Armando de Lucena - Machado de Castro identifica, num manuscrito inédito, um dos autores dos órgãos de Mafra


 

In Diário de Notícias (1 Jun. 1948)

Machado de Castro não foi apenas, como se sabe, um estatuário de excepcional envergadura. As letras ocuparam-no também, posto que em nível inferior ao da sua craveira artística, cuja personalidade começara a definir-se nas oficinas de Mafra ainda sob a orientação de Alexandre Guisti - o mais lídimo embaixador da estética barroca de Bernini em nossas terras e que, depois, tão perfeita maturação atingira na estátua equestre do Terreiro do Paço, obra-prima da escultura de qualquer tempo e lugar. Excluído do confronto, já se vê, o Colcone de Verrocchio, a estátua de Dom José ocupa lugar proeminente entre todas as espécies desta natureza, quer dentro, quer fora do País. Não sendo esta obra legítima inspiração sua, uma vez que ela reflecte determinadas sugestões do arquitecto Eugénio dos Santos, que, por sua vez, as teria criado no curso das viagens preparatórias para o estudo técnico da reconstrução da capital, após o cismo de 1755, não falta quem, por esse facto, ponha reservas na apreciação crítica de tão assombroso trabalho.

Machado de Castro, como dizíamos, não limitou a sua prodigiosa actividade a dar forma ao barro e à pedra, no que foi mestre inexcedido e raras vezes igualado, no seu tempo. Com efeito, o maior animador dos Presépios, o egrégio lavrante de estátuas de reis e de imagens de santos, de então, cultivava igualmente as letras, pois fazia da palavra um instrumento de comunicação de ideias tão frequentemente e apaixonado como do próprio teque e do cinzel.

O estilo da época e a limitada cultura literária do artista não o levaram, é certo ao nível da sua posição de estatuário eminente: mas foram úteis as suas dissertações, embora só de pitorescos possam considerar-se alguns desabafos sentimentais que deixou escritos. Tanto na prosa como no verso, Machado de Castro mostrou ser um espírito redundante e farfalhudo, talvez mais do que a época permitia. Como pano de amostra basta citar-se a complexidade descritiva deste título: Análise gráfico-ortodoxa e demonstrativa, de que sem escrúpulo do menos erro teológico, a Escritura e Pintura, podem, ao representar o Sagrado Mistério da Encarnação figurara vários anjos.

A despeito disso, algumas obras suas, deste género, possuem fundo didáctico apreciável, mas sempre enfáticas e cheias de preciosíssimos que denunciam o inveterado verbalismo do autor. Merecem consideração especial duas obras saídas d a sua pena: o Discurso sobre as utilidades do desenho e a Descrição Analítica da Real Estátua Equestre.

Os seus noventa anos bem puxados deixaram um capital de palavras talvez superior ao número de dedadas postas sobre a argila das estátuas e dos baixos-relevos que executou. Nem todos os seus escritos chegaram à publicidade. Dos inéditos que nos foram revelados, um o diário da sua vida anda perdido em longa vadiagem de muitos anos; outro tivemos a fortuna de compulsar e intitula-se O Zénit da Ingratidão ou o egoísmo exaltado, de que hoje nos ocupamos. Alguns cadernos de papel salpicados de caligrafia miúda, torturada de emendas sucessivas, formam um conjunto de relações muito proveitosas no estudo da época em geral e, particularmente, da sua actividade artística.

Como todos sabem, a Basílica de Mafra possuí um jogo de órgãos tão notável pela qualidade musical como apreciado pelo esmero decorativo das caixas. Não é igualmente, novidade para ninguém a autoria dessas importantíssimas peças tanto mais que se encontram datadas e assinadas. Seis magníficos exemplares ainda do tempo de Dom João V não tiveram de princípio, ao que parece, o espiendo artístico e luxuoso tão próprio das iniciativas deste monarca; por isso, ou por ou por outras razões razões é que, mais tarde, Dom João V lhes mandou substituir a arquitectura exterior, digamos assim, para o que foram chamados os melhores organeiros que então, se sabiam; Joaquim António Peres Fontana e António Xavier Machado. Aquele deve pertencer à família do primeiro construtor de órgãos da Basílica, o espanhol João Fontanes: quanto

ao Machado carecia de referências que o identificassem, falta agora preenchida pelo texto do Zénit da Ingratidão ou egoísmo exaltado, manuscrito inédito de Machado de Castro, na posse da família do ilustre médico dr. Ferreira Cardoso, a quem devemos a gentileza da sua consulta, e de que, noutra oportunidade, se dará mais larga e merecida notícia.

O organeiro António Xavier Machado é, simplesmente, um dos irmãos daquele grande estatuário, e por ele levado para Mafra no tempo em que viviam em perfeita harmonia familiar. Mais tarde, devido a graves desinteligências entre si, os dois irmãos entraram em guerra viva, conflito que justificou o manuscrito em questão - desabafo, por vezes, tão violento e exacerbado que levou o magoado escultor a omitir o apelido Machado quando se referia ao irmão, grafando sempre: António Xavier [...] Cerveira.

Anteriormente, já esse irmão se evidenciara como organeiro hábil na encomenda que o "Ex.mo Gram lhe fizera para a igreja do seu convento". Diz mais o autor do mesmo manuscrito não ficar por ali a actividade de seu irmão: indica como da sua autoria, também, o órgão da igreja dos Mártires, cabendo-lhe, igualmente, a conclusão dum órgão que as freiras do Lorvão haviam mandado fazer a seu pai, oficial do mesmo ofício, obra aliás, que este não pôde levar ao fim vistas a idade e as moléstias do pai.

Deve ter sido trabalho de grande mérito e valia, pois foi ajustado por seis mil cruzados, e seguiu o risco que o próprio Machado de Castro para ele expressamente fizera.

Quanto aos órgãos de Mafra, não há entre nós, nada que os suplante. Feitos de vinhático polido com aplicações metálicas, especialmente os da capela-mor ornamentados também com belíssima talha dourada. "Para os ornatos de bronze que viriam ornar as novas caixas fizeram-se modelos no Palácio das Necessidades, diz-nos Machado de Castro no seu manuscrito, onde os meus ajudantes de Escultura foram algumas semanas modelar em barro, a cuja inspecção assistiu o senhor Joaquim José de Azevedo, depois Barão do Rio Seco.

Grande categoria devia ter como organeiro o irmão de Machado de Castro a avaliar pela remuneração de dez moedas por mês que o arquitecto Manuel Caetano de Sousa lhe atribuiu, acrescida de dois cavalos com um criado das R. Cavalariças, comodidade computada em 3$200 reis por dia.

A beleza e o valor dos órgãos da Basílica de Mafra não podem passar despercebidos aos olhos de portugueses como não escaparam à sensibilidade de Byron, que o classificou, quanto à decoração, "os mais belos que conhecia".