Baptizado da Princesa Saloia - Anónimo


 

Relato anónimo do baptizado da Infanta Dona Ana de Jesus Maria

 

No dia 18 de Janeiro de 1807 baptisou-se a Senhora Infanta Dona Ana de Jesus Maria, 9ª filha do Príncipe Regente Nosso Senhor no Real Convento de Mafra.

Prelado baptizante foi o Principal Deão da Santa Igreja Patriarcal, Padrinhos o Senhor Infante Dom Pedro Carlos e a Senhora Princesa Dona Maria Benedita, Assistentes ao Prelado Monsenhores Rebelo e Valadares, 4 mestres de cerimónias da Patriarcal, 8 Acólitos da mesma, 2 Altareiros e 2 Tesoureiros, etc.

Ornato da Igreja, do dia referido: o Altar mor tinha todo relicário e banquetas ricas, frontal, e cortinado da primeira ordem nas tribunas, cortinas e docel branco, alcatifa encarnada, e todas as mais tribunas da Igreja ornadas. À porta da Igreja, do lado da Epístola, no Altar das Virgens, estava a Pia do Baptistério. Sua factura é semelhante a uma maquineta de madeira; é coberta nas ilhargas e costas; estava toda forrada de damasco encarnado e branco dourado de lama, na frente formava um portal com arco em cima e as cortinas do mesmo portal apanhadas. Na frente em cima ao fechar tinha as armas do Reino. No meio ficava a pia que era de pau, todo bornido e pintado, sobre o estrado da mesma factura da maquineta. Tinha dentro, na tal pia, uma toalha finíssima, toda ornada de renda branca, e por cima a tampa que cobria tinha um pano de damasco branco bordado de oiro que cobria a mesma pia. Aos lados estavam duas credências, cobertas de seda encarnada, uma tinha o vaso de Lavanda e pratos de Gremial e limão; e a outra servia para se pôr coberta da pia quando se tirava da parte direita da mesma capela, estavam também cadeiras para os Senhores se sentarem e almofadas de veludo roxo, etc.

No altar do crucifixo, fronteiro ao da pia do Baptistério, estava o leito para a Menina, todo coberto por cima, e em roda, ornado de damasco de oiro, de seda encarnada, figurando leito imperial; na capela de S. Pedro de Alcântara da parte de dentro do cancelo, estava também outro semelhante para o mesmo destino.

Na manhã do mesmo referido dia 18 às 6 horas tocou-se a Prima, e como também Tercia, Missa conventual, e Sexta, e Noa; e pelas 10 e meia tocaram solenemente os sinos, e cantou Missa votiva solene o Guardião, que foi a do SS. Nome de Jesus, uma só oração, Glória, Credo e Prefácio da Natividade.

Antes de se dar o princípio à referida Missa votiva 2 moços de Câmara, acompanhados de 2 Archeiros, tinham ido buscar água em duas quartas de prata, à fonte mais próxima desta vila, e apenas chegaram, foi lançada na dita pia por um dos Mestres das cerimónias que estava junto ao Baptistério.

Concluída a referida Missa a que assistiu S.A.R. e alguns fidalgos: os Ministros e o Celebrante vieram todos 3 ao lado da Epístola, e aí tiraram os seus manípulos, o do Celebrante, estola e casula: e vestiram-lhe a estola roxa e pluvial; o Estandarte tinha a este tempo entrado pela porta do Evangelho conduzido por um Acólito; os Ministros Diácono e Subdiácono retiraram-se à Sacristia, o Celebrante sentou-se; entretanto os Acólitos ceroferários, pegando nos castiçais, juntaram-se à Cruz, e principiaram a caminhar até ao Altar das Virgens e seguindo a nossa Comunidade. A Cruz ficou junto ao cancelo de fora do Altar, e a Comunidade situou-se em 2 alas até defronte do altar do Crucifixo. O Príncipe Regente e a sua Família Pequena todos entraram para dentro da Capela do Baptistério, e assistiram a todo o Acto. O Celebrante Guardião ficou de fora fechando a Comunidade; tendo aos lados 2 Mestres de Cerimónias, e atrás o Acólito do Livro. Deu-se princípio às Ladainhas pelos 2 cantores de sobrepelizes e prosseguiu a cantar a nossa Comunidade. (Ora já antes disso se tinha descoberto a pia por um dos Mestres de Cerimónias). Antes do verso - ui nos exaudire digneris - o Celebrante Guardião levantando-se em pé, disse por 2 vezes cantando o verso- ut Tentum istum = como está no ritual = formando as Cruzes às palavras benedicere+et consecrare+digneris = tornando a ajoelhar até ao último Kirie elison = disse depois o Pater noster, e Credo em voz alta, em tom ferial e os versículos seguintes como tem o ritual. A primeira oração disse-a em pé; daí caminhou para o Baptistério, ao Exorcismo da água virando-se para o Altar, dizendo ao mesmo tempo as palavras - Exerciso te criatura aquae = e tudo mais como está no ritual romano - cap. 7 da Benção da Fonte Baptismal, que se costuma fazer fora dos dias Sábado Santo e do Pentecostes.

