Aires de Saa - El-Rei D. José em Mafra


 

Ayres de Saa

Ao meu querido Amigo

Dr. Dom Thomás de Mello Breyner, Mafra

 

Um dos maiores divertimentos dos senhores reis de Portugal, depois do fundador do Paço-Mosteiro de Mafra, tem sido demorarem-se alguns dias caçando nas famosas tapadas que, de uma forma genérica e abreviada, se chamam, no singular: Tapada de Mafra.

É um sítio notável nos arredores de Lisboa, aquele sítio: construção geológica, fauna e flora, extraordinários pontos de vista, reunindo tudo, leva-nos para muito longe donde efectivamente estamos: a fauna é talvez única em Portugal: veados enormes e altivos, gamos saltadores e desconfiados: zebús, malhados de cores vivas movendo com indolência as enormes corcovas; ginetes corredores, raposas e milhares de coelhos, saltando, ou movendo-se devagar, segundo as intenções da raça.

Quanto aos javalis, somem-se, de raro se vêem; muito batidos em dias de caçada, passam muito além, lá por entre os últimos montes, não lhes chegam as balas.

Às vezes, as histórias de lareira aparecem-nos realizadas: ao meio duma avenida, dum túnel altíssimo de verdura que mal deixa doirar o caminho com os últimos raios dum sol poente de Outono ou de Primavera, está parado um veado, dir-se-ia uma estátua, não se move; está indiferente ou ameaçador? O pó doirado dá-lhe brilho ao pelo castanho luzidio; aproximamo-nos, e, quando já perto, queremos vê-lo melhor, paramos; o veado fascina, e, se não quiser ceder-nos a passagem, teremos de nos curvar e passar por outro sítio: ainda mais perto, a evocação da cena contada acerca de Humberto, que dizem santo Humberto, é mais, é mais forte; mas, súbito, o veado voltou a cabeça, voltou-se e, lentamente, desapareceu: seguido da sua querida cerva, alta, nervosa e graciosíssima, que, medrosa, esperava, para além, entre as árvores, as resoluções do seu majestoso senhor.

E, quando o Sol já se pôs e a Lua vem nascendo, estas cenas atingem o melhor colorido de certos quadros que se pintaram acerca de Lancelote de Amadis.

Lá mais abaixo, os gamos, aos rebanhos de dez ou quinze, levantam a cabeça sentindo a bulha dos passos sobre as folhas secas; pequenas, de cores variegadas e armações espalmadas, desconformes ao seu tamanho, mudam o respeito que tivemos lá mais acima, quando vimos os cervos, em carinho, e pretendemos chamar à mão esses representantes do polo Árctico, da mesma forma que avançávamos com temor em frente dos seus vizinhos.

De Verão, o vale onde corre um afluente do Sobral é o lugar favorito da veação, junto da água cristalina; e os gritos selvagens que, de quando em quando, ecoam nos montes solitários, respondem, a muitos quilómetros de distância, aos gritos anunciadores da Primavera que, pela noite adiante, vão dando os pavões, no jardim do Paço, onde crescem plátanos e eucaliptos gigantes e se conserva a sombra eterna sob as arcadas de buxo.

A flora da primeira tapada é rica, a das duas seguintes tapadas é pobríssima, mas seria rica se não houvesse caça e se se aproveitassem as águas abundantes, agora correntes, em grandes tanques isolados, onde menos se esperam, de forma que parece terem sido construídos num tempo em que ali existissem culturas e jardins, quando é certo que só para alimento da caça os mandou fazer o pródigo fundador.

Muito mato e muito poucas árvores, eis a flora das duas tapadas inferiores em plano.

