engeitar a nacionalidade portuguesa de Colón, conforme o estudo pioneiro do mafrense Guilherme dos Santos Ferreira, ampliado posteriormente por outros autores, de entre os quais se destacam o ericeirense Patrocínio Ribeiro e Mascarenhas Barreto. Ver O Major Santos Ferreira e a sua tese sobre a nacionalidade portuguesa de Cristobal Colón, in Bol. Cultural da C. M. de Mafra ' 92, p.125-196.

(12) Frei João de Santana resume tudo ao seguinte: "No tecto se representa o que os Portugueses fizeram no Brasil e no mais alto dele está representado o Cabo da Boa Esperança, o Adamastor e outros gigantes e o Gama vencendo-os" (ob. cit., fl. 389-390).

(13) Para as paredes desta Sala foram pintados seis telas encaminhadas para o Palácio de S. Cristóvão do Rio de Janeiro na sequência da retirada da família real para o Brasil devido às invasões francesas. Aí foram observadas, em 1877, pelo Visconde de Rio Branco (pai) e por Monsenhor Pinto de Campos, tendo sobrevivido ao assalto do edifício, em 1889, e sido enviadas pelo governo brasileiro à família imperial, então exilada em Boulogne-sur-Seine. Ocupar-me-ei do seu estudo oportunamente. Consulte-se, entretanto, Carlos da Silva Lopes, As pinturas de tema ultramarino do Palácio Nacional de Mafra, in Actas do Congresso do Mundo Português, v. 8, Lisboa, 1940, p. 55-70 e Cirilo Volkmar Machado: artista e escritor, in Primeiro de Janeiro (7 Janeiro 1973).

(14) Galeria é o nome que antigamente se dava às casas do andar nobre do Monumento de Mafra, compreendidas entre ambos os torreões e a sala da Benção. Cirilo reporta-se às telas (25 ao todo) das salas dos Destinos, Faetonte e Docel que Frei João de Santa Ana afirma terem seguido para o Brasil, por lá tendo ficado. Tal como referi na nota supra, retomarei oportunamente esta questão. Ayres de Carvalho cita dois estudos intitulados "Pensamentos para Mafra", com cupidos alados segurando um medalhão ou em atitudes indefinidas, porventura destinados a uma destas salas. Cf. O pintor Cirilo Volkmar Machado (1748-1823), in Obra Mafrense, Mafra, 1992, p. 179. E ainda uma Flora, "gracioso estudo pintado a fresco" (idem, p. 180).

(15) Esta casa [pintada entre finais de 1798 e Agosto de 1800] estava ainda por acabar quando S. A. R. passou ao Brasil, e assim [em 1815] se conserva [nota de Cirilo]. O seu estado manteve-se inalterado até à intervenção de Ayres de Carvalho, na década de cinquenta do nosso século. Ver infra, nota 17. Cirilo utilizou estudos em relevo realizados pelos escultores da Escola de Mafra, com o provável objectivo de compreender e corrigir os efeitos da perspectiva. Tal se depreende de uma nota num dos desenhos existentes no MNAA: "Apontament. ºs q se modelarão em barro p. ª o tecto dos Destinos em Mafra 1799". Aires de Carvalho detectou no Palácio da Ajuda um outro esboceto reproduzido por Ernesto Soares, in Dicionário de Iconografia Portuguesa, Supl. I, Lisboa, 1954, p. 23.

(16) Alguns autores estrangeiros creem que o Conde D. Henrique era 3.º filho de Guilherme, Duque ou viceduque de Lorena; porém a opinião dos nossos melhores escritores é que ele fora 4.º filho de Henrique de Borgonha, neto de Roberto I Duque de Borgonha bisneto de Roberto o devoto Rei de França e 3.º Neto de Hugo Capelo de quem derivam as famílias Reais de França e de Portugal [nota de Cirilo].

(17) Todos os retratos destes Principes estão em Vila Viçosa, feitos pelo famoso Quillard. Eu que me não quero poupar a fadiga nenhuma, para dar a possível perfeição que estas obras, não tenho dúvida de ir àquele Palácio e copiar quanto for necessário à mesma empresa. Podia mesmo ser agora enquanto S. A. está em Mafra para aproveitar este tempo visto não o poder empregar no tecto [nota de Cirilo]. Na parede a que Cirilo se refere observa-se agora, no lugar daquele que para ela destinou, outro óleo, alegórico, cujo estudo darei a conhecer a seu tempo.

