Adro


Lugar a partir do qual se avista o céu aberto, ou pórtico do templo, por onde se acede ao corpus mysticum. A proximidade dele originou que o adro se tivesse transformado em cemitério.

Os trovadores galaico-portugueses chamavam sagrado a este local que lhes serviu de cenário para darem louvores a Deus, de resto, como preconizava o Salmo CL, 3: "[...] louvai-O com a harpa e a cítara, louvai-O com tambores e com danças".

Frei João de Santa Ana descreve o Adro do Monumento de Mafra nos seguintes termos: "No meio da grande praça, que fica ao poente do edifício, e para onde olha o principal frontispício dele, principia a formar-se o Adro por uma rampa cercada de 24 pilares de mármore branco formando um semicírculo, cuja principal entrada se acha designada na planta pelo n. 1. O xadrez de toda a rampa é formando de seixos brancos, e pretos com várias cintas de pedra entre eles também em semicírculos. Desde a entrada principal até ao primeiro patim tem de cada lado uma ordem de pedra mais larga cortada com cavidades para que não escorregue quem passar por elas, porque se vão elevando à proporção que a rampa se eleva. Tem esta de comprimento no meio até à entrada do patim, que se lhe segue 85 palmos e de largo de norte a sul junto ao patim 125. O n. 2 na planta designa o primeiro patim do Adro o qual está cercado até aos pilares da rampa com dois lanços de degraus, de sete cada lanço e um patamar entre os dois lanços, os quais também cercam o segundo patim, como logo se dirá. Tem o primeiro patim de norte a sul 125 palmos; e contando também o espaço ocupado pelos degraus, que estão de um e outro lado, tem 180 palmos. Todo o seu pavimento é um xadrez de seixos brancos e pretos. Tem de largo de nascente a poente 70 palmos. Deste se sobem sete degraus para o segundo patim designado na planta pelo n. 3 no qual estão as colunas entre os cinco pórticos do Átrio. Tem este patim de comprimento de norte a sul 25 palmos e de largo desde os degraus até à parede dos pórticos 39. O seu pavimento é de mármores brancos, azuis e encarnados e como  fica mais alto que o primeiro patim, por isso é cercado de 21 degraus em três lanços de sete cada um. Por baixo dele há uma casa do mesmo tamanho, que recebe luz por várias frestas, que há nos degraus, que o cercam. Entra-se para a dita casa pela casa que fica por baixo do Átrio e para esta se entra pelos dois portais que ficam entre os cancelos de ferro, que estão por baixo das duas torres. Nestas duas casas é que se enterravam antigamente os corpos dos religiosos falecidos. [...]. Segue-se do que fica dito, que todo o Adro tem de comprimento desde o princípio da rampa até à parede dos pórticos, que dão entrada para o Átrio, 200 palmos  e de largo 180 contando os degraus, que o cercam de um e outro lado" (fl.  49-50).

De facto, o Monumento de Mafra é exemplo vivo de um peculiar modo de con­ceber e dar testemunho da tradição milenarista nacional. Explicitadas pela icono­grafia, as referências iconológicas surpreendem-se mesmo diante da vista do observador, invariavelmente impreparado (outras vezes despreparado) para as detectar.

O Carrocel, desenhado no empedrado do patim do Adro que antecede o templo, constitui um dos mais evidentes sinais do que venho afirmando.

De facto, patente a todos quantos rumam à Basílica (e são compelidos a cami­nhar sobre ele), o Carrocel expõe o seu enigma aos passantes de cujo discerni­mento e argúcia, não houvessem sido progressivamente deseducados, se esperaria a decifração.

De autêntico cosmograma se trata, expressando a iniludível vontade de geometrizar tão característica da época barroca. Dois corpos tangentes, um quadrangular, outro semicircular, na razão, respectivamente, do mundo físico (espaço com seus quatro horizontes) e do mundo espiritual (tempo, ritmado pelo movimento circular dos astros), fundem-se para se homogeneizar. No centro, o Astro Rei (clone e duplicado do Rei Astro, Dom João V) expede os seus raios em todas as direcções, evocando a imagem de uma roda e desenhando imensa máquina de que o monarca é, concomitantemente, o motor e o eixo, centro imóvel e módulo regulador. Em torno a si evoluem mais ou menos rapidamente, conforme a proximidade ou afas­tamento, os grandes e os pequenos, numa espécie de fototropismo face ao Corpo glorioso do Sol monárquico, o qual, à semelhança de um relógio, ordenada e ceri­monialmente os rege, enquanto membros do seu corpo simbólico.