Do alto do Sonível, onde se encontra um dos fortes que defendem Lisboa, nas últimas posições das linhas de Torres Vedras, hoje coberto de mato, à espera doutro Napoleão, os montes para o Norte semelham altíssimas vagas dum mar furioso que tivesse petrificado ao arremeter para o Sul: aquela vista inspiraria uma organização profética a vaticinar o que sucedeu no princípio do século XIX; agora, os gritos das águias lembram clamores de náufragos, parece que sobre as ondas, gigantes e imóveis, perpassam as sombras de Massena, de Junot e de Ney, ora afagando-se, ora arrebatadas por esse potente gerifalte que se chamou Wellesley.

Para Este esbatem-se os planos e ao Sul levanta-se a Serra de Cintra, onde os celtas elevaram um templo à Lua, Diana dos romanos, e hoje se ergue, no mais alto, o paço mais querido da Rainha; a Oeste o mar, aqui e ali pontuado de negro, é um transatlântico; a Noroeste as Berlengas, guardas avançadas do extremo Ocidente.

Por aqui passou D. João V, orgulhoso da sua fundação; por ali passeava D. José I, considerando nos bons conselhos que lhe dera D. Luís da Cunha acerca de Sebastião José de Carvalho; acolá perpassou a figura sombria de D. Maria I, vendo em cada árvore um frade, sentindo em cada movimento uma ofensa a Deus; sempre regente, além vai o príncipe D. João, meditando nas excelências que lhe proporcionara o seu famoso bisavô, nem calculando os futuros desastres que essas mesmas excelências lhe proporcionariam; o príncipe e o Infante D. Pedro e D. Miguel vão ali sem saber o que meditará Metternich e o que farão os ingleses.

Já depois, é uma espécie de aurora, majestosa e formosíssima passa D. Maria II; umas vezes cercada dos seus generais, outras, conversando com a sua camareira mor, a ilustre Duquesa de Ficalho, e ensinando a ser cortesíssimos, os seus infelizes filhos.

A figura taciturna e nobre de D. Pedro V, lá vai de cabeça, à direita do seu verdadeiro amigo José Jorge Loureiro, surpreender as misérias dos militares aquartelados no extinto mosteiro; naquela avenida, passeia D. Luís I com o seu bom amigo e camarista Conde de Mafra; e quanto não diriam estas árvores se falassem de política, se elas soubessem saberiam dizer-nos toda a história de trinta lustros de redenção, de invasões, de revoluções, de nova redenção e de novas prosperidades e desgraças.

Essas árvores ouviram os segredos de Portugal, no tempo da grandeza, escutaram os famosos rasgos da política pombalina, sentiram, depois, a reacção viram as famosas tropas do Duque do Duque de Abrantes comandadas pelo conde de Loison, depois, as de Wellington; os conselhos dos cortesãos e as durezas dos ministros democratas, tudo elas contariam se falassem tudo elas teriam ouvido, e visto se ouvissem e vissem, porque junto delas se passaram durante um século, factos que decidiam na vida da nossa nacionalidade.

Será quando daqui a longos anos, um erudito continuador do Conde de Sabugosa escrever a história deste paço e deste mosteiro, que essas cenas hão-de ser evocadas e se reconstituirá um passado de extraordinária opulência e de extraordinária miséria.

Mais para ele do que para nós, aqui vai uma transcrição dum folheto colhido na Biblioteca Volante, existente na Biblioteca Real do Paço de Mafra, sob o nº 55-7-22; se um dia se perder, e não aparecer outro exemplar, recorrerá o historiador a este número de A Caça:

El-Rei D. José, sempre nobre e prudente, conta 38 anos; sua mulher, a rainha D. Mariana Vitória de Bourbon, não formosa de posto, mas robusta e donairosa, tem 34 anos; suas filhas, a elegantíssima D. Maria Francisca Isabel, princesa da Beira e agora do Brasil; vão fazer 18 anos; D. Maria Ana Francisca completa 16 anos em 7 deste mesmo mês, de Outubro; D. Maria Francisca Doroteia, já fez 13 anos; ambas formosas.