Concluído todo o acto da Benção que o Celebrante Guardião cantou em voz alta, e deitados os óleos pelas galhetas de Catecúmenos e Crisma, misturou-se outra parte de água na pia do Baptistério que estava em dois frascos de cristal, que tinha vindo do Jordão. O Celebrante Guardião depois de lançada a referida água, metendo a mão direita dentro, girou em roda toda a pia, revolvendo uma com a outra água. Cobriu-se a pia e retiraram todos ao corredor da sacristia, lavando antes o celebrante as mãos em limão e jarro de água que tudo estava numa credencia ao lado do Evangelho do mesmo altar da Capela das Virgens. A todo este acto assistiram o Príncipe Regente N. Senhor, seus filhos, Camareira mor e dois camaristas, Conde de Caparica, Marquês de Dagos, Conde de Valadares e Guarda-roupas Lobatos.

[Preparação para o acto do baptismo na capela-mor e Igreja]

Na capela-mor estava o paramento branco para principal, como é costume no meio do altar; mitra preciosa; faldistório vestido de branco e alcatifa; ao lado da epístola três credências, duas ao lado da Epístola e uma, a do Evangelho que estava deste lado chama-se credência das ofertas, em que tinha os Santos Óleos cobertos de véu branco bordado, e dois castiçais aos lados com luzes. As duas credências da Epístola uma era da Lavanda, outra da pia do Baptismo. A da lavanda tinha vasos de prata e bacias, e a outra da pia tinha também dois grandes jarros de prata dourados, um prato pequeno também de dourado com a concha dentro, e a pia baptismal em que se lançou e trouxe água do Baptistério. Ambas estas credências estavam cobertas de seus véus de volante e com franja prateada em roda. Esta credência também tinha aos lados dois castiçais com luzes.

No corpo da Igreja, defronte do Altar dos Mártires, estava o faldistório coberto de roxo com a face virada para o mesmo altar e alcatifa por baixo. Junto à grade do mesmo altar da parte de fora entre os confessionários estava também uma credência coberta com um pano de seda roxo, e em cima, tinha um prato com um vaso dentro do sal para a Menina.

À entrada da Igreja, junto do altar do crucifixo, na frente do leito imperial, estava também uma credência ornada de damasco encarnado, destinada para os fidalgos reporem e descansarem as insígnias.

[Ornato das salas do Palácio]

A sala da antecâmara estava ornada de damasco e leito imperial. A sala dos veadores estava também ornada de cortinas de damasco encarnado. Tinha a um lado o docel e uma mesa por baixo coberta de veludo encarnado onde estavam as insígnias, veste cândida, vela com quatro ducatões cada um de 20 mil réis. Estava também o sendal para o mordomo mor e que serviu o Visconde de Barbacena, por impedimento do Conde de cavaleiros. Enfim, a um lado da mesma sala dos veadores estava também o pálio branco, todo bordado em ouro que serviu para conduzir a menina.

Da ordem e disposição dos indivíduos que pertenciam a este acto, como guardas reais, archeiros e trombeteiros que vieram assistir para a alas do corpo da Igreja, e para a instrumental:

Archeiros estavam em duas alas perto do corpo da Igreja, e os instrumentistas trombeteiros estavam uns no altar da pia do baptistério e outros, pela galilé até à escada onde havia de sair os personagens pertencentes ao baptismo. Na Igreja também não entravam homens de capote, meramente pessoas de casaca e asseadas.