(18) Acabaria por ser Ayres de Carvalho, já no presente século, o pintor dos medalhões a claro escuro. Frei João de Santana diz a que a sala "tem no tecto a figura da Lusitânia e ao redor dela os Reis de Portugal. Alguns destes se achavam também pintados em quadros que ornavam as paredes, porém estes também ficaram no Rio de Janeiro" (ob. cit., fl. 389). Nesta passagem do Real Edificio Mafrense se abona Margarida Montenegro, patenteando completo desconhecimento da minuciosa descrição de Cirilo. Como, decerto, não confrontou a sua fonte com a obra final, acessível a qualquer um, apresenta uma descrição inexacta dela! Cf. Subsídios para a História do Palácio Nacional de Mafra, in Bol. Cultural '94, p. 349.

(19) Em As Honras (p. 119) informa que a mesma parede estava destinada a "um grande painel [no qual] se devia pintar toda a Família Real". Actualmente, nesse local acha-se uma enorme tela com composição alegórica alusiva ao regresso de D. João VI do Brasil, óleo de Máximo Paulino dos Reis, pintado em 1816 (restaurado em 1956) e proveniente do Palácio da Ajuda.

(20) Todos sabem que o adorno interior de um edifício deve corresponder à sua decoração exterior e, por isso, não convém às pinturas dos majestosos Palácios senão assuntos heróicos e Sublimes. O famoso Le Brun, pintou no Louvre as acções Gloriosas de Luiz XIV. Rubens no Luxemburgo as da Rainha Maria de Médicis; Rafael e Júlio, no Vaticano, as de Carlos Magno, Constantino, o Grande, Leão X, Júlio II, S. Leão, etc. Nós também fazendo patente a todos, neste grande quadro a série genealógica do nosso Soberano mostramos ao Mundo, com jactância irrepreensível, que ao Príncipe a que nós Portugueses têm a honra de obedecer, e a quem com tanta justiça e lealdade sabem amar, e qual é também a fonte de onde deverão muitos dos grandes Personagens deste Reino que refletindo de si a mesma Luz que recebem, vão aumentar com ela o esplendor do trono Português [nota de Cirilo].

(21) Este salão, hoje conhecido por Sala de Diana, teve uma parede (demolida em data desconhecida) a dividi-lo em duas salas: a da Tocha e a do Docel, esta sempre armada de damasco e veludo encarnado, enquanto serviu de antecâmara à sala da Audiência ou do Trono. A decoração projectada por Cirilo circunscreveu-se apenas à abóbada da sala do Docel e não à da Tocha, como ele assevera. Cf. nota infra.

(22) Desdenhando de Cirilo, Ayres de Carvalho considera a hipótese de ter sido o ajudante Manuel da Costa quem realizou a pintura (entre Agosto e Setembro de 1800).

(23)  Ao tempo em que Ayres de Carvalho assumiu o cargo de conservador do Palácio Nacional de Mafra, apenas metade da abóbada do salão, correspondente à antiga sala do Docel, se achava decorada.  Empreendendo a tarefa de  alargar o quadro a todo o tecto, seguindo o mesmo critério que norteara Cirilo, aquele responsável legou registo da intervenção da sua equipa no canto nordeste da abóbada: "A partir da ponte e do / primeiro Fauno todo o / teto [sic] e paredes pintadas / por Ayres de Carvalho / no Ano de 1948 / Ajudado por: / Carlos Estrela / Servente: A. Souza". Frei João de Santa Ana informa que os quadros que  ornavam as paredes da sala do Docel seguiram para o Rio de Janeiro, não tendo acompanhado a família real quando esta regressou do Brasil (ob. cit., fl. 388). Acrescenta ainda que a dependência correspondente a esta no lado Sul do Palácio, fora adaptada para aposento das Senhoras Infantas,  possuindo "oito casas pintadas" (idem, fl. 388-389), das quais não nos chegou qualquer descrição.

(24) Tecto pintado em 1802. Frei João de Santa Ana assinala a ausência, também nesta sala, dos "riquíssimos quadros de que estava ornada toda, os quais, pela invasão de Massena, foram conduzidos para o Rio de Janeiro e por lá ficaram" (ibidem, fl. 387).

(25) O Cavaleiro Azara chama a isto saber encomendar as obras: La Czarina, diz ele, falando de Mengs, glí aveva data comissione di farle due quadri, e glié l'avea saputa dare, lasciando al di lui arbitrio e i soggeti, e il prezzo. Vida na sua Arte Poética também diz '' Nunca trateis assunto que não seja do vosso gosto: nada de assuntos forçados. No da própria escolha tudo corre como da fonte; no que outrém vos dá tudo é constrangido e violento [nota de Cirilo].

(26) Nas Memórias, Cirilo confessa: "[...] quando fiz o Faetonte, tive em vistas o precipicio que parecia estar destinado a um mancebo menos ilustre que o filho do Sol; mas tão audaz como ele até aquele tempo" (p. 248). No MNAA guarda-se estudo para um dos quadros que pintou destinado a esta sala.