O infante D. Pedro, irmão de El Rei, tem 35 anos.

O infante D. António, tio de El Rei, irmão de D. João V, tem 57 anos; "No exercício da caça ninguém o excede, porque com natural propensão a segue sendo incansável, manejando as armas, ou seja, na montaria com a lança, ou no campo com a espingarda, em uma, e outra parte a fortuna, e a ciência militam igualmente obedientes ao seu braço, o que também se vê quando exercita no jogo das armas, em que o forte, e o primoroso compete com a destreza" 1.

O infante D. Manuel, irmão de D. António, tem 55 anos, bem empregados na guerra.

João Xavier, deve ser o da Silveira que fora estribeiro de El Rei D. João V.

A corte elegante, formosa, altiva e buliçosa, ao lado de trezentos frades menores, humildes nos seus hábitos e nas suas sandálias, devia ter que ver; e quantas vezes não se moveriam ódios entre as mais belas damas, soberbas nas suas toilletes cobertas de pérolas, calçadas de seda e oiro, porque um pobre noviço, de hábito roto e descalço, se curvara mais ante uma, do que ante outra?

Quantas vezes essa vida dos menores em Mafra, tão bem descrita por frei João de São José do Prado, no seu Cerimonial, não seria agitada pela proximidade da corte?

O roçar do burel pelas sedas, o cruzar dos frades descalços e em sandálias pela corte emplumada, é largo tema que a literatura deve estudar, porque mais lhe pertence do que propriamente às ciências históricas.

Agora, leia-se este documento que reconstitui a vida no Paço-Mosteiro de Mafra, no tempo em que revestiu o mais famoso esplendor.

Relação em que se dá conta da jornada que fizeram suas majestades e altezas e a maior parte da nobreza da corte a ganhar o santo jubileu à Real Basílica de Mafra, e cópia do breve por onde ele foi concedido, para cujo fim concorreu grande concurso de pessoas de todos os sexos deste Reino. Dá-se notícia do número das pessoas que se confessaram e comungaram, e das que crismou o excelentíssimo bispo de Macau e da caçada real que suas majestades fizeram, e do número de vezes que mataram [...], Lisboa, ano de 1752

NOTÍCIA DO SANTO JUBILEU DE MAFRA

O eminentíssimo senhor cardeal patriarca nomeou os primeiros 15 dias do mês de Outubro de cada ano (segundo o breve do santíssimo papa Clemente XII 2) para os fiéis concorrerem a ganhar o santo jubileu de indulgência plenária e remissão de todas as culpas, e poderem ser absolvidos de todos os pecados por mais enormes ainda conteúdos na bula da Ceia. O ano passado não houve plena notícia, causa porque não concorreram os fiéis; porém, este ano, porém este ano, por advertência do padre provincial frei João de Santa Teresa, se mandaram cópias do breve para várias terras, e por ordem sua vieram religiosos confessores de outros conventos, para melhor comodidade dos fiéis; no primeiro dia do mês, que foi a dominga do Rosário, se achava a vila de Mafra, com inumerável concurso de povo que de mais de 60 léguas concorreram 3 a buscar o remédio da salvação. Todos os dias e noites era o concurso grande; no dia 3, pelas 5 horas da tarde, chegaram suas majestades com a Princesa do Brasil e as infantas suas irmãs, o sereníssimo infante D. Pedro, e o sereníssimo infante D. António, todos em seges, acompanhados de vários criados e moços da estribeira; assistiram na tribuna às matinas que capitulou o excelentíssimo bispo de Macau, D. frei Hilário de Santa Rosa, de pontifical, e no fim delas se retiraram, e no domingo, 8, de tarde, crismou o excelentíssimo bispo, coisa de 700 pessoas.