Dispostas assim as coisas, o principal deão, preparado no seu quarto de capa magna com peles, encaminhou-se à Sacristia, acompanhado dos Mestres de Cerimónias Patriarcais e do seu Caudatário. Aí achou já preparados no altar o paramento roxo, amicto, alva, cíngulo, cruz, estola e pluvial e mitra aurifrígia. Estavam também já prontos de sobrepelizes sobre o roquete os monsenhores Rebelo e Valadares assistindo ao referido prelado e também outros mais acólitos patriarcas. Os referidos assistentes encaminhando-se ao prelado, já sentado no faldistório, tirando-lhe o solidéu encarnado e a capa magna. Prepararam-no de roxo conduzindo do altar os paramentos os acólitos. Já a este tempo estava também disposta em duas alas a nossa comunidade no corredor da sacristia, esperando que o dito prelado se paramentasse. O que tudo feito caminhou a Cruz processional Patriarcal, que a nossa comunidade seguiu a dois e dois. Atrás, os acólitos do pontifical e mestres de cerimónia patriarcais e ultimamente sua Exa. com os dois assistentes aos lados pegando nas fímbrias do pluvial. A Cruz ficou logo junta aos cancelos de Santa Bárbara com os acólitos aos lados e a Comunidade ficando logo aí junto da Cruz os mais novos, os mais velhos foram-se espalhando em duas alas até quase junto à capela onde estava a pia do baptistério à entrada da Igreja.

O prelado sentando-se no faldistório que estava na Igreja defronte da capela dos Mártires aí esperou que chegasse perante si toda a comparsa do Paço.

[Entrada na Igreja para o baptismo da menina]

Disposta em comparsa toda a fidalguia do Paço, todos saíam da antecâmara da Menina para a sala dos Veadores, onde estavam as insígnias e o pálio na sala do docel. Vinham adiante da comparsa seis porteiros da câmara com seis maças de prata, e outros tantos sem elas, vestidos todos de suas vestes pretas, com mantelões e cabelos caídos. Atrás destes os arnaltos ou reis de armas vestidos de sendais bordados a ouro. Seguia-se a estes o Juiz do Povo e seu escrivão ambos de vara e vestidos de mantelões e cabelos caídos. Atrás deste a Corte toda e fidalguia. Em último lugar todos os fidalgos de título. Em seguida a estes as insígnias. Em primeiro lugar o Marquês de Pombal que levava o prato dos massapães. Depois deste o Marquês de Penalva que levava uma salva de prata a Veste Cândida. Imediatamente logo a seguir a este o Duque de Cadaval com a vela com os ducatões numa salva. Aos lados de cada um dos fidalgos que levavam as insígnias iam dois moços fidalgos acompanhando-os.

Depois de todos os fidalgos das insígnias seguiu-se o Príncipe Regente Nosso Senhor e os seus Meninos Filhos. Atrás destes, chegado ao pálio adiante iam os Padrinhos Infante de Espanha e a Princesa Viúva. Nas hastes do pálio pegavam os Marqueses mais antigos, indo adiante os mais antigos pelas nobreza e títulos de suas casas e família. Debaixo do pálio pegava na Menina o mordomo mor Visconde de Barbacena, levando ao seu lado de uma e outra parte dois moços fidalgos para o ajudarem a pegar na Menina. Atrás do pálio iam todas as Snras. Pessoas Reais, excepto a Mãe. Iam também todas as Damas do Paço com seus donatários e Camareira-mor com sua irmã.

Toda esta comparsa veio pela galilé, a entrar pela porta principal da Igreja, onde a nossa comunidade a esperava, e juntamente o Prelado Deão junto ao seu faldistório, com os dois monsenhores e os mais senhores patriarcais.

