Apresentação


A Tapada de Mafra constitui a maior mancha florestal do concelho homónimo (1187 hectares), um cenário de alta qualidade, com inestimáveis potencialidades turísticas, cinegéticas e ambientais (regulador atmosférico), achando-se diversos dos seus endemismos classificados, desde 1987, no âmbito do Programa Corine (Biótopo Corine / Landcover).

A Tapada confronta com as actuais freguesias de Santo André (Mafra), Gradil, Vila Franca do Rosário e Malveira.

Foi criada por decreto de D. João V, datado de 18 de Julho de 1744, achando-se o Magnânimo nas Caldas da Rainha, onde se tratava da parilisia que lhe sobreviera em 1742:

 

Fui servido mandar demarcar, junto à vila de Mafra, terras para se formar uma tapada para meu real serviço, as quais mandei avaliar para se pagarem a seus donos pelo seu justo preço; e, porque, por ocasião desta obra, são obrigados os moradores das ditas terras a saírem delas e estabelecerem em outras a sua habitação, o que poderão conseguir mais comodamente nos distritos das mesmas terras que largam, sou servido que, requerendo-o o corregedor do crime do bairro da Mouraria, Eusébio Tavares de Sequeira, a quem encarreguei a sobredita diligência das avaliações, o senado da Câmara de Lisboa mande logo demarcar proporcionalmente aos referidos moradores, em sítio pertencente à jurisdição do mesmo senado, e lhes faça expedir título com o foro que parecer justo, precedendo arbítrio de louvados nomeados pelas partes [...] (Senado da Câmara de Lisboa, liv. 18 de cons. e dec. de D. João V, fl. 226).

 

Na sequência deste decreto, seria contratada (7 de Agosto) com Gregório Coelho e Felício Nunes a empreitada da construção do muro de pedra e cal com a extensão de 21 km que vedaria a Tapada, à excepção de seis portões: Mafra, Paz, Murgeira, Codeçal, Gradil e Vermelha.

Todavia, só três anos volvidos (1747), o tabelião Martinho Roussado, de Mafra, começaria a lavrar as trinta e três escrituras relativas às expropriações do terreno ocupado pelo Monumento de Mafra (Convento / Palácio, Cerca e Tapada).

As primeiras caçadas reais de que há notícia na Tapada ocorreram a 5 e 6 de Outubro de 1750, com a participação do recém-aclamado D. José I.

Uma das primeiras descrições conhecidas, do ano seguinte, faz referência à diversidade biológica que já então a caracterizava:

 

[...] cercada por um muro de quinze palmos de alto e quatro de largo no alicerce e acabando em dois, está povoada de muitas rezes, veados, corsas, gamos e porcos, de que está bem provida, por ser terra natural não só para criar estas rezes mas também para produzir lebres, coelhos e perdizes de que é abundante [...].

 

Em 1799, um memorialista sublinharia que "[...] nunca lhe falta a caça [...], não obstante a frequência deste exercício todos os dias e muitos outros na roda do ano [...]”.

Desde logo, porém, diversas vicissitudes haviam de atingir a propriedade, tais como desmandos administrativos, incêndios, invasões francesas (responsáveis pela edificação dos Fortes do Juncal, do Sonível, da Milhariça e do Valério, incluídos na segunda das Linhas de Torres, no interior da propriedade), etc., relatadas numa minuciosa Memória-Histórico-Justificativa produzida pelo administrador (1834-1837) Roussado Gorjão.

Com D. Fernando de Sax (1840) a Tapada tornar-se-ia palco de outras actividades, além das venatórias (Alexandre Herculano alude às vantagens da sua transformação em Granja Real (Questões públicas - A Granja Real de Mafra, in Opúsculos, v. 7, 1843).

Com efeito, por iniciativa do Príncipe consorte teria início a criação de potros de Alter (Coudelaria de Mafra, extinta em 23 de Setembro de 1859), tal como, algumas décadas depois, se assistiria à reflorestação da propriedade e ao traçado de um jardim, a cargo do jardineiro francês Bonard.

No ano de 1871, seria instalada a Carreira de Tiro e, em 1890, a Tapada de Fora era entregue à jurisdição do Exército (Livro de Registo, fl. 64v) e, posteriormente (1908), ao Depósito da Remonta.