No dia 4 ganharam suas majestades e altezas o santo jubileu e, também, o sereníssimo infante D. Manuel; assistiu 4 sua majestade e altezas, no coro, e a Rainha,

com a Princesa e infantas, na tribuna, ao pontifical que fez o excelentíssimo bispo de Macau, e ao sermão que pregou o padre mestre frei Sebastião de Santo António, discorrendo com a sua costumada erudição de que é prendado, e foi, de suas majestades e altezas, atendido. Acabado o pontifical ouviram suas majestades e altezas, missa na capela da Conceição e, depois do coro, foi com a comunidade para o refeitório, à porta do qual se achava João Xavier, porteiro da Câmara de sua majestade, e alguns guarda-roupas, e vários criados; dito o salmo de profundis pelas almas, como é costume, entrou a comunidade para o refeitório, indo no fim sua majestade e altezas, assistido dos seus camaristas; e todos foram para as mesas travessas, ficando João Xavier e guarda-roupas à sinistra dele, no meio, e os mais criados e povo à porta.

Assentou-se sua majestade e altezas, ficando os camaristas em pé defronte, o que também fez a comunidade toda, e o excelentíssimo bispo de Macau também junto do Provincial; começaram a vir as iguarias para sua majestade e altezas, as quais traziam religiosos e as entregavam aos camaristas para as porém na mesa e tirarem; a comunidade foi servida como é costume.

Acabada a mesa, e dadas as graças, veio a comunidade cantando o Te Deum para a capela, e, no fim, sua majestade e altezas, camaristas, guarda-roupas e mais criados; e, depois, lhe beijaram a mão o Provincial e a maior parte da comunidade e se retirou 5 sua majestade e altezas, para o paço, e os camaristas, e mais criados vieram com a comunidade para o refeitório, aonde estava preparada a mesa com a distinção das pessoas; sendo assistidos dos religiosos graves.

Depois de vésperas, que foram de pontifical, se tocou às aulas; na casa do capítulo se achou a comunidade, e nela fizeram o juramento o regente dos estudos e mais mestres, e se leram os estatutos novos dos estudos, assistindo, sua majestade e altezas, na tribuna da mesma casa, e dela foram para a tribuna da casa dos actos, aonde se fez a oração de sabedoria, pelo mestre de prima, e a segunda pelo mestre de lógica; e acabou todo o acto às 5 e meia da tarde.

No dia 5, pelas 11 horas, foram suas majestades e altezas, para a tapada onde mataram três veados, 15 gamos e 3 porcos, e apanharam um vivo. No segundo dia mataram 3 veados e 6 gamos. No terceiro mataram 14 e um porco vivo e muita caça miúda. No domingo, 8, pela 1 hora da tarde, se retiraram à Corte, pela mesma ordem [em] que foram.

Concorreu grande concurso de povo a esta Real Basílica, para ganharem o santo jubileu, e se sabe veridicamente, pela sagrada comunhão, foram no número de 23.429 pessoas; sendo tão grande o cuidado do reverendíssimo padre provincial que ordenou o número de 60 confessores para a boa despedição das confissões, os quais se achavam tão prontos que, desde as 5 da manhã até às 7 da noite, se ocupavam neste santo exercício, deixando a todos tão consolados como satisfeitos; sendo muito maior o concurso no último dia do sagrado jubileu, ao que tudo se satisfez com a costumada caridade, para honra e glória de Deus e proveito das almas."

* * *

N'A Caça, de Agosto e de Setembro do ano passado, publicámos um artigo e uma notícia, acerca da estada das Majestades e Altezas, em Mafra, de 3 a 8 de Outubro de 1752.

Estudando outros assuntos, encontrámos, agora, a notícia da estada das Majestades e Altezas, em Mafra, de 3 a 7 de Outubro de 1750.

Esta notícia deve ser junta à que já publicámos, por dois motivos:

Primeiro - Porque refere a primeira vinda, a Mafra, de D. José, de D. Maria Ana Vitória e das Altezas, depois da morte de D. João V.

Segundo - Porque refere circunstâncias novas, para nós, não sucedidas em 1752.