No exacto dia da aclamação de Dom João V, Manuel Lopes de Oliveira definia o papel do Magnânimo nos seguintes termos: "Dia também dos em que o Sol lá dessas altas esferas começa a voltar para este nosso hemisfério seu rosto e seus benéficos raios. E assim El-Rei nosso Senhor, esplendíssimo Sol Oriente da nossa Lusitânia voltan­do para estes seus vassalos os raios da sua beneficência, queira aceitar os nossos obsequiosos rendimentos".

Ora, uma vez que o Sol da monarquia lusa passa por ser o próprio Pai da Pátria e a medida de todas as suas coisas, não poderá o Monumento de Mafra tê-lo tido por bitola também?

A comprovação por intermédio do dia ton grammon (com o auxílio de linhas ou construções geométricas) vem corroborar uma tal hipótese. Com efeito, o raio da circunferência com centro no Sol, em cujo âmbito se inscreve a máxima exten­são do sistema heliocêntrico do Carrocel é uma medida recorrente no edifício e, se aplicada à sua planta geral, configura um quadrado mágico de 6 x 6 (denominado do Sol), cujo valor total equivale ao famoso número solar 666, citado no Apocalipse.

De resto, para convenientemente descodificar o Monumento de Mafra torna-se indispensável recorrer reiteradas vezes a esse livro atribuído ao vidente de Patmos, e, designadamente, aos enunciados consagrados à Nova ou Celeste Jerusalém pelos exegetas, significativo número dos quais propôs a reconstituição dela à imagem do seu protótipo, o Templo de Salomão.

A essa mesma luz, não posso deixar de considerar sintomática a omnipresente insistência da parenética coeva do Magnânimo, mas igualmente dos panegiristas então de serviço, na atribuição da Basílica de Mafra ao Salomão da Lei da Graça (Dom João V), para tabernáculo de Santo António, por antonomásia chamado Arca do Testamento, que o mesmo é dizer Arca da Aliança.

Em 1888 deu-se início ao restauro da calçada da rampa do Adro e da parte superior do próprio Adro da Basílica de Mafra, "que era feita em xadrez e em lajedo branco e preto", porquanto "tinha as pedras desta última cor meio desfeitas pela acção do tempo" (cf. O Mafrense, 30 Dez. 1888). A substituição do empedrado degradado pelo novo, preparado numa serração de Lisboa, foi dada por concluída em Fevereiro de 1889 (cf. O Mafrense, 10 Fev.).

 

 

O Sol físico e da monarquia, como módulo regulador do Monumento de Mafra

O Sol que ocupa o centro virtual do Carrocel configurou, em 1730, o modelo heliocêntrico condenado pela Igreja Romana, a qual só noventa anos mais tarde (1820) acabaria por adoptá-lo justamente em substituição do sistema geocêntrico. As quatro faces do quadrângulo "olham em linha recta para os quatro ventos principais e os quatro ângulos dele olham para os quatro intermédios" (Frei João de Santana). O grupo de sete degraus implica a semana. A rampa semicircular contém as esferas ou órbitas (coroas circulares brancas) dos seis restantes astros então considerados (sete, contando com o Sol), separadas por coroas circulares pretas, indicadoras do vazio existente entre aquelas. Na coroa circular branca periférica erguem-se vinte e quatro penitentes. simetricamente divididos por um caminho sem sombra, a estrada meridiana do Sol (físico e da monarquia), em dois grupos de doze, na razão das vinte quatro horas do dia. O quadrado, cujo lado corresponde à distância entre o ponto central do Astro Rei e a linha externa da coroa circular periférica, é o módulo regulador de todo o Monumento de Mafra. Quanto à Avenida ou Estrada do Solque se tem admitido haver sido planeada por Dom João V para unir em linha recta o seu Monumento ao Atlântico, não passa de uma presunção do publicista João Paulo Freire, por ele divulgada em 1924 (Guia de Portugal,v. 1, p. 567).