Durante os reinados de D. Luís e D. Carlos, a Tapada Real de Mafra conheceria um dos seus períodos áureos como Parque de Caça, tendo-se procedido ao seu repovoamento e rearborização, e construído um Pavilhão de Caça no Vale do Celebredo, ainda hoje em bom estado de conservação.

Com a implantação da República, a Tapada Real deixaria de ser domínio privado, passando a denominar-se Tapada Nacional de Mafra e entrando num período de indefinição quanto ao destino a dar-lhe: em 1911, um parecer era favorável à entrega da propriedade aos Serviços Florestais. Por seu turno, João Paulo Freire preconizaria em Fogos-fátuos (Porto, 1923) a transferência da Penitenciária de Lisboa para o Monumento de Mafra, destinando a Tapada a zona de trabalho para a generalidade dos reclusos e o Jardim do Cerco a horta mantida pelos criminosos menos perigosos.

Enfim, como corolário das administrações de D. Francisco Pereira Coutinho (1936) e de Segismundo Saldanha (1940), um decreto-Lei criaria, em 1941, o Parque Nacional de Caça, sendo a Segunda e Terceira Tapadas entregues à administração dos Serviços Florestais.

Durante a década de setenta, e por incentivo do Prof. Baeta Neves, seriam realizados diversos estudos, contemplando um alargado leque de objectivos, mas designadamente o estudo das várias populações animais e, obviamente, da vegetação, bem como ensaios de fogo controlado.

A partir de 1974, a propriedade entraria numa fase de declínio, pontuada por diversos incêndios que haviam de motivar o seu encerramento ao público. No ano de 1985, seria classificada como Zona de Caça Condicionada (caça de espera aos javalis e de troféu aos gamos e veados) sendo que, quatro anos mais tarde, a designação era alterada para Zona de Caça Nacional da Tapada Nacional de Mafra.

Posteriormente, em 1992, a sua concessão era, por decisão do Conselho de Ministros, cedida à Empresa Nacional de Desenvolvimento Agrícola e Cinegético, S.A. (ENDAC, S.A.), sociedade de capital exclusivamente público, dependente do Ministério da Agricultura, entretanto extinta (tal como a Escola Nacional de Falcoaria, única no género em Portugal, criada na Tojeira com a colaboração do Centro Falco - Associação Científica para a Reprodução de Aves de Presa) para dar lugar, a 21 de Janeiro de 1998, a uma Régie Cooperativa (Tapada Nacional de Mafra - Centro Turístico, Cinegético e de Educação Ambiental) que, doravante, se responsabilizaria pela gestão da propriedade, na qual participam o Estado (51%), a Câmara Municipal de Mafra (23,4%) e diversos outros cooperantes (3,2 % cada um).

Além de poderem disfrutar de um património natural e ambiental impar, os visitantes da Tapada têm ainda à sua disposição os Museus da Caça e dos Carros de Tracção Animal (breques, aranhas, landaus, victórias, faytons, coupés, etc., arreios, selas e outros apetrechos de equitação).

 

 

Actualmente, a Tapada acha-se dividida em três parcelas, a saber: Tapada de Fora ou Primeira Tapada, com 360 hectares de área aproximada, incluindo o Jardim do Cerco (com cerca de 8 hectares); Tapada do Meio ou Segunda Tapada, constituída por cerca de 346 hectares, na qual se localizam os pontos mais elevados (Alto da Aguda com 276 m e o Alto das Lombas com 260 m) e o mais baixo (Porta do Codeçal); Tapada de Dentro, Terceira Tapada ou Tapada do Norte, com aproximadamente 476 hectares, caracterizada pelas encostas mais íngremes e os vales mais apertados de todo o conjunto. A primeira Tapada (à excepção do Jardim do Cerco, sob administração da edilidade) encontra-se afecta à Escola Prática de Infantaria e ao Centro Militar de Educação Física e Desportos (CMEFED), ao passo que as outras duas parcelas (unidas) estão desde 1941 sujeitas a regime florestal total, sendo ora geridas por uma Régie Cooperativa, criada em Janeiro de 1998.