Particularmente, interessa o que diz, ainda que diz pouco, acerca das caçadas realizadas, nos dias 5 e 6 de Outubro de 1750, na Tapada.

Pode-se considerar, esta visita, tomada de posse; seria a primeira vez que, o sensatíssimo D. José, caçava, depois de ser rei.

Aquele rei famoso, que soube pôr a fortíssima arma da sua confiança na mão do maior caçador de inimigos da Caça de Bragança e da independência de Portugal, caçou pela primeira vez, depois de ser rei, no dia 5 de Outubro de 1750, na sua tapada de Mafra.

A notícia intitula-se: Relação da plausível jornada que Suas Majestades Fidelíssimas com toda a Família Real fizeram ao seu magnífico Convento da Vila de Mafra pela festividade do grande patriarca de S. Francisco - N'este ano de 1750 - Notícia verídica da formalidade com que ali foram recebidos, e de tudo o mais que se praticou nos dias que honraram aquele sítio com as suas augustíssimas presenças, até se restituirem á Corte de Lisboa. É anónima.

Encontra-se na colecção chamada Biblioteca Volante, existente na Biblioteca Real do Paço de Mafra, sob o nº 24-8-9.

Não fizemos a transcrição na integra, porque teríamos que tomar dois terços do espaço com palavras laudatórias e, portanto, inúteis; vão os factos, vão os comentários laudativos e enfáticos.

Mais do que continuando, pertencendo, esta segunda parte, à parte primeira, é claro que não repetimos, por subentendida, a dedicatória ao nosso bom e querido amigo Dr. Dom Thomás de Mello Breyner (Mafra), que tem em grande apreço tudo quanto se refere ao Paço-Mosteiro que está na terra que foi do senhorio de seus avós e condado de seu honrado Pai.

* * *

El-Rei D. João V morreu às sete horas e meia da tarde de 31 de Julho de 1750, e a rainha, sua mulher, D. Maria Ana de Áustria , às quatro horas e meia da tarde de 14 de Agosto de 1754.

Na véspera do dia de S. Francisco, 3 de Outubro de 1750, chegaram, a Mafra, D. José, rei, havia dois meses, a rainha sua mulher, D. Maria Ana Vitória de Bourbon, a princesa do Brasil, as infantas, irmãs da princesa, e os infantes D. Pedro e D. António, com a Corte.

Dia de nevoeiro.

Houve a recepção monástica do costume; ao som dos sinos, repicando, chegou, primeiro, el-rei D. José acompanhado dos dois infantes, citados, e dos camaristas, numa berlinda, "e saindo dela, junto das escadas do mesmo adro, da parte do Sul, deu beija mão ao bispo de São Paulo, D. frei António da Madre de Deus Galrão, ao Guardião" e outros muitos padres graves que neste lugar o esperavam, e feitas, na igreja, as cerimónias descritas por frei João de São José do Prado, no Cerimonial moderno da província da Arrábida (Lisboa, 1752) p. 382-385, se retirou com esse mesmo luzido acompanhamento para o seu Palácio da parte do Norte, aonde se lhe tinha magnificamente preparado o seu real alojamento.

Poucos minutos eram passados, depois que Sua Majestade e Altezas se recolheram a Palácio, quando entraram, novamente, as torres, com os alegres repiques dos seus sinos, a excitar nos corações de todos um imortal júbilo com a feliz chegada da Rainha, nossa Senhora, e das Sereníssimas Senhoras Princesa do Brasil e Infantas, suas irmãs; e, saindo da primorosa berlinda, que as conduzira, junto das escadas do pórtico, cujo privilégio só é concedido às Majestades, foram recebidas, pelo R. P. Guardião e mais padres graves do Convento, com a mesma formalidade que, já

deixámos referido se praticara com el-Rei, nosso Senhor, e com os Senhores Infantes, seu irmão e tio; e, depois se recolheram para o seu Palácio da parte do Sul, acompanhadas das suas Excelentíssimas camaristas, damas de honor, gentis-homens da câmara, prelado, padres graves e mais nobreza da Corte, com que se condecorava, felizmente, aquele sítio.