(27) Não coincide com a informação prestada por Cirilo o que Ayres de Carvalho adianta em O Pintor Cirilo (p. 175): que Volkmar Machado terá iniciado o trabalho, em 1797, com o ajudante Bernardo de Oliveira Góis.

(28) Na parede Sul: Diligência, Constância, Concórdia, Generosidade; na parede Norte: Ciência, Docilidade, Tranquilidade e Perfeição. Não é, portanto, verosímil que Máximo Paulino dos Reis tenha pintado a Generositas, como alega Natacha Félix, aluna da Escola do Património de Sintra, atribuição aceite pelos Serviços Educativos do PNMafra sem qualquer suporte documental.

(29) Alude às grisailles das Guerras da Restauração e não, como pretende Frei João de Santa Ana, às "vitórias conseguidas na Índia pelos Portugueses" (ob. cit., fl. 399). Dois dos esbocetos de Sequeira, foram copiados em baixo-relevo por determinação de Cirilo. No MNAA guardam-se dois outros (desenhos à pena e aguada de tinta da China) que figuraram nas Exposições de Desenhos de Domingos António de Sequeira, ali patente em Agosto de 1939, n. 208 (inv. n. 1442) e 209 (inv. n. 1449) e do Bi-centenário de D. João V (Mafra, 1950). Frei João de Santa Ana constata que "por baixo de cada uma das ditas grandes figuras representativas das virtudes Reais está um quadro [...].  Estes quadros são tão admiráveis que sendo tudo pintura de cor parda, parecem relevados e ou se vejam de longe ou de perto representam-se as figuras tão sacadas fora que mesmo quem está junto a eles não se persuade que tudo é plano sem apalpar. Do mesmo são os dois gigantes que estão em cada topo e dois génios que seguram uma coroa" (ob. cit., fl. 399).

(30) Os invasores franceses, entenda-se. O pintor Benvindo Ceia restaurou o conjunto anteriormente a 1940.

(31) Considera-se perdido.

 

 

 

 

Um dos grandes elogios que o cavaleiro Azara faz a carlos III da Espanha, merecendo ele tantos, consiste na bondade com que tratou Mengs na sua corte '' que lhe continuou com huma constancia heroica, em quanto viveo, apezar das tramas da inveja, e de muitas estranhezas do mesmo Mengs. (4) '' E quais louvores não daria ele a S. A. R. se visse a Benignidade com que sempre, até o momento da sua retirada, se dignou tratar o tradutor pela pequena obra, tendo ele maiores defeitos que os daquele grande homem sem ter nenhum dos seus raros talentos!

O nome de Barbaro, é tão injurioso, que nem os ranceses o querem, ainda que o direito lhes pertença; e para deixarem de o parecer destinam alguma porção, ainda que pequena, das somas que furtam, para a empregarem em obras de Arte:

 

(4) O Pai de António Raphael Mengs, que também era Pintor, achando-lhe optima disposição para o desenho, desde os seus primeiros anos o fez aplicar em casa sem descanso algum, os estudos da Arte e das Letras; mas esta educação (diz o mesmo Azara) que lhe foi tão favorável para os progressos da pintura, foi-lhe pouco vantajosa para a sua pessoa; pois a grande ignorância do Mundo, o tornava muitas vezes defeituoso na conduta civil.

 

Tal é o horror que lhes causa aquele título! Assim mandaram eles aqui fazer alguns paineis, e pintar vários ornamentos; mas exigiam às vezes a obra e a honra do Artista, como equivalentes do dinheiro que lhe davam; e na factura da equação acontecia darem à pintura um valor negativo, muito menor que 0.

O Rectissimo, Clemente, Pio, Generoso, e Político Governo de S. A. R. acha-se perfeitamente transferido aos seus dignos, e incansáveis substitutos nestes Reinos. No meio das maiores tribulações e da crise mais terrível segundam eles, tanto por génio natural e por dever, como pelo respeito que lhe consagram, as suas regias Intenções, empenhando-se na conservação das ciências e belas Artes, não menos que na independência nacional; coisas todas que o mais malvado e formidável de todos os homens deseja, e trabalha para aniquilar: Tal é a diferença que há entre os bons e verdadeiros Principes, Pais da Pátria, e Amigos dos seus vassalos; e os salteadores, entronizados pelo detestável e pertendido direito da força.

 

 

Vasco da Gama desembarca em Calecut (Camões. Lusíadas. Canto 7.º St. 44).

Afonso de Albuquerque edifica a fortaleza de Cochim (Osório. Heronymi Osorii. Lafiteau. Hist. des Decouvert. L. 1.º).

Os Almeidas derrotam Cutialle em Panane (Barros. Dec. 2.ª cap.º 6.º L.º 1.º).

Duarte Pacheco desbarata o Camori no Passo Cambalum (D. Góis Chron. del Rei D. Manuel c. 86).

O combate nos Passos de Palsert e no do váo está no cap. 88 /112/

António da Silveira Obriga Solimão e Cofar a que levantem o cerco de Diu (Faria e Sousa  Asia Portuguesa T. 1.º P. 4.ª N.º 5 e seguintes).

D. João de castro triunfa em Goa de Insar-Kan (Freire de Andrade Vida D. João de castro l.º 3.º n.ºs 40 e 41; De Reb.us Gert. Emm. Reg. Lusit. Lib. VII).

António do Casal é o Custódio dos Franciscanos de Diu.

Isabel Madr.ª mulher de Mestre João valorosa em Diu (De rebus Emanuella Regis Lusitaniae)

 

O Primeiro painél representa o desembarque de vasco da Gma em Calecut. O Almirante vestido ao uso Espanhol daqueles tp.ºs com roupa à Francesa de Setim carmezim da mesma sorte que o descreve Camões no canto 2.º st. 97. é recebido com demons

 

 

No grande painel aparece em uma medalha o retrato do Infante D. Henrique sustentado pela Fama. A Cosmografia, coroada de estrelas e sentada sobre o Globo Terrestre, ajuda a sustentá-lo com a mão esquerda e, com a direita, lhe indica, apontando com o compasso, o mar da Índia. Um génio desta ciência levanta em tanto o véu que ocultou por tantos séculos aquela parte do Mundo. De outra parte o Gigante Adamastor, com terrível aspecto, ameaça Vasco da Gama. O Herói, ainda que se lhe arrepiem os cabelos (10), não deixa de acometer. A Esperança boa o anima a prosseguir a empresa começada. Mais abaixo, Pedro Álvares Cabral, perdendo o rumo, é levado nos braços de uns ventos tempestuosos e impelido por outros, à costa do Brasil. Em um grupo esbatido, Cristóvão Colombo, depois de ter achado a América de Espanha, é conduzido em ferros para este Reino pela Perfídia (Idem, p. 116-118).

 

(10) "Arripiam-se as carnes e o cabelo, a mim e a todos só de ouvi-lo" (Os Lusíadas) (nota de Cirilo).

 

 

 

 

 

 Sobre oito colunas corínteas se levanta uma espécie de Domo que representa o férreo templo do Destino. Este deus fabuloso mostra escrita no livro dos seus decretos irrevogáveis, aos Régios Ascendentes da casa de Bragança, a glória a que os seus sucessores devem ser elevados; e, principalmente, aquela, que, para felicidade da Nação Portuguesa, estava reservada ao senhor D. João o IV; e mais ainda no Amabilíssimo Príncipe de quem, felizmente, somos vassalos. À vista de tão magníficas predições, todos eles exultam de prazer. Hugo Capeto, extasiado, levanta os braços e os olhos ao Céu para lhe render as graças. O Conde D. Henrique e D. Afonso I observam ainda o livro e, cheios de respeito, adoram a Providência. Iríamos longe se quisessemos fazer a descrição inteira; diremos somente que em um painel entre as janelas, D. João o IV devia ser conduzido ao trono pela Justiça e pela Felicidade. Nos 4 medalhões das sobreportas, D. Afonso VI está entre as estátuas da Tristeza e da Infelicidade; D. Pedro II entre as da Justiça e Fortaleza corporal; D. João o V entre a Religião e a Magnificência; e o Senhor D. José entre a Majestade e a Política: Na parede grande em um grande painel se devia pintar toda a Família Real (13) (As Honras, p. 118-119).

 

No painel do tecto fiz o precipício de Faetonte e, achando um campo vasto, segui em parte a ideia adoptada por Buonarota, em caso semelhante. Todos as Planetas são espectadores da catástrofe. Diana se admira, como diz Naso, de ver o carro de seu irmão abaixo do seu; Vénus e Marte, lembrados de que o Sol os dera em espectáculo aos outros deuses, se regozijam com a desgraça de seu filho; e como o seu carro deixa de fazer o costumado giro, também Saturno, quer dizer, o Tempo está ocioso com as mãos debaixo dos braços; e as Horas estão ao pé dele pasmadas e imóveis. As Nereidas e o mesmo Neptuno, quase sufocados pelo excessivo calor, recorrem a Júpiter. Este Deus, apesar das rogativas de Tétis e de Apolo que, prostrado a seus pés, intercede pelo filho, o precipita com um raio no Eridano. A Divindade deste rio abre os braços para o receber no seu seio, enquanto uma das suas ninfas parece recear que ele a maltrate com a sua queda. O ar inflamado faz desaparecer o natural sombrio da abóbada e a superfície, ainda que seja côncava, parece plana (Idem, p. 120-124).