Apenas todos entraram tomando e seguindo os seus respectivos lugares, a Menina conduzida pelo mordomo-mor foi, entretanto tomar posse do seu leito que estava no altar do crucifixo. Concluída esta pequena demora trataram todos se encaminharem pela Igreja acima e o mordomo-mor, levando perante do Prelado Deão a Menina, ele a esperou em pé. Chegou e sentou-se logo, dando princípio às perguntas e exorcismos, tendo aos lados os Monsenhores e mestres de cerimónias Acólitos do Livro, e Candela e os padrinhos da Menina. Prosseguiu todo o acto de exorcismos, ora sentando-se e levantando-se no tempo que tirava a Mitra e cantava as orações. Como expressa claramente o Pontifical para o baptismo dos meninos

[Conclusão do acto de exorcismos e comparsa para a Capela mor]

Completo todo o acto de exorcismos encaminharam-se à Capela mor. Os nossos maceiros principiaram a caminhar, atrás destes a Cruz Patriarcal e nossa comunidade. Atrás seis porteiros da Câmara com as maças de prata, outros tantos sem elas. Logo os arnaltos, passavantes, reis de armas, juiz do povo e seu escrivão, moços de câmara, depois Corregedor do Crime, Corte e Casa. Todos estes ficaram em alas à porta dos cancelos da Capela mor da parte de fora. Logo imediato a estes, os fidalgos de título estes todos entraram para a Capela mor. Atrás logo os fidalgos que traziam as insígnias, que foram tomando os seus lugares no presbitério, e depositando-as na credência as suas insígnias. Os mais fidalgos da comparsa, esses foram tomando os seus lugares no coro onde é costume dentro das cadeiras. Seguiu-se a estes o principal, com os seus assistentes que se encaminharam ao faldistório no lado da epístola. Em conclusão, o Príncipe Regente Nosso Senhor, a Menina nos braços do mordomo-mor, o padrinho e madrinhas aos lados, e atrás do pálio a Camareira-mor e as Damas com os seus donários.

O Príncipe Regente e seu filho, depois de estar já no presbitério, tomou o lugar do costume e seu filho na cadeira do coro. Os fidalgos que pegaram nas hastes do pálio, depois que todos entraram para a Capela mor, tomaram o lugar das cadeiras unidos aos outros.

Tendo todos tomado os seus respectivos lugares, o Principal sentou-se no faldistório e despindo o paramento roxo ajudado dos assistentes e acólitos, tomou o branco e mitra preciosa. E conduzindo o faldistório para o supedâneo no meio do altar, aí se sentou virado para o povo, com os assistentes aos lados. Entretanto, o mordomo-mor conduziu a menina para o leito da capela de S. Pedro de Alcântara e as damas todas e padrinhos da mesma menina acompanharam. Feita a breve demora e cerimónia, caminharam outra vez para a Capela-mor pela porta do lado do Evangelho o mordomo-mor e todo o acompanhamento que dantes tinha ido. As damas todas fizeram alas no plano do presbitério de um a outro lado à frente do altar e o mordomo mor e padrinhos da Menina, ficaram no ínfimo degrau. O prelado deão prosseguiu o acto das perguntas segunda vez, como expressa o Pontifical. E para a acção de baptizado fez mesmo sentado com a mitra na cabeça. Pegando o padrinho na criança e administrando da credência os dois acólitos que traziam a pia e a concha para água. Para a unção dos óleos um acólito trouxe da credência a âmbula, igualmente também a veste cândida e a vela, a que ajudaram os padrinhos como é costume nos baptismos e expressa o pontifical.

Também serviu de submilher de cortina, para limpar com algodão os óleos à Menina, o Principal Furtado, que também era convidado para este fim antes pelo mestre de cerimónias. O seu lugar no coro, era na primeira cadeira, junto ao arcebispo de Braga e ao bispo de São Tomé, ao lado da Epístola.

Completa toda a acção do baptismo, retiraram-se para o leito imperial a Menina nos braços do mordomo mor e todas as mais damas que acompanharam este acto.

O principal deão, tirando-se-lhe a mitra e o faldistório de baixo, virou-se para o altar com os assistentes e levantou o Te Deum aque o coro prosseguiu de música. No fim concluíu com os v. v. e orações progratiarum actione e recebendo depois a mitra deitou a bênção como é costume nos pontificais.

No fim de tudo veio sentar-se e caminharam a Cruz e a comunidade e todo o mais acompanhamento de fidalgos até à porta da Igreja a recolherem-se no Paço e daí para o corredor da sacristia em que se deu fim a todo este acto.