Finalizados que foram estes dois tão graves e majestosos recebimentos, entrou a comunidade, às matinas do seu santíssimo patriarca, que oficiou, em pontifical, o mesmo Excelentíssimo Bispo de São Paulo que havia capitulado a vésperas, fazendo, Suas Majestades e Altezas, mais decoroso este soleníssimo acto, com as suas reais presenças, das tribunas da capela-mor, que estavam primorosamente ornadas com a mesma armação de damasco carmesim, guarnecida de galões e franjas de oiro, que tinha servido no oitavário da sagração daquele sumptuoso templo.

No dia 4 seguinte, mais claro que o antecedente, os prelados, padres graves da província de S. Francisco e o convento, subiram ao Paço, a beijar a mão às Majestades e Altezas.

Às nove horas e meia, começou a missa de pontifical "à qual assistiu publicamente, presidindo na mesma cadeira do prelado, El-Rei, nosso Senhor, associado dos Senhores Infantes D. Pedro, D. António e D. Manuel que, nessa manhã, tinha chegado da quinta de Belas.

Estavam, também, no coro, acompanhando Sua Majestade e Altezas, os ilustríssimos e Excelentíssimos Marqueses de Marialva, Condes de Atalaia e de Óbidos, Barões Condes, Secretários de Estado, os reverendíssimos confessores da Real Família, e outras muitas pessoas ilustres da Corte".

Depois, "chegou à sua tribuna da capela-mor" a rainha, com a princesa e as Infantas.

Vê-se bem que el-rei D. José gostava, tanto quanto seu pai, destas festas de igreja, em Mafra; os frades estavam contentes por sentirem no rei outro D. João V; mas enganavam-se, por bem deste país.

Acabado o pontifical saiu el-rei e foi, com as altezas, a corte e a comunidade ouvir missa à capela da Conceição; depois, à Casa De Profundis, donde, rezado o salmo de profundis, pelos frades e benfeitores mortos, "se transportaram para o refeitório. Benzeu, o hebdomadário, a mesa, e Sua Majestade e Altezas tomaram imediatamente os assentos nos primeiros lugares da mesa travessa, que lhes estavam preparados".

Levar o rei à casa dos mortos e daí à casa de jantar, depois de tanta cerimónia religiosa estava pedindo muito o regulador Marquês de Pombal. Os frades estavam bem longe do futuro bem próximo.

"Serviu-se, a mesa, com magnífica profusão, que era digno efeito da real grandeza do augustíssimo benfeitor que a ilustrava; e, levantando-se o Reverendíssimo Padre Provincial, Guardião e todos os mais religiosos, fizeram saúde a Sua Majestade, cujo obséquio repetiram por distintas vezes a todas as reais pessoas que o receberam com particulares demonstrações de agrado e de benevolência".

Diz o gongórico cronista que os frades estavam cheios de contentamento por suporem el-rei igual a D. João V, "e transfundindo-se este inexplicável contentamento aos moradores daquela terra e de outras circunvizinhas, concorreram em tão grande número, a ver aquele decoroso acto, que foi preciso, para precaver as desordens, que são indispensáveis efeitos do tumulto, assistirem alguns religiosos nas portas do Refeitório, Profundis e Ministra".

Aquele "inexplicável" traduz-se: inexprimível.

Não acabaram aqui as religiosas cortesias de que o neto de el-rei D. José, D. João VI, veio a ser tão grande apreciador; porque, "Concluída a mesa, levantou o segundo vigário do coro o hino Te Deum laudamus, e logo toda a comunidade o foi entoando até

à capela do Santíssimo; aonde, depois de se completarem as graças que se costumam dar a Deus nas clausuras regulares, em actos semelhantes, fizeram, Suas Majestades e Altezas, no mesmo lugar, a honra de admitirem os religiosos a lhes beijarem a mão, antes que se retirassem ao seu Palácio".

