Alberto Pimentel - Ainda em Mafra


(Revista da Semana)

Folhetim do Diário Popular de 1897 (in A Voz de Mafra, 23, 30 Abr. e 7 Mai. 1916)

Alberto Pimentel

 

Perguntei-lhe se estava contente com a paróquia. Respondeu que sim; que não tinha mais nem maiores ambições. Sois protegido pelo bispo de Lisboa junto de el-rei - lhe disse eu - e portanto ireis a melhor destino.

- Mas tudo isso não passa de sonho... observou o leitor.

- Pois é apenas sonhando que se pode conversar com os mortos. Eu perguntei-lhe se tendo nascido em Lisboa e vivido em Paris, não sentia alguma hora saudades do mundo. Concentrou-se por instantes, como quem tem no fundo do peito um segredo íntimo, e respondeu tranquilamente. «A solidão dá menos desenganos do que o mundo, vive-se melhor na solidão.»

- Lá está você, exclama o leitor, a querer arquitectar o romance dos amores mal correspondidos!

- Que não será verdadeiro, mas é verosímil. Um rapaz, na flor dos anos, que podendo seguir outra profissão, para a qual estudou, muda repentinamente de rumo e se faz padre, é por força herói de um romance malogrado - um romance de amor desventuroso.

- Mas que disse mais o vigário?

- Que vinha de passear do Alto da Vela, que era o sítio, então solitário, onde hoje está edificado o convento. Talvez os moiros tivessem aí construído alguma atalaia. Veja o que são os tempos! No século XIII os moradores da antiga Mafra vinham passear para a solidão da Vela, como os habitantes, da vila actual se querem encontrar a solidão vão procurar a Vila Velha. E não é preciso chegar lá para uma pessoa poder considerar-se triste e só. Quem descendo pela rua da Boavista subir pelas ruas Serpa Pinto, terá feito a volta dos tristes, como aqui dizem hoje apesar de transitar por entre duas filas de prédios habitados. Mas o sítio é melancólico e silencioso e tem como pano de fundo o mar e os pinheiros, que são a expressão dolorida da paisagem portuguesa. Pedro Júlio disse-me que ia fazer a oração do Angelus e recolher-se depois ao presbitério, porque as suas noites começavam quando o sol morria. Que boa noite vos dê Deus Nosso Senhor respondi-lhe eu mas sempre vos quero dizer que, jovem e protegido, não vos demorareis aqui por muito tempo. Diz-me o coração que, com o auxílio do bispo D. Mateus e de el-rei Afonso III, ireis subindo altos cargos, ao cardinalato e ao pontificado, talvez. Pedro Julião sorriu incrédulo e perguntou irónico: «É uma profecia?» Eu Ninguém é profeta na sua terra, mas a minha terra não é esta.»

- E acertou!

- Acertei, Pedro Julião saiu de Mafra para ser tesoureiro mor da Sé do Porto.

Depois, perlustrando diversas honrarias eclesiásticas, foi arcebispo de Braga, cardeal e papa com o nome de João XXI. Se ele, no sólio pontifício, se lembraria alguma vez da sua modesta igreja de Mafra? Sabe o leitor que ainda há nesta vila uma vaga mas errada tradição a respeito daquele pontífice? Dizem que nasceu no arrabalde denominado Cabeços, quando é certo ter nascido em Lisboa.

- Viveria lá sendo pároco da Vila Velha.

- Eu sei! Mas tão longe da sua igreja! E talvez, porque as tradições têm sempre por fundamente alguma coisa de verdade, embora desfigurada. Não foi Julião, porém o único presbítero que, principiando a sua carreira em Mafra, chegou a uma elevada posição eclesiástica. O patriarca de Lisboa D. Inácio aqui exerceu o cargo de capelão da ermida dos Mortais. Mal poderia sonhar então com chapéu cardinalício, tanto como Pedro Julião com a tiara.

Ora naquele dia, depois de me ter despedido do papa João XXI, parei a olhar para o antigo paço do Marquês de Ponte do Lima. Diz-se ainda que de uma janela do palácio, fronteira à porta da igreja, costumava o fidalgo ouvir missa. Achando a porta aberta, entrei. Percorri todas as casas; estive no quarto do Marquês que tinha alcova e

fogão. O rodapé de azulejo está menos mal conservado ainda. Passei à capela onde encontrei um retábulo em barro, que seria fácil restaurar, e alguns santos mutilados, apeados no chão. Depois pensando na decadência das famílias ilustres meti caminho abaixo tomando gosto à solidão do sítio.

Apenas encontrei um saloio, em que fiz reparo.

Os saloios de Mafra deixaram perder as cores garridas dos seus antigos carapuços que eram azuis e encarnados: aqueles, tendo às vezes uma orla de feltro vermelho: estes de feltro branco. Hoje o barrete é geralmente preto e monótono, dando logo à primeira vista a impressão de que sob esse resguardo negro, funciona um cérebro refractário a todas as ideias estranhas à concentração obstinada na ganhuça e na avareza.

A faixa também é negra e sempre foi.

As cores vivas, que são dinamogéneas, a que correspondem sentimentos fortes e pensamentos estimulantes, desapareceram absolutamente do traje saloio.

Outrora, qualquer que fosse a estação, na zina do Verão ou no coração do Inverno o saloio usava, em todos os actos solenes, um capote azul; de capuz extenso.

Era a sua casaca de grande gala para casamentos e baptizados.

Quando no real edifício de Mafra esteve o colégio militar, um ano, pelo Carnaval, os alunos, que não seriam menos de duzentos, correram a ovos de cheiro e esguichos de bisnaga um bando de saloios, vinte ou trinta que vinham assistir a um casamento.

A saloiada, para salvar os capotes, fugia a pés de cavalo numa grande aflição de medo e os rapazes foliões, experimentando os seus brios militares, deram-lhes uma carga a fundo, varrendo o terreiro num momento, a ponto de se não saber mais dos noivos, dos padrinhos e convidados.

Calcule-se o desespero do saloio, se o belo capote azul apanhou alguma gemada. Mas, no correr do tempo, o capote desapareceu sem ninguém o extinguir.

Ficou o carapuço negro, ficou a faixa negra, ficaram as calças esticadas, tão cosidas às formas do corpo, que pode supor-se que os saloios já nascem de calças.

O relógio do convento bateu sete horas fazendo-se ouvir ao longe. Retrocedi, vim subindo para a Mafra moderna, e então deu-me de rosto o convento, que rebuçava o enorme vulto nas primeiras sombras da noite, preparando-se para dormir.

- O que vale o saloio vivo, perguntei eu a mim mesmo, ao pé do frade morto? Foi o convento que fez a vila actual: ela não é senão o que ele foi. Por isso o frade vive ainda e viverá sempre na memória do povo de Mafra, porque o convento será eterno.

Tendo ouvido contar várias histórias dos frades, que nunca procurei com tanto interesse como agora.

Quando eles estavam quem recebia as cartas no correio eram umas, a cuja casa os destinatários iam buscar a correspondência.

Tinha acabado de chegar a Mafra um frade novo, que foi ver se haveria cartas para ele.

- Então sr. frei José, perguntou-lhe uma daquelas senhoras, que tal lhe parece a nossa vila?

- Minha senhora, sempre é uma terra que principia por MÁ!

A resposta não agradou, e o frade recebeu em troco este epigrama:

- Qual! O pior que ela tem é acabar em FRA!