Capela mor


 

Mede 73 palmos de comprido por 57 de largo. Acha-se elevada relativamente ao corpo da igreja. Nos seu subsolo, do lado do Evangelho (norte), lançou Dom João V a pedra fundamental, em 17 de Novembro de 1717.

Sagrada no dia 22 de Outubro de 1730 pelo Patriarca de Lisboa. Contém relíquias de todos os Apóstolos e Evangelistas. Frei António de Santa Ana pregou aqui o Sermão do Corpo de Deus, em 12 de Junho de 1746 (in Sermões Vários, Panegyricos e Moraes, v. 6, Lisboa, 1750), no qual, a dado passo (p. 1-3), afirma: "[na Basílica] tudo é retrato das maravilhas daquele prodigioso monte [Oreb, isto é, o Sinai] [...]".

Na banqueta do altar observa-se um baixo relevo em metal cinzelado, que representa Santo António salvando o pai da forca (515 x 170 mm), atribuído por Ayres de Carvalho a João José de Aguiar.

Nas ilhargas do altar existem duas portas que dão serventia para o coro e, sobre elas, duas tribunas, uma sobre a outra, com arcada de balaustres azuis entre pilares brancos. Nelas presenciavam as pessoas reais os ofícios divinos, encaminhando-se para ali desde a Sala da Benção pelos corredores metidos no interior das paredes da Igreja.

Pendente de três cadeias de ferro guarnecidas de bronze, um candelabro constituído por sete lâmpadas de latão (suspensas de sete golfinhos) remete para as Sete Luzes diante do Trono, descritas no Apocalipse.

No corpo da Capela mor existiu o Coro, para apenas oitenta religiosos, subdimensionado, portanto, face aos trezentos frades residentes, como sublinha Cláudio da Conceição, p. 336, em consequência da quarta alteração do plano do Monumento, ocorrida em 1728. O Coro possuía quatro ordens de bancadas com espaldar em pau vinhático. Frei João de Santa Ana informa que nos dias solenes se cobria "todo de panos verdes" (fl. 267). Sobre os espaldares colocavam-se pequenos castiçais de pé, tendo cada padre um de cada lado, doze castiçais em cada bancada, trinta e seis de cada lado, isto é, 72 no total: "Outras tantas [setenta e duas] são as velas com que se ilumina o Coro nas noites de Matinas solenes, além de muitas tochas que sobre tocheiros se põem na plateia, o que tudo junto faz uma perspectiva admirável parecendo cada lado um trono iluminado".

No período compreendido entre 1739 e 1833 professaram para o Coro da Basílica de Mafra 468 frades cantores (cf. João M. B. de Azevedo, Biblioteca do Palácio Nacional de Mafra: Catálogo dos Fundos Musicais, Lisboa, 1985, p. 189-199).

Primitivamente, a Capela mor ficava encerrado por uma cancela do serralheiro francês Garnier, em ferro com ornatos em bronze, retirada em 1868, sob o pretexto de que impedia "aos alunos do Colégio Militar verem o sacerdote quando dizia missa". A intervenção oportuna de Possidónio Narciso da Silva salvou-a (e à cancela da Capela da Sagrada Família) da destruição certa. Ofício do Director Geral das Obras Públicas, datado de 16 de Abril do mesmo ano, para o Museu dos Arqueólogos Portugueses dá conta da próxima integração daquele património no Museu do Carmo. De facto, as cancelas haviam de ser para ele conduzidas,  em oito carros, no dia de  25 de Maio de 1868 [O Clamor de Mafra (30 Maio 1908)]. Às cancelas se refere um inventário de 1891 da instituição, o qual as localiza na capela mor do antigo convento do Carmo. Antes de transportadas para Lisboa, haviam sido aliviadas dos tocheiros que tinham sobre a cornija (como o desenho de Garnier e a ainda existente cancela da Capela do Santíssimo Sacramento exemplificam), os quais acabariam por ficar dispersos pelo edifício. O serralheiro Garnier foi secundado por Slodtz e Sautry que se encarregaram dos ornamentos de bronze, tendo auferido pelo trabalho realizado segundo a Memoria de todas as Somas que Mrs. Tourton, Baur e Companhia pagarão por conta da Fazenda Real, 16 117, 16 545 e 18 200 livras, respectivamente. Em substituição da cancela retirada seria colocada uma balaustrada de mármores diferentes, tendo os grandes tocheiros em bronze que se encontravam no presbitério sido substituídos por 6 dos que encimavam o gradeamento.

Os dois órgãos, do Evangelho (norte) e da Epístola (sul), os mais importantes do conjunto formado pelos seis existentes na Basílica, foram construídos em madeira do Brasil. Lord Byron considerou-os "os mais belos do seu conhecimento" (ver Organaria).

 

Retábulo da Capela mor

Santo António em Adoração à Virgem

 

Óleo s/tela de Trevisani, restaurado em 1826 pelo pintor italiano Viale (2 Fev.). Foi nessa ocasião medido com o objectivo de ser substituído pelo retábulo em mármore que Dom João VI ordenara se fizesse em Lisboa, o qual nunca chegou a ser realizado. Já Don José Cornide falara de futura substituição da tela por retábulo em mármore (Estado de Portugal, 1800, t. 27, p. 117) [Em carta remetida ao director de O Concelho de Mafra um mafrense anónimo chegou a propor fosse concretizado o projecto primitivo (O Concelho de Mafra, 7 Abril 1940)]. A tela é ladeada por um par de colunas corínteas de mármore rosa, sobre as quais assenta o frontão cujo vértice sustenta em acrotério a cruz com Cristo crucificado. A propósito de pintura, Abreu escreve: "[...] ainda que a mim me não desagrade, cá se esperava coisa melhor (Carta de 10 de Janeiro de 1731). Frei João de Santana confidencia que "um pintor inteligente" lhe dissera que este painel valeria "de 50 a 60 mil cruzados".

 

Esculturas sobre o frontão

Cruz com Cristo crucificado em meio-relevo, sobre resplendor, ladeada por dois anjos

 

Mármore de Carrara; h = c. 4 m; Schiaffino.

 

O conjunto que decorou o altar até à chegada deste definitivo de Génova, era da autoria de José de Almeida [secundado por Jerónimo da Costa (cf. Cirilo, p. 207)], alcunhado o Pai dos Cristos, encontrando-se actualmente em Santo Estêvão de Alfama, para onde foi transferido em 1750. O mesmo José de Almeida terá delineado os modelos para o Cristo e estátuas de santos realizadas pelos artistas italianos, tal como será seu o modelo em madeira do frontão da Basílica que ocupou o lugar do definitivo antes deste chegar de Itália. A 28 de Junho de 1730 Abreu comunica que foi enviado para Roma "o risco e molde do sítio em que deve ir o Cristo e Glória sobre o altar maior da igreja de Mafra. A 2 de Agosto dirá que ainda não era possível mandar "o risco do Cristo e anjos". A 27 de Setembro congratula-se com a circunstância de o trabalho haver sido entregue a Schiaffino, "pois as notícias que aqui temos são de ser um bravo escultor". Depois de muitas indecisões quanto à composição (Carta de 10 de Maio de 1730), o modelo definitivo dela só em Janeiro do ano seguinte seguiria para Roma no navio Talbot (Carta de 17 de Janeiro de 1731), "feito na décima parte do palmo por que está feita a Real Obra de Mafra" (Carta de 14 de Fevereiro).

 

 

As capelas Mor e do Santíssimo Sacramento apresentam cada uma delas Sete Luzes diante do Trono, circunstância que não tem paralelo na capela da Sagrada Família (que apenas conta três), sem qualquer motivo aparente, dirá o observador desprevenido. Existe, no entanto, uma razão ponderosa para tal aparente anomalia: o total de 17 lâmpadas (3 + 7 + 7), que iguala o número dos pára-raios instalados sob a supervisão de D. Joaquim de Assunção Velho, corresponde ao mesmo valor 17, fundamento biorrítmico do eschaton nacional e manifestação da teo­fânia de Schaddai (O Inefável - Pólo Celeste da Criação - Deus), de acordo com a contagem das gerações desde Abraão até Cristo, apresentada pelo evangelista Mateus. A soma de 3 + 7 + 7 é equivalente a 3 + 14 ou ainda a 3,14, i. e., Ii (Pi), número irra­cional, por intermédio do qual se passa do esquadro (Terra) ao compasso (Céu), i. e., do Pólo Terreno (Metraton -314- O Príncipe do Mundo - D. João V) para o Pólo Celeste da Criação (Schaddai - 314).

Ao entrar pela porta axial, a vista do observador é automaticamente conduzida para o centro espiritual do templo, a capela-mor, cuja importância é realçada pelas pilastras gigantes que ladeiam as capelas laterais e guiam o olhar, processionalmente, até ao Santo dos Santos mafrense. Na Basílica de Mafra, à semelhança do Gesú de Roma, o efeito de unificaçâo óptica é conseguido sem recorrer a nenhum dos artifícios cenográficos propostos por Palladio.