A festa de S. Francisco caiu no primeiro domingo de Outubro, daquele ano; houve, neste dia 4, vésperas e completas a que assistiram "Suas Majestades e Altezas, nas tribunas da casa de Benedictione", com procissão, em que el-Rei tomou parte; até que "se recolheram a Palácio, onde Sua Majestade despachou um grande número de petições que lhe haviam feito as pessoas necessitadas, daquela terra e de outras, pouco distantes, com esmolas, somente dignas da sua real grandeza e piedade."

E, eis-nos chegados ao que mais nos interessa; daqui por diante, transcreveremos na integra, até ao fim.

"Apareceu, no dia quinto, o céu sereno, claro e limpo daquelas opacas nuvens que muitas vezes ocultam os luzimentos dos seus astros; e, caminhando já, o relógio, para o décimo giro da sua incessante carreira, saíram Suas Majestades e Altezas, acompanhados de uma numerosa e ilustre comitiva, para se divertirem no gostoso exercício da caça de veados, gamos, corças e outras espécies de animais, em que abunda a nobilíssima Tapada daquela vila; e, depois de haverem gastado a maior parte do dia neste real divertimento se restituíram a Palácio, pelas seis horas e meia da tarde, com a bela satisfação de haverem sido alvos, dos seus tiros, muitos daqueles animais que não deveram à velocidade dos pés a isenção da morte.

Na tarde deste dia, determinou a Princesa, nossa Senhora, com as Sereníssimas Senhoras Infantas, suas irmãs, ir ver o Convento; e, entrando, para ele, pela porta do Noviciado que fica contígua à grande sala que há-de servir para a sua magnífica Biblioteca, onde as esperavam os prelados, padres graves e um grande número de religiosos, andaram vendo os dormitórios, igrejas, casas de recreio, da Livraria, dos lavatórios e das mais oficinas, que se conservam no interior da clausura; e, querendo, também, ir passear pelas copadas ruas da Cerca, no trânsito para ela, fizeram a estimável honra, àquela religiosa comunidade, de aceitarem, com muitas demonstrações do seu real agrado, um púcaro de água que, em nome dela, lhes havia preparado, numa casa decentemente ornada, o reverendo padre guardião, frei Sebastião de S. Lourenço, com a profusão e delicadeza que permitem as restritas leis do seu seráfico instituto.

Logo, depois, passando a examinar o primoroso artifício da Igreja e das suas preciosas alfaias, se recolheram a Palácio, em cuja porta mandou a Princesa, nossa Senhora, distribuir, pelos pobres, uma grandiosa esmola, que a receberam com alegres e repetidos vivas.

No dia seguinte, 6 de Outubro repetiram, Suas Majestades e Altezas o gostoso exercício da caça na mesma Real Tapada, e, em ambos fizeram a honra de mandarem, para a comunidade dos religiosos, uma boa parte dos despojos dos seus tiros.

De tarde, saiu a Princesa, nossa Senhora, com as Sereníssimas Senhoras Infantas, suas irmãs, a divertir-se na quinta do ilustríssimo e Excelentíssimo Visconde de Vila Nova da Cerveira, que é uma das mais famosas que hoje tem o nosso Portugal.

No dia 7, em que contava felicíssimos anos a Sereníssima Senhora Infanta Dona Maria Ana, foram, a Palácio, os prelados e padres graves da província e convento, beijar a mão a Suas Majestades e Altezas; o que também praticaram todos os fidalgos, ministros e mais pessoas ilustres que se achavam naquela assistência.

Pouco depois, saíram Suas Majestades Fidelíssimas, com os senhores infantes D. Pedro e D. António, a ver a mesma quinta do Excelentíssimo Visconde de Vila Nova da Cerveira; e, voltando para Palácio pela porta do campo, se apearam junto das escadas da portaria principal do Convento, onde os esperavam os seus prelados com a

comunidade; e, passando a examinar a maior parte da clausura, se recolheram, pelas suas novas e sumptuosas enfermarias, a Palácio; donde, mandando distribuir grandíssimas esmolas, por mais de trezentas pessoas que lhes haviam representado a sua pobreza e repartir uma considerável soma de dinheiro pelas tropas e oficiais que lhes haviam servido de guarda e, fazendo algumas insinuações aos prelados, concernentes ao bom regime económico dos seus súbditos e à indefectível assistência do culto divino, se restituíram à Corte de Lisboa, deixando os religiosos, condecorados com as maiores honras, aos moradores revestidos dos maiores júbilos, e a todos cheios de uma inexplicável saudade".

Quando el-Rei deliberou a vinda "mandou ornar de veludos, damascos e outras preciosas tapeçarias o soberbo, magnífico e sumptuoso Palácio que circunda aquela grande obra". Seria imponente ver em festa real, nos tempos em que possuíamos o Brasil, todo o Paço que ocupa toda a frente e circunda, como diz o cronista, todo o edifício, no andar nobre, pelos quatro ângulos: nordeste, noroeste, sueste e sudoeste.

* * *

Diz-se, nesta Relação: "cujo privilégio só é concedido às Majestades", ou é má redacção ou quer dizer que em casa de el-Rei se lhe concediam privilégios; a notícia deve ter sido dada pelos frades, e aqui temos uma omissão que revela a tendência, que a igreja sempre teve, para considerar os reis, da forma que considerava os chefes invasores: uns bárbaros, seus vassalos.

O Cerimonial de frei João de São José do Prado descreve o cerimonial da recepção do bispo diocesano, patriarca, em Mafra, e diz que as Majestades são recebidas da mesma forma; ora, o facto do Chefe de Estado e sua Augusta Esposa serem igualados, neste Cerimonial, ao bispo diocesano, não tem comentários.

Também não tem comentários pretender-se que o homem que reivindicou para o Rei, representante da Nação, os privilégios que lhe pertenciam, tornando-a forte, autóctona e respeitada, dando-lhe a maior das liberdades, porque a fez soberana, a e maior das forças , porque destruiu todas as forças que não eram as que constituía o seu direito, não merece ser o símbolo da democracia.

Pois se ele é o símbolo da liberdade de todos num só, da Nação, porque não há-de ser o símbolo da democracia que se formou na liberdade?

Richelieu preparou as reformas de Luís XIV, e as reformas de Luís XIV foram a causa da Revolução.

Pombal preparou o caminho a um outro rei D. José, e não teve culpa de que sucedesse, no trono de Portugal, uma D. Maria I.

Ainda assim, muito aproveitaram os contra-reaccionários de 20, na lição do glorioso Marquês, símbolo da liberdade colectiva e, portanto, da democracia.

Tornavam-se indispensáveis estes comentários àquela frase e àquele Cerimonial, e vêm muito a propósito na ocasião em que se trata de elevar um monumento a quem salvou, no Rei, a Nação, evitando o domínio, só por ele afastado, de Roma e da Espanha, a perda da nossa liberdade.

Permitisse o acaso que, ao findar o século XVI, em Portugal reinasse outro D. José e governasse outro ministro Marquês de Pombal.

Mafra, 10 de Agosto de 1905

 

Notas

1 Cf. D. António Caetano de Sousa, História Genealógica, tomo VIII, p. 431.

2 Este Breve, segundo se anuncia no título, vem no fim, nada tem de interessante, portanto não o copiaremos.

3 Concorre, deve ler-se.

4 Assistiram, deve ler-se.

5 Retiraram, deve